Pequim, 15/01/2007 – EM meio a notícias de que Israel está disposto a lançar ataques nucleares “táticos” contra o Irã para impedir esse país de possuir armas atômicas, a China se viu nas últimas duas semanas no incomum papel de mediadora em um conflito do Oriente Médio. O primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, visitou Pequim na semana passada em seu esforço para conquistar apoio dos membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas ao endurecimento das sanções contra Teerã. Na semana retrasada, o principal negociador nuclear iraniano, Ali Larijani, havia visitado a China.
Em um gesto de cortesia em relação à diplomacia chinesa, os dois políticos disseram que suas gestões em Pequim foram positivas. A visita de Olmert à China foi precedida da anunciada remodelação do cemitério judeu na cidade de Harbin. Os avós de Olmert se refugiaram em Harbin após fugirem das perseguições na Rússia no final do século XIX, e seu pai cresceu nessa cidade antes de se mudar para Israel. O governo chinês investiu o equivalente a US$ 385 mil na restauração do cemitério. O chefe de governo israelense afirmou que o resultado de suas conversações com os líderes chineses “superou as expectativas”.
“O fato de a China dizer que não quer o Irã armado com bombas nucleares é de grande importância”, disse à imprensa chinesa antes de deixar o país na quinta-feira. Por sua vez, Larijani procurou enfatizar, durante sua visita, que a relação entre Irã e China, e em particular seus crescentes vínculos comerciais, não seria afetada pela decisão de Pequim de aliar-se com os Estados Unidos e outros membros do Conselho de Segurança da ONU para condenar o programa nuclear de Teerã. “Naturalmente, sabemos quem está por trás destas sanções, assim, não culpamos ninguém por elas. Os países que têm relações estratégicas de longo prazo não as mudam devido a questões táticas, e está foi uma questão tática”, afirmou o negociador iraniano em entrevista coletiva.
Embora no passado se negasse a apoiar o endurecimento das sanções, a China cerrou fileiras com as potências ocidentais em dezembro, ao apoiar uma resolução unânime do Conselho de Segurança que impôs sanções ao Irã, as quais podem agravar se Teerã ignorar o prazo de 60 dias para suspender seu programa de enriquecimento de urânio. A chancelaria iraniana considerou “ilegal” a resolução da ONU e continuou enriquecendo urânio (processo que pode levar à fabricação de bombas nucleares). Isto gerou especulações de que Israel estaria considerando um “ataque preventivo” contra instalações nucleares iranianas.
O governo israelense advertiu em várias ocasiões que não vai tolerar a fabricação de armas nucleares no Irã, cujo presidente, Mahmoud Ahamadinejad, disse que “Israel deve ser varrido do mapa”. Órgão de comunicação britânicos informaram há alguns dias que fontes militares israelenses revelaram a existência de planos de contingência para destruir as instalações iranianas de enriquecimento de urânio por meio de armas nucleares táticas, caso as sanções da ONU fracassem.
Segundo o semanário britânico The Sunday Times, a revelação desses planos teve a intenção de pressionar Teerã para que detenha seu processamento de urânio e os Estados Unidos para que adotem uma postura mais enérgica. O novo secretário norte-americano de Defesa, Roberto Gates, disse que a ação militar contra o Irã é “absolutamente o último recurso”. Não seria a primeira vez que Israel faria um ataque preventivo contra uma suposta ameaça nuclear. Em 1981, aviões israelenses bombardearam um reator nuclear do Iraque, na cidade de Osirak, para impedir que o regime de Saddam Hussein possuísse armas nucleares. Na China, Olbert disse estar “surpreso e animado” pela posição demonstrada por Pequim sobre o polêmico programa nuclear do Irã.
“A China deixou absolutamente claro que é contra a nuclearização do Irã, no sentido de obter bombas nucleares”, afirmou o primeiro-ministro israelense. O apoio chinês ao endurecimento das sanções contra Teerã realmente deveria surpreender, devido aos grandes interesses econômicos de Pequim nesse país do Golfo. Doze por cento do petróleo importado por Pequim procedem do Irã, e prevê-se que está porcentagem cresça junto com a economia chinesa.
Durante a visita de Larijani à China, funcionários desse país lhe recordaram que o apoio às sanções da ONU refletia a preocupação de Pequim pela proliferação nuclear. O presidente chinês, Hu Jintao, pediu uma “resposta séria” do Irã às sanções, segundo a agência de notícias Xinhua. Entretanto, a China deixou claro que continuará negociando com Teerã. Os dois países estão prestes a finalizar um acordo sobre gás natural no valor de US$ 16 bilhões, apesar de uma advertência dos Estados Unidos de que o sócio chinês seria passível de sanções. (IPS/Envolverde)

