Teerã, 30/03/2007 – A detenção de 15 militares da Marinha Real Britânica deu ao Irã a oportunidade de difundir uma imagem de nação pacifica e não agressiva, ao contrário do que pretendem as potências ocidentais. Essa situação independe de os soldados terem ingressado ou não em águas territoriais deste país, o que determinaria a legalidade da detenção. “A tensão entre Irã e Ocidente está em um nível ascendente. Os Estados Unidos detiveram há pouco vários diplomatas iranianos no Iraque, que ainda são mantidos sob custódia”, disse à IPS um analista em Teerã que pediu para não ter seu nome revelado.
O Irã teve o cuidado de não sugerir uma troca dos soldados, capturados na sexta-feira passada, por seus diplomatas, acusados por Washington de integrarem os Guardiões da Revolução, força de segurança do regime xiita, e de financiar e armar rebeldes no Iraque. Houve um incidente similar em junho de 2004, quando oito militares britânicos foram detidos em águas territoriais deste país, mas quatro dias depois foram liberados e entregues à embaixada britânica no Irã. As circunstâncias agora são diferentes.
“O Irã está contrariado com a Grã-Bretanha por esta aliar-se com os Estados Unidos e por seu apoio a novas sanções por parte do Conselho de Segurança da ONU contra Teerã, por isso é provável que o governo iraniano procure adotar represálias mantendo mais tempo os militares detidos ou, inclusive, os acuse de espionagem”, afirmou o analista. “O incidente deu ao Irã uma oportunidade muito boa de vingar-se o Ocidente”, acrescentou. Mas no momento, as coisas estão indo bem para Teerã, já que os 14 homens e uma mulher prisioneiros admitiram ter entrado de maneira ilegal em águas territoriais iranianas, segundo a agência de notícias estatal Fars.
Teerã divulgou na quarta-feira um vídeo mostrando uma bastante tranqüila soldado Faye Turney, que disse: “Obviamente entramos em suas águas sem autorização”. Dessa forma, Turney contradiz a versão do exército britânico, segundo o qual os barcos estavam a 1,7 milhas náuticas dentro de águas iraquianas quando os soldados foram presos pelos Guardiões da Revolução. A soldado Turney prosseguiu descrevendo seus captores como “pessoas amistosas, muito hospitaleiras”. A liberação da jovem mãe de 26 anos, que permitiria a Teerã da outra demonstração de atitude humanitária, era iminente.
Entretanto, sua libertação foi suspensa pela “atitude incorreta” das autoridades britânicas, segundo declarou ontem Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional. O vídeo foi transmitido apesar das advertências de um porta-voz do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, para quem mostrar detidos em cativeiro viola as Convenções de Genebra referentes a prisioneiros de guerra. As imagens foram transmitidas pelo canal estatal Al Alam, em língua árabe, que é visto em quase toda a região do Oriente Médio, e, também, no canal IRIB.
“A decisão de mostrar as imagens dos soldados pode ser interpretada como uma resposta ao congelamento das relações bilaterais e comerciais anunciado pela chanceler Margaret Beckett”, afirmou o analista de Teerã. “O episódio foi, de fato, uma violação das Convenções de Genebra. Com essa atitude os iranianos correm risco de colocar à prova a paciência das nações ocidentais”, acrescentou. “A detenção e o processo dos militares detidos nas atuais circunstâncias pode chegar a ser uma dor de cabeça para Blair. Um dos soldados presos no Irã pode obrigá-lo a responder muitas outras perguntas dos britânicos, incluindo o papel de seu país no Iraque”, acrescentou.
Reunido com o enviado da Grã-Bretanha a Teerã, o diretor-geral para a Europa Ocidental da chancelaria iraniana, Ibrahim Rahimpour, expressou a preocupação de seu país pela crescente tensão na região desde a invasão do Iraque em 2003. Rahimpour disse que Teerã sempre manteve a compostura diante das violações de suas fronteiras pelos militares britânicos. Os dois funcionários realizam demandas a respeito, informou a Agência de Notícias da República do Irã (Irna). Além disso, a declaração do chanceler iraniano, Manouchehr Mottaki em Nova York acrescentou preocupações sobre a possibilidade de o Irã acusar os soldados de entrarem intencionalmente sem autorização e, portanto, de espionagem.
No domingo, o porta-voz da chancelaria iraniana Mohammad Ali Hosseini, disse que a nova resolução do Conselho de Segurança contra seu país violava a Carta da Organização das Nações Unidas e a legislação internacional, e acusou “algumas potências” de pressionar seu país para que renuncie aos seus “direitos legítimos”, informou a Agência de Notícias Islâmicas. “Essas resoluções não contam com apoio da opinião pública mundial”, afirmou, e acrescentou que muitos países e organismos regionais e internacionais são contra. As sanções que obrigam a República Islâmica a suspender seu programa nuclear pacífico estão em flagrante violação do artigo 25 da Carta da ONU, acrescentou.
Por sua vez, o porta-voz do gabinete Gholam Hossein Elham, anunciou no domingo a decisão do Irã de suspender parcialmente sua cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), organismo de controle da ONU em matéria nuclear, informou a Agência de Notícias de Estudantes Iranianos. O Ministério da Defesa britânico informou que a tripulação foi capturada em Shatt al-Arab, estuário comum dos Rios Tigre e Eufrates, que leva ao Golfo Pérsico ou Arábico, e limite entre Irã e Iraque. Mas a linha divisória nesse acidente geográfico, que no Irã é conhecido como Rio Arvand, é motivo de controvérsias. Um tratado assinado em 1975 entre os dois países fixou sua fronteira no centro de Shatt al-Arab, mas depois o ex-presidente iraquiano Saddam Hussein cancelou o convênio antes de invadir este país em 1980, e desatar uma devastadora guerra que terminou e 1988. Por sua vez, o Irã alega que o limite fica na parte mais profunda do rio. (IPS/Envolverde)

