Rio de Janeiro, 13/03/2007 – Rodrigo Baggio, criador de uma das melhores iniciativas brasileiras de inclusão social, que já se expandiu para oitos países, não aceitou o convite para um encontro com o presidente norte-americano, George W. Bush, durante sua visita a São Paulo. Foi uma questão de “afirmação ética”, diante da falta de respeito com que agiram os organizadores da visita, impondo condições excepcionais para o encontro e “invadindo” uma favela onde o Comitê de Democratização da Informática (CDI) tem um centro, explicou Baggio à IPS.
Essa organização não-governamental recebeu há mais de ume mês um pedido da embaixada dos Estados Unidos no Brasil para que sugerisse qual das Escolas de Informática e Cidadania do CDI em São Paulo poderia ser visitada por uma “autoridade norte-americana”, sem mencionar de quem se tratava. O CDI indicou a escola da favela Paraisópolis, com aproximadamente 84 mil habitantes. No dia 7 de fevereiro, a favela sofreu a “invasão” de 40 militares norte-americanos e alguns policiais brasileiros, sem anúncio prévio nem explicação do objetivo da ação, disse Baggio.
Além do tratamento desrespeitoso para com a população local, foi um ato temerário que poderia ter provocado incidentes armados com narcotraficantes e grupos criminosos que atuam no bairro, disse o ativista. “Não teríamos proposto essa escola se soubéssemos que o visitante seria o próprio presidente Bush”, acrescentou. Descartada a visita de Bush a Paraisópolis, foi, então, escolhido como projeto social a ser visitado a Associação Meninos do Morumbi, que busca perspectivas para quatro mil crianças e adolescentes pobres de vários bairros de São Paulo através da arte e do esporte, principalmente a música.
Baggio foi, então, convidado, junto com outros líderes sociais, para um diálogo com Bush durante a que seria sua última atividade na capital paulista na tarde de sexta-feira, depois dos atos oficiais com o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Porém, o diretor-executivo do CDI recusou o convite e a oportunidade de falar sobre seu trabalho e suas idéias ao governante da maior potência mundial, por causa dos incidentes que violaram “valores éticos” que defende e por concluir que “não seria nem mesmo um pequeno diálogo”.
Os organizadores do encontro lhe exigiram fazer “um ensaio”, para preparar “as perguntas e as respostas” que faria a Bush. O CDI e Baggio pessoalmente são partidários do diálogo, inclusive neste caso, por se tratar do presidente de uma nação, embora sua imagem esteja vinculada à guerra do Iraque, à violência no mundo” e à omissão ambiental por rechaçar o Protocolo de Kyoto sobre mudança climática, disse o ativista. Mas a forma de conduzir a preparação, a “invasão” de Paraisópolis e a sugestão de um “teatro” do encontro previamente ensaiado o levaram a cancelar sua participação.
Além disso, o discurso de Bush, destacando a ajuda de seu país a investimentos sociais na América Latina, “contradiz” a decisão de fechar o escritório no Brasil da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, que somente permanece em operação este ano para “concluir projetos” ainda pendentes, observou. O convite a Baggio, entretanto, representou um reconhecimento da excelência do trabalho do CDI, que disseminou 701 Escolas de Informática e Cidadania em quase todos os Estados brasileiros e 179 em mais oito países, seis latino-americanos, além da África do Sul e, inclusive, dos Estados Unidos. A cada ano ali são capacitados 70 mil profissionais.
Empresário e professor de informática no Rio de Janeiro, Baggio começou a usar computadores para fomentar o diálogo entre jovens de diferentes grupos sociais, em 1993. Dois anos depois, fundou o CDI para levar a tecnologia a comunidades pobres, especialmente as favelas, aproveitando maquinas usadas e depois criando as escolas informais, com apoio de algumas empresas. A expansão da iniciativa – que utiliza princípios de Paulo Freire, autor da “pedagogia do oprimido” e de um método de alfabetização que respeita a cultura local – superou suas expectativas. Foram criados centros regionais para coordenar a rede de escolas e o projeto ganhou vários prêmios internacionais. Cerca de 40% do orçamento do CDI provêm de contribuições estrangeiras, inclusive de fundações norte-americanas.
Um exemplo do sucesso de sua ação é Ronaldo Monteiro, condenado a 12 anos de prisão pelo seqüestro de um empresário na década passada. Detido em um presídio de segurança máxima, participou de um dos cursos que o CDI promove para detentos. Tornou-se educador e depois coordenador das classes. Monteiro criou, então, sua própria organização não-governamental destinada a mobilizar os presos para a prestação de serviços de informática, obtendo renda para ajudar suas famílias. Após ser libertado, continuou trabalhando em sua comunidade para reintegrar ao mercado de trabalho ex-detentos, estimulando-os a criar suas próprias empresas “hoje, seu maior apoio provem do empresário que havia seqüestrado”, contou Baggio.
A transformação que o CDI provoca também é coletiva. Em uma favela da Paraíba, uma das escolas criada há três anos resultou não somente na formação de trabalhadores em informática, mas também na recuperação da fonte tradicional de renda da população local. O habito de jogar lixo nos mangues havia provocado o desaparecimento dos caranguejos, importantes na alimentação e no comércio locais. Os alunos do CDI usaram seus novos conhecimentos de informática em uma campanha de educação ambiental. Em quatro meses, a população deixou de poluir o mangue e os caranguejos voltaram. (IPS/Envolverde)

