Irã: As jornalistas como ameaça à segurança nacional

Berkeley, EUA, 02/02/2007 – As forças de segurança iranianas detiveram durante três dias três das 15 jornalistas que se preparavam para viajar à Índia para participar de um curso A acusação: colocar em perigo a segurança nacional. Após interrogá-las no aeroporto, no dia 25 de janeiro, os agentes confiscaram seus passaportes e as enviaram à prisão de Evin, perto de Teerã. Também as ameaçaram com um possível julgamento. Farnaz Seify, uma das detidas, contou à IPS que nos interrogatórios perguntaram a elas quem financiava o curso.

“Suspeitam de qualquer tipo de apoio dado por estrangeiros a jornalistas do Irã”, afirmou Seify, que elabora blogs, sites na Internet periodicamente atualizados que costumam funcionar como diários pessoais de consulta pública. A detenção das três jornalistas e ativistas – Seify, Mansooreh Shojayee e Tal’at Taghinia – geroou protestos nacionais e internacionais pelos maus-tratos por parte das autoridades iranianas contra a sociedade civil. Embora as mulheres tenham sido libertadas após 30 horas, são acusadas de atuar contra a segurança nacional e poderão ser julgadas em menos de dois meses.

A advogada e prêmio Nobel da Paz Shirin Ebadi anunciou que defenderá as três jornalistas. A participação em um curso não é um delito e, se fosse, nunca teriam tido a oportunidade de participar, afirmou Ebadi. Observadores e ativistas alertam que a situação de intelectuais e opositores iranianos piorou desde que o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou, há um ano, a criação de um fundo de US$ 75 milhões para “chegar ao povo do Irã”.

Este financiamento incluiria US$ 5 milhões dedicados aos jovens iranianos, para educação e “programas de visita projetados para construir pontes entre os povos de nossas duas nações”. A Holanda criou um fundo semelhante. Desde o anúncio feito por Washington, o governo islâmico do Irã tomou o controle sobre qualquer apoio a jornalistas e intelectuais por parte de organizações internacionais, e tenta desvinculá-los do mundo exterior.

“Os agentes de inteligência suspeitam da destinação de fundos do parlamento holandês para a promoção da democracia no Irã. Nos perguntaram quem organizava a conferência e onde obtinham recursos”, disse Seify, entrevistada poucas horas depois de ser libertada. Seu pai, Ali Seify, se mostrou surpreso pela detenção. “Antes de uma prisão é preciso cometer-se um crime. Estas atitudes são desumanas. Não deveriam tratar intelectuais como se fossem delinqüentes e assassinos, mandando-os para a prisão e os interrogando”, afirmou à IPS.

‘Está muito claro o que fazem os intelectuais. As forças de segurança sabem exatamente em quais atividades estão envolvidas pessoas como a minha filha, ainda melhor do que nós, seus familiares. Tratá-las dessa forma com pleno conhecimento de sua inocência é simplesmente inaceitável”, afirmou. Farnaz Seify contou: “Depois de selarem os 15 passaportes, os funcionários os confiscaram e fomos cercadas por 13 oficiais de segurança. Nos levaram a uma sala no sótão, tiraram nossos telefones celulares e mostraram ordens de prisão para três de nós. Nos escoltaram até Evin em três automóveis policiais. Nos disseram que sua intenção era impedir que jornalistas iranianos fossem corrompidos por inimigos do regime islâmico”.

As forças de segurança disseram a Seify e às outras jornalistas que serão novamente convocadas e interrogadas, e, talvez, levadas a julgamento. Funcionários iranianos mostram em diversas ocasiões preocupação pelo fato de estrangeiros, particularmente os Estados Unidos, promoverem no Irã uma Revolução de Veludo (Como a da Checoslováquia em 1989), ou Laranja (como a da Ucrânia em 2003), construindo redes da sociedade civil e fortalecendo os ativistas. Em novembro, 21 jornalistas iranianos foram interrogados pelas autoridades no aeroporto de Teerã, após voltarem de um painel nas cidades holandesas de Hilversum e Amsterdã.

Os jornalistas disseram que durante três horas lhes foram feitas perguntas pessoais que pouca relevância tinham para os efeitos de uma investigação seria. Uma semana depois dos interrogatórios, o ministro da Cultura e Orientação Islâmica do Irã, Hasan Saffar Harandi, disse que a interferência estrangeira nos assuntos iranianos é generalizada, mas não a considerou importante por não ser eficiente. “Estes projetos tiveram sucesso em poucos países, e seus organizadores pensam que também podem conseguir seus objetivos no Irã. Entretanto, há pouca possibilidade de uma revolução colorida no Irã”, afirmou Harandi.

A jornalista Parastoo Dokouhaki disse à IPS que “o governo alega que não precisa deste apoio e que a situação dos direitos humanos no Irã é bastante boa. Quando só jornalistas participam de cursos ou conferências no exterior, são erroneamente rotulados de espiões. Jornalistas e ativistas aproveitam todas as oportunidades que lhes são oferecidas para se capacitarem”, acrescentou Dokouhaki em Teerã, entrevistada por telefone. “Na realidade, os funcionários se preocupam com o conteúdo destas conferências. Temem a difusão de informação, que tem o potencial de incentivar a causa democrática no Irã”, acrescentou.

No dia 26 de novembro, agentes de segurança prenderam o jornalista Ali Farahbakhsh, que regressava de uma conferência sobre políticas de comunicação em Bangcoc. Ainda está na prisão de Evin, embora não tenham sido apresentadas acusações contra ele. Seu advogado diz que foi acusado de espionagem. O intelectual Ramin Jahanbeglu foi detido por mais de cinco meses desde abril de 2006, quando voltou de uma viagem à Índia, onde fazia pesquisas.

Dokouhaki acredita que desde a chegada ao poder do presidente de linha dura Mahmoud Ahmadinejad, em agosto de 2005, o governo ficou mais intolerante. “Os jornalistas são as vítimas destas políticas severas”, acrescentou. Nos últimos meses, as forças de segurança mostraram um particular interesse em revelar supostos vínculos entre jornalistas, intelectuais e ativistas e organizações no exterior. Entretanto, até agora não se demonstrou nenhuma das acusações feitas. (IPS/Envolverde)

* Omid Memarian é jornalista e ativista da sociedade civil iraniana. Ganhou vários prêmios, incluindo o de Defensor dos Direitos Humanos, concedido pela Human Rights Watch em 2005.

(Envolverde/ IPS)

Omid Memarian

Omid Memarian is well known for his news analysis and regular columns in English and Persian. Omid has been regularly writing for IPS since 2006. He is also a regular contributor to the Daily Beast and BBC Persian and regularly blogs for the Huffington Post. He has had op-ed pieces published in The New York Times, the Wall Street Journal, San Francisco Chronicle, Los Angeles Times, Institute for War and Piece Reporting and Opendemocracy.org. In 2005, he received Human Rights Watch’s highest honour, the Human Rights Defender Award, for his courageous work. Omid Memarian received his master’s degree from the University of California, Berkeley's Graduate School of Journalism in 2009 as a Rotary World Peace Fellow. He was awarded the Golden Pen Award at the National Press Festival in Iran in 2002.

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