Toronto, 27/03/2007 – Um manual contra-insurgente das forças do Canadá, prestes a ser publicado, revela o tipo de intervenções que os militares deste país preparam para as próximas décadas, segundo um rascunho ao qual a IPS teve acesso. Parece ter ficado longe a época em que as principais potências militares definiam as batalhas fundamentalmente com tanques ou ofensivas áreas. O novo cenário militar freqüentemente implica uma guerra de base urbana, contra combatentes que agem entre a população local e, comumente, com grande apoio desta.
As insurgências são animadas por “idéias de mudança social”, e, portanto, a resposta necessariamente “envolve muito mais do que simplesmente ação militar”, diz o manual, de 250 páginas, cuja elaboração já dura dois anos. “É um enfoque multi-agências – militares, paramilitares, ações políticas, econômicas, psicológicas e cívicas – que busca não somente derrotar os próprios insurgentes, mas as causas da razão da insurgência”, acrescenta. Cada vez mais a ajuda ao desenvolvimento é usada como uma arma-chave para apoiar as campanhas contra-insurgentes dos exércitos.
O chefe do Exército do Canadá, Andrew Leslie, disse há alguns dias a jornalistas, na cidade de Vancouver, que as forças canadenses trabalham “ao lado de pessoal da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional (ACDI), pois reafirmam as atividades e os esforços diplomáticos do Departamento de Assuntos Exteriores”. Na linguagem desse ministério, esta estratégia é conhecida como “enfoque 3-D”: defesa, diplomacia e desenvolvimento atuando em conjunto para promover os “interesses” do Canadá no mundo.
O Canadá demonstra este novo enfoque no Afeganistão. O parlamentar Michael Ignatieff o chamou de “mudança de modelo”, o chefe de Defesa, Rick Hillier, o descreveu como “um olhar ao futuro”. A contra-insurgência não é nova, e as lições das guerras irregulares na história – como o caso dos Estados Unidos no Vietnã – são mais relevantes do que nunca. Segundo o principal autor do manual, esta é a primeira vez que o Canadá elabora formalmente uma instrução contra-insurgente para seus militares.
Em entrevista à IPS, o major D. J. Lambert, diretor de doutrina do Exército, destacou o “enfoque exaustivo” do texto. Para derrotar efetivamente os levantes locais, “o Exército trabalha de mãos dadas com outras agências, com uma unidade de propósitos”, disse Lambert. O informe mais recente da ACDI sobre planos e prioridades diz que suas políticas serão estabelecidas “de uma maneira consistente com a política externa do Canadá”. A agência identifica três países de “importância estratégica”: Afeganistão, Haiti e Iraque.
Em cada um deles, o Canadá é um dos cinco principais doadores. Em todos há profundas crises de segurança humanitária, ocupações estrangeiras e, particularmente no Afeganistão e Iraque, crescentes insurgências. Uma parte importante do financiamento da ACDI em cada um destes países vai para a Real Polícia Montada Canadense, que treina as forças locais.
O diretor-geral de políticas internacionais da Policia Montada, David Beer, disse perante um comitê parlamentar no final do ano passado que mais de 34.700 policiais iraquianos foram treinados dentro do programa de capacitação apoiado pelo Canadá na Jordânia. Beer acrescentou que “aproximadamente 10%” desses recrutas morreram em ação. O aparelho de segurança nos três países foi duramente criticado por organizações de direitos humanos, que denunciam abusos.
Depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington, o Afeganistão se converteu no maior receptor de dinheiro canadense para o desenvolvimento. Na década de 90, praticamente não havia recebido nada de Ottawa. Segundo a ACDI, até o final do ano fiscal 2006-2007 o “Canadá terá investido quase 600 milhões de dólares canadenses (cerca de US$ 518 milhões) desde a queda do Talibã”, movimento islâmico que governou o Afeganistão entre 1996 e 2001.
Em um período de 10 anos, que começou m 2001, o Canadá terá comprometido quase US$ 862 milhões em assistência ao desenvolvimento para o Afeganistão. Embora seja somente uma fração de seu gasto militar, a ajuda do Canadá a esse país representa uma parte significativa do orçamento anual da ACDI, de 2,5 bilhões de dólares. As forças canadenses administram dezenas de projetos de ajuda com a ACDI em todo o Afeganistão sob os auspícios das Equipes de Reconstrução Provincial, unidades formadas por soldados, trabalhadores de assistência e contratados civis.
Essas equipes “são em grande parte a realização de bons princípios de contra-insurgência, com cooperação e intenções compartilhadas pelas diferentes agências”, afirmou Lambert em uma entrevista por telefone. O modelo das Equipes de Reconstrução Provincial foi desenvolvido pela primeira vez pelos Estados Unidos no contexto da Operação Liberdade Duradoura, que começou em 7 de outubro de 2001. Desde então, estendeu-se a todo o Afeganistão, e há pouco foi usado como modelo do governo do presidente George W. Bush para enviar mais 30 mil soldados ao Iraque.
A administração Bush se referiu às Equipes de Reconstrução Provincial no Iraque como “poderosas ferramentas para conseguir a estratégia contra-insurgente”. O manual canadense diz “ser improvável que um conflito termine de forma repentina com uma importante vitória militar contra os insurgentes”, e indica que os “típicos sinais para medir a efetividade (da contra-insurgência) são os números de incidentes violentos o grau de apoio popular ao governo”.
No entender de todos, esses parâmetros continuam se deteriorando no Iraque e Afeganistão. Um informe da inteligência dos Estados Unidos sobre o Afeganistão que é muito citado, divulgado no início deste ano, mostrou um aumento dos ataques suicidas, de 27 em 2005 para 139 em 2006. Os atentados com explosivos em estradas aumentaram de 783 para 1.677, e os ataques diretos usando armas pequenas e granadas quase triplicaram, passando de 1.558 para 4.542. (IPS/Envolverde)
* Este é o segundo artigo de uma série de dois sobre a transformação das missões militares e humanitárias do Canadá.

