Irã: Trem nuclear sem freios

Teerã, 27/02/2007 – Dissidentes do regime islâmico do Irã temem que a atitude desafiadora do presidente Mahmoud Ahmadinejad em relação aos governos contrários ao seu polêmico programa nuclear exponha a população a riscos e dificuldades evitáveis. “O trem nuclear está em movimento e não tem freios nem marcha-à-ré, porque os retiramos”, disse Ahmadinejad, segundo a agência de notícias iraniana Fars. Este novo desafio presidencial se antecipou a uma reunião entre representantes dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas – China, Estados Unidos, França, Japão e Rússia – e da Alemanha, que nesta segunda-feira examinaram, em Londres, aprofundar as sanções contra o Irã por causa de seu programa de enriquecimento de urânio.

Estes países “dizem apoiar o diálogo e a lógica, embora quando estão por perder o jogo recorram à força militar. Mas devem saber que suas armas já não são eficientes”, acrescentou Ahmadinejad. Esta postura provocadora gerou no final de semana críticas na imprensa local, apesar das advertências do regime sobre possíveis castigos a quem fizesse comentários sobre a política nuclear, por entender que poderiam comprometer a segurança nacional. Os partidários da linha dura e os conservadores, começando por Ahmadinejad, negam que eventuais novas sanções possam causar danos irreparáveis à nação.

O aiatolá Ali Khamenei, máxima autoridade religiosa do regime xiita, qualificou de falsa “a propaganda sobre a existência de um estado de emergência no Irã”. Mas o impacto das sanções começa a se fazer sentir entre os cidadãos comuns. “Quais benefícios nos trará o combustível nuclear de uma usina sem terminar (na cidade de Bushehr) para que nosso povo tenha de sofrer sanções e ser cada dia mais pobre?”, disse à IPS o diretor de uma companhia importadora de Teerã que pediu para não ser identificado.

“Importar já está difícil. Vários bancos internacionais deixaram de trabalhar com o Irã. Dependemos das importações e muitos negócios serão seriamente afetados. Menos empresas significam menos emprego e paralisia econômica”, acrescentou. O Conselho de Segurança da ONU decidiu no dia 23 de dezembro pela proibição das exportações para o Irã de materiais e tecnologia que possam ser usados por seus programas nucleares e de mísseis. O Conselho também congelou os bens no exterior das 10 principais empresas iranianas e de outras 12 instituições do país.

“Mesmo antes da imposição das atuais sanções, os negócios com o exterior estavam retraídos”, disse à IPS uma analista que também pediu para não ser identificado. “O Irã busca métodos alternativos para remediar a situação, como destinar US$ 5 bilhões para uma linha de crédito com a Turquia”, acrescentou. “Isso nos permitirá seguir importando produtos do Ocidente, mas, o processo será caro para nós e beneficiará os turcos”. O Conselho Supremo de Segurança Nacional, organismo governamental encarregado da política nuclear e das negociações, proibiu as discussões a respeito entre os setores políticos e na imprensa. Mas ainda assim o público se expressa.

“Não há dúvidas de que a energia nuclear é um direito inelienavel. Mas temos outros mais importantes e urgentes, como o bem-estar, a paz, assistência médica e liberdade. Não se pode sacrificar um direito por outro”, disse a prêmio Nobel da Paz e ativista de direitos humanos Shirin Ebadi, segundo o site Rooz. Os setores políticos concordam que o Irã tem o direito “inalienável” de possuir e usar tecnologia nuclear para fins pacíficos, mas muitos partidários do regime, incluída a Organização Mujahedin da Revolução Islâmica, questionam a política que levou o país a uma crise.

Este grupo exorta para um reinicio do caminho das negociações realizadas pela equipe dirigida por Hasan Rohani, responsável dos assuntos nucleares do governo do moderado ex-presidente Mohammad Khatami (1997-2005). “Se continuarem as imprudências e as ações irracionais, às vezes uma aventura, após o vencimento do prazo de dois meses dado pela ONU a crise poderá se agravar e colocar em risco os interesses e a segurança nacionais”, disse em um comunicado a Organização Mujahedin, pequeno, mas influente grupo reformista.

“Infelizmente, funcionários e promotores das atuais políticas errôneas políticas evitam a discussão e explicação da Resolução 1.737 da ONU à população. Se continuar como está, com o pretexto de que o inimigo toma vantagem (dos questionamentos internos), pode surgir um sério desafio às oportunidades nacionais e aos interesses vitais do país”, diz a declaração. A Organização Mujahedin reclamou o fim das provocações e ameaças, como a de abrir um período de insegurança mundial caso o Irã seja atacado, de abandonar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), de atacar países vizinhos e de vende urânio enriquecido a outras nações islâmicas.

“A população iraniana está cada vez mais preocupada com os custos impostos pela incessante corrida nuclear, e parece estar ainda mais diante da perspectiva de um ataque militar”, disse à IPS um observador que pediu para não ter seu nome revelado. “Com o que ocorreu no Iraque, agora sabem que o presidente norte-americano, George W. Bush, não é tão diferente do nosso e que é capaz de tomar uma decisão equivocada que dessa vez nos afetará”, acrescentou.

Os partidos reformistas, muito preocupados com o fato de os partidários de uma linha dura empurrarem o país a uma situação sem volta, reclamam a participação do influente ex-presidente (1989-1997) e atual presidente do Conselho de Conveniência, Ali Akbar Hashemi Rafsanjani. Hashemi, Khatami e o ex-presidente do parlamento Mehdi Karrubi procuram acalmar os ânimos e fazer com que os iranianos mais conservadores e os mais pró-ocidentais voltem aos seus cargos.

A forma mais adequada de resolver a questão nuclear iraniana é que as grandes potências desistam de suas condições irracionais, como suspender o enriquecimento de urânio antes do início das conversações, e que haja negociações, disse Rafsanjani na sexta-feira, em uma jornada de oração em Teerã. China e Rússia, países que mantêm estreitos laços econômicos, estratégicos e energéticos com Teerã, procuram atenuar as sanções de dezembro e espera-se que desta vez também se oponham a um castigo extremamente duro. (IPS/Envolverde)

Kimia Sanati

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