Irã: Resolução da ONU caminha para um impasse

Teerã, 09/01/2007 – Enquanto o mundo aguarda uma resposta do Irã à resolução 1.737 do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, funcionários governamentais reclamam a revisão da adesão ao Tratado de Não-proliferação de Armas Nucleares se este país for “ameaçado”. A resolução aprovada por unanimidade no dia 23 de dezembro impõe várias sanções a este país da Ásia central e exige que suspenda “sem demora” todas as atividades de enriquecimento e reprocessamento de urânio.

Embora a medida da ONU dê ao Irã prazo de 60 dias para agir, o presidente Mahmoud Ahmdinejad prometeu não ceder à pressão e exortou seus compatriotas a estarem prontos para uma “vitória nuclear”. O diretor da Agência de Energia Atômica do irã, Gholamreza Aghazadeh, afirmou que seu país produziu 250 toneladas de gás de hexafluoruro de urânio que foram estocados em túneis em uma central nuclear da cidade de Isfahan para alimentar as centrífugas, informou a emissora de rádio oficial iraniana.

Segundo agências de notícias do Irã, Aghazadeh também disse que as autoridades ainda não consideravam a retirada do Tratado de Não-proliferação. Quatro dias depois da resolução da ONU, o parlamento iraniano respondeu com a aprovação de uma lei urgente que obriga o governo a “rever suas relações com a Agência Internacional de Energia Atômica” (AIEA), mas, não faz menção da retirada do Tratado de Não-proliferação. Uma comissão especial criada pelo Conselho de Segurança Nacional do Irã agora estuda as relações deste país com a AIEA, organismo de controle nuclear das Nações Unidas.

A comissão decidirá o cronograma de acesso dos inspetores dessa agência às instalações nucleares do país, anunciou Aghazadeh à imprensa. Prevê-se que o diretor da AIEA, Mohammad El BAradei, informe logo ao Conselho de Segurança se sua agência cortará a ajuda ao ria, inclusive a de elementos necessários para a radioterapia contra o câncer. Em uma visita de dois dias à China na semana passada, o principal negociador nuclear iraniano, Ali Larijani, entregou ao presidente chinês, Hu Jintao, uma carta de Ahmadinejad na qual diz que o Irã ainda se rege pelo Tratado de Não-Proliferação, mas que a situação pode mudar se seu país for ameaçado.

Jintao pediu urgência ao Irã para dar uma “resposta séria” à resolução 1.737 e os funcionários chineses destacaram que as negociações são a melhor maneira de resolver a crise nuclear iraniana, informou a agência noticiosa Aftab. A mensagem entrega por Larijani foi interpretada pelo jornal radical iraniano Keyhan conmo uma ameaça aberta de retirada do Tratado. Larijani detalhou uma série de condições para que o Irã continue sendo parte do acordo, “mas, como quase nenhuma das condições mencionadas foi cumprida, pode-se interpretar que sua declaração é o prelúdio lógico de uma medida racional, isto é, abandonar o Tratado de Não-proliferação”, escreveu Mohammad Shariatmadari, editor do Keyhan.

“Há dois anos era tempo de termos nos retirado do Tratado. Se o tivéssemos feito, agora não estaríamos nestas circunstâncais”, afirmou Shariatmadari, acrescentando que o Tratado é obsoleto. O Conselho Supremo de Segurança Nacional proibiu toda crítica à política nuclear do governo, assim, não existe um debate público sobre o tema. “A voz da razão da oposição, especialmente à luz do considerável êxito dos reformistas nas últimas eleições, se faz ouvir cada vez mais à medida em que a crise se agrava”, disse à IPS um observador de Teerã que pediu para não ter seu nome revelado.

“Os iranianos aparecem na imprensa internacional gritando ‘a energia nuclear é nosso direito inquestionável’. Mas, surgem dúvidas sobre o exercício desse direito a um custo que pode ser muito alto para o país, como parece ser o caso agora”, acrescentou. A Frente de Participação Islâmica do Irã, um dos principais partidos reformistas, exortou esta semana o governo a abrir o tema à discussão pública e permitir que os cidadãos se informem sobre os custos e benefícios da tecnologia nuclear.

O partido rechaça a estratégia “injusta e hegemônica” dos Estados Unidos e de outras grandes potências, mas, critica as políticas nucleares do governo de Ahmadinejad e exige um retorno às políticas do anterior governo reformista. “Os iranianos têm também outros direitos inquestionáveis que não podem ser sacrificados pro um único direito inquestionável”, destacou a Frente em uma declaração.

Um grupo de intelectuais conhecidos como “Nacionalistas-Religiosos” expressou uma preocupação semelhante. “O respeito à democracia e aos direitos humanos é uma pré-condição para a realização de nosso direito de possuir energia nuclear”, afirmaram os intelectuais, acrescentando que a nação também tem o direito ao bem-estar, a um desenvolvimento equilibrado e a não estar em guerra. (IPS/Envolverde)

Kimia Sanati

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