Mulher: O corpo feminino, outro campo de batalha no Iraque

Bagdá, 02/03/2007 – Ao afirmar que três policiais xiitas acusados de violar uma sunita eram inocentes e mereciam ser cumprimentados, o primeiro-ministro Nouri al-Maliki criou comoção política no Iraque, onde as mulheres parecem ser mais um campo da batalha religiosa. Sabrine al-Janabi, de 20 anos, foi levada à força da casa onde vivia com o marido, na área de Hai al-Amil, em Bagdá, para uma delegacia onde foi acusada de cozinhar para membros da resistência à ocupação norte-americana.

“Um dos policiais tapou minha boca com a mão para que ninguém me ouvisse fora do quarto”, contou Janabi à rede de televisão por satélite Al Jazeera, do Qatar. “Eu disse a eles que não sabia que um iraquiano pudesse fazer isso com outro iraquiano. Implorei para que não me violassem e jurei que sou uma boa mulher, como uma irmã para eles, mas me violaram, um após outro”, acrescentou. O incomum não foi a violação cometida por uniformizados, fenômeno crescente desde a ocupação, mas a acusação pública dos agressores em um país onde nem mesmo é comum a denúncia penal destes casos.

O escritório do primeiro-ministro assegurou em um comunicado que, segundo a evidência médica, Janabi não sofreu nenhuma violação. Essa declaração levou a uma crise política. Janabi é praticante do Islã sunita, e na polícia predominam os agentes da corrente xiita. A comunidade sunita acusa a polícia de usar táticas repressivas ilegais nas “operações de segurança”. O incidente aumentou a já elevada tensão entre as duas correntes majoritárias no Iraque.

O escritório de Malik qualificou Janabi de “mentirosa” e, diante das cobranças de uma investigação independente sobre a violação feitas por organizações de oposição tanto xiitas quanto sunitas, recomendou à policia que felicitasse os acusados. Uma enfermeira iraquiana assegurou ao jornal norte-americano The New York Times que Janabi apresentava sinais de agressão sexual e outros maus-tratos físicos. Numeroso casos de violação cometidos tanto por uniformizados iraquianos quanto norte-americanos começaram a ser conhecidos desde os primeiros dias da ocupação do Iraque, em 2003.

Os primeiros foram registrados dentro da prisão de Abu Ghraib, em Bagdá. A farta documentação fotográfica de humilhações sexuais e outros abusos deram origem a uma onda de indignação dentro do Iraque e em todo o mundo. Porém, as vítimas de violação raramente a denunciam, pois temem o escárnio público. Uma muçulmana que admita ter sido violentada corre o risco de ser assassinada por parentes do agressor que procuram restaurar a honra familiar. O secretário-geral da organização religiosa sunita Associação de Acadêmicos Muçulmanos, Arit Al-Dhari, disse a imprensa está semana que as violações são freqüentes, embora tenha confirmado a tendência das vítimas de não apresentar queixas.

Mas desde que o público teve acesso às declarações de Janabi, dia 19 de fevereiro, outros casos vieram à luz. Três dias depois, uma sunita de 50 anos acusou quatro soldados iraquianos de tentarem violentá-la e também suas duas filhas. O ministro do Interior, Izzidin Dola, ordenou ao prefeito da cidade onde vive a mulher e a um grupo de dirigentes tribais que a visitassem para tomar seu depoimento. “Pelo menos quatro policiais participaram da violação e enfrentam um processo penal”, disse Dola à IPS.

Ahmed Mukhtar, diretor de uma escola na cidade de Mosul, disse à IPS que “os policiais iraquianos seguem o exemplo dos que os treinaram”, em alusão aos especialistas norte-americanos que organizaram as forças de segurança nacionais. “Os soldados dos Estados Unidos o fizeram mais de mil vezes e foram embora. Condenaram o soldado que violou e matou Abeer a cem anos de prisão, mas os iraquianos não são bobos e sabemos que terá a liberdade condicional antes mesmo do que ele próprio pensa”, afirmou. Mukhtar se referia à violação de Abeer al-Janabi, de 14 anos, cometida no ano passado perto da cidade de Mahmudiya, ao sul de Bagdá.

Abeer foi assassinada junto com seus país e sua irmã mais nova. Os soldados norte-americanos que participaram do ato queimaram os corpos das vítimas para encobrir o crime. O sargento Paul E. Cortez, de 24 anos, se confessou culpado de violação e assassinato e no dia 23 de fevereiro foi condenado a cem anos de prisão, mas poderá pedir a liberdade condicional dentro de 10 anos. Organizações iraquianas armadas de oposição à ocupação anunciaram que policiais e soldados que participarem de violações receberão “um castigo adequado”. (IPS/Envolverde)

Ali al-Fadhily

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