Bruxelas, 02/03/2007 – A população que abusa de sedativos e outros medicamentos de venda legal poderá em breve superar a de viciados nas drogas ilegais, alertou a Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife). Esta tendência parece uma paradoxal conseqüência das campanhas contra as drogas, disse à IPS o vice-presidente dessa agência da Organização das Nações Unidas, o holandês Robert Lousberg. Como resposta a estas campanhas, “os jovens tendem mais a pensar que a heroína é para os fracassados”, acrescentou, ressaltando que “a idade média dos viciados em heroína aumenta, e diminui a quantidade de viciados em cocaína”.
A Índia é uma exceção a essa tendência. “Nesse país a cocaína costuma ser muito cara, mas agora é consumida pelos novos ricos”, disse Lousberg. A Jife, com sede em Viena, é uma organização internacional estabelecida em 1968 para controlar a implementação das conversações da ONU em matéria de controle de drogas. A agência constatou uma redução o abuso de drogas duras (nome dado às que causam forte dependência, como heroína e cocaína), mas alertou sobre perigos emergentes. “A outra face da moeda da redução de dependentes das drogas duras é o abuso de remédios vendidos com receita médica. Parecem menos prejudiciais, mas não são”, disse Lousberg.
A maioria dos que dependem de analgésicos, estimulantes, sedativos e tranqüilizantes de venda legal costumam optar por eles em seu caráter de medicamentos e não como alternativa às drogas duras ilegais, segundo o informe. Nos Estados Unidos, o consumo de remédios receitados superou o de quase todas as drogas ilegais, com exceção das derivadas da cannabis (maconha e haxixe). Em 2003, 15 milhões de norte-americanos os consumiram, diz o estudo. Esse número é quase o dobro do de 1992. Esse tipo de abuso também é sério em algumas regiões da África, América do Sul e Europa. Na Nigéria, o analgésico pentazocina é a segunda droga de uso intravenoso por parte dos dependentes. Já o analgésico buprenorfina, receitado como tratamento de substituição de opiáceos, é o mais injetado pelos viciados em várias regiões da Índia.
Na França e nos países escandinavos, entre 20% e 25% dos tabletes de buprenorfina acabam no mercado negro, segundo o informe da Jife. No Brasil, Estados Unidos, Argentina, Coréia do Sul, Hong Kong e Cingapura, a agência constatou uma crescente tendência ao seu consumo por pessoas anoréxicas como método para emagrecer. A demanda desse tipo de medicamentos piorou o problema da venda e produção ilegal de remédios. A Organização Mundial da Saúde estima que nos países em desenvolvimento entre 25% e 50% desses medicamentos são elaborados sem a patente correspondente.
“O que há de realmente novo é que as vendas ilegais agora se ampliaram para produtos que causam dependência”, disse Lousberg. Há três tipos de medicamentos que acabam vendidas de forma ilegal: os fabricados sem patente, os falsos sem componentes ativos e os produzidos legalmente, mas que terminam no mercado negro após uma prescrição legítima mas não consumidas por seu destinatário. Nas nações em desenvolvimento é fácil conseguir remédios nos mercados de rua, e nos países industrializados em farmácias ilegais da Internet. “Estas são um novo fenômeno que nos preocupa muito. São boas para facilitar as comunicações entre elas e os médicos, mas, a pequena porcentagem de farmácias ilegais é uma séria ameaça para a saúde pública”, afirmou Lousberg.
Além disso, essas farmácias facilitam as falsificações ao aceitar fac-símiles de receitas. “É comum não haver contato entre o médico e o paciente, e freqüentemente o remédio é mais caro do que em uma farmácia comum”, explicou o especialista. “Muitos conhecem essas farmácias por correios eletrônicos que recebem com ofertas de Viagra. Em seus sites também vendem medicamentos que causam dependência”, acrescentou Lousberg. Outro perigo para o qual alerta o informe é que muitos consumidores elaboram suas próprias drogas através de instruções obtidas na Internet e costumam extrair o componente ativo de remédios para obter produtos mais fortes. A Jife pediu a todos os governos que alertem a polícia sobre o crescente tráfico e abuso de medicamentos e os exortou a coletar informação a respeito através de pesquisas sobre o consumo de drogas. (IPS/Envolverde)

