Oakland, EUA, 16/02/2007 – Em meio a fortes debates nos Estados Unidos sobre a ocupação do Iraque o dano causado pela humanidade ao planeta Terra, parece pouco provável que a proposta de criar uma biblioteca presidencial provoque muitas paixões. A iniciativa da biblioteca surge quando diminui no Senado a discussão sobre a decisão do governo de George W. Bush de enviar mais 21 mil soldados para o Iraque e o país toma conhecimento do informe apresentado no último dia 2, em Paris, pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), da Organização das Nações Unidas, que atribui o aquecimento global à atividade humana.
A biblioteca em questão é algo mais do que apenas outro depósito de documentos do governo Bush, será destinada ao campus da Universidade Metodista Meridional, que fica na cidade de Dallas e onde a primeira-dama, Laura Bush, foi aluna e é integrante do conselho administrativo. Além da biblioteca, à qual poderão ter acesso interessados de todas as filiações políticas para realizar pesquisas, os partidários de Bush propõem uma entidade separada chamada Instituto para a Democracia, que seria dirigido pela fundação do presidente e não pela universidade, e onde se pagaria a ideólogos conservadores para promoverem a filosofia de Bush.
No final do ano passado, o New York Daily News informou que “os arrecadadores dos fundos de Bush esperam conseguir a metade dos US$ 500 milhões (necessários para construir o projeto) a partir do que chamam de ‘megadoações' , entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões”. Embora as bibliotecas presidenciais, que são uma tradição nos Estados Unidos, estejam sob a órbita da Administração Nacional de Arquivos e Registros, o custo de construir o projeto deve ser coberto com doações de particulares.
Por exemplo, entre os contribuintes para a biblioteca do presidente George Bush (1989-1993), pai do atual mandatário, localizada no campus da Universidade A&M do Texas, em College Station, estava um xeque dos Emirados Árabes Unidos que doou, pelo menos, US$ 1 milhão; o Estado do Kuwait; a família Bandar bin Sultan; o sultanado de Omã; o rei Hassan II do Marrocos, o emir do Qatar e o ex-primeiro-ministro coreano, segundo a agência de notícias The Associated Press.
A China, por sua vez, doou dezenas de milhares de dólares. Também contribuíram o vice-presidente, Dick Cheney, e Kenneth Lay, ex-presidente da Corporação Enron, protagonista do maior escândalo financeiro dos últimos tempos nos Estados Unidos e agora na ruína. A Universidade Metodista Meridional, que competiu pelo projeto do atual presidente com as universidades de Baylor e Dallas, parece ter vencido o obstáculo final ganhando uma batalha judicial que lhe deu o direito de demolir um complexo edifício que essa entidade havia comprado para usar em parte do projeto de Bush.
O local foi comprado por US$ 35 milhões, doados por Ray L. Hunt, membro do conselho universitário e filho do magnata do petróleo H. L. Hunt. Depois, surgiu outro obstáculo inesperado: faculdades, administradores, pessoal em geral, ex-alunos da universidade e destacados membros da Igreja Metodista começaram a questionar criação da biblioteca e sua adjunta organização de especialistas conservadores. A luta em torno de sua concretização e a criação do grupo de especialistas passou por várias etapas.
Em meados de janeiro, os críticos lançaram uma campanha de petições pela Internet expressando sua total oposição ao projeto. “Até agora tivermos muito apoio para nossa campanha”, disse à IPS o reverendo Andrew Weaver, pastor em Nova York que se graduou na Escola Perkins de Teologia da Universidade Metodista Meridional. “Desde que começou, a campanha de petições conseguiu mais de 10 mil assinaturas, incluindo nove mil metodistas unidos e cerca de 600 clérigos de todo o país e do Canadá”, acrescentou.
“O que impulsiona nossa campanha são as políticas do governo Bush referentes à tortura de presos sob a guarda de militares”, explicou Weaver, que também é psicólogo pesquisador. Weaver acrescentou que “19 dos prisioneiros foram torturados até a morte, uma política que vai completamente contra os ensinos metodistas. Esse método de interrogação é contrário à nossa fé; não queremos que nossa universidade empreste seu bom nome a um presidente que a autorizou”, afirmou.
Outros críticos universitários afirmam que, embora se oponham as políticas de Bush, “não seriam contra um arquivo e um museu voltados para uma biblioteca”, informou Inside Higher Ed. “Mas criar um centro acadêmico com um objetivo especifico de impulsionar a imagem e a agenda de Bush é considerado por muitos professores com antiético para os valores acadêmicos de uma universidade”, acrescentou. Por outro lado, no começo deste mês. Andy Hemming, um estudante da Universidade Metodista Meridional e diretor-executivo da organização Jovens Conservadores do Texas, da mesma instituição, informou no site da Biblioteca Bush que uma campanha de petições em apoio ao projeto inteiro havia conseguido 500 assinaturas, principalmente de estudantes.
Nos últimos dias, o debate ampliou-se mais, para incluir uma demanda de oponentes para que a universidade rechace a biblioteca presidencial, a menos que o governo Bush reverta a ordem executiva que dava aos ex-presidentes e seus herdeiros o direito de manter em segredo documentos da Casa Branca perpetuamente. Essa ordem foi emitida sete semanas depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 que deixaram três mil mortos em Nova York e Washington. A ordem do presidente provocou uma demanda que ainda está pendente.
“Se o pessoal de Bush vai brincar com os registros, nenhuma instituição acadêmica que respeite a si mesma deve cooperar”, disse Steven Aftergood, diretor do projeto sobre Segredo Governamental na Federação de Cientistas Norte-americanos. “Goste ou não, converteu-se em um ator deste debate”, disse MArk Greene, presidente eleito dos arquivistas e diretor do Centro do Patrimônio Norte-americano da Universidade de Wyoming. “Não houve nenhuma indicação do governo Bush de que tenha de algum modo repensado a ordem executiva, e esperamos que estas negociações forneçam um possível ponto de apoio”, acrescentou.
O vice-presidente da Universidade Metodista Meridional, Brad Cheves, disse que não é realista “esperar que uma universidade consiga uma ordem executiva assinada… A política pública deveria ser debatida em praça pública e nos corredores do Congresso”. Emily Lawrimore, porta-voz de Bush, alegou que os Arquivos Nacionais já haviam divulgado dois milhões de paginas desde que foi dada a ordem executiva. “O presidente Bush emitiu está ordem para garantir que tenhamos um sistema disciplinado que incentive a revelação pública e também respeite as autoridades executivas eleitas constitucionalmente”.
A notícia sobre a biblioteca de Bush também chegou aos programas jornalísticos noturnos. Destacando que a equipe do presidente pretendia arrecadar US$ 500 milhões para o projeto, Conan O’Brien, da rede NBC, brincou que essa quantia “representaria US$ 100 milhões por livro”. Outros apresentadores de programas de entrevistas, analistas políticos e comediantes também encontraram humor, ironia e indignação neste projeto. Devido aos antecedentes dos partidários do presidente, há poucas dúvidas de que o dinheiro seja arrecadado. O que falta ver é se os oponentes ao projeto podem impedir que “a torre de Bush” seja o campus da Universidade Metodista Meridional. (IPS/Envolverde)
* Bill Berkowitz é um destacado observador do movimento conservador norte-americano. Pública periodicamente a coluna Conservative Watch na revista eletrônica WorkingforChange.org.

