Mudança climática: Litorais em perigo iminente

Nova York, 30/03/2007 – Aproximadamente 643 milhões de pessoas em áreas costeiras – um décimo da população mundial – estão em grave perigo por causa do impacto da mudança climática nos oceanos, alertaram cientistas. Trata-se da primeira pesquisa a identificar populações que correm grande risco devido à elevação do nível do mar pelas cada vez mais intensas tempestades devido a transformações do clima. Os pesquisadores pertencem ao Center for International Earth Scince Information Network (Ciesin) da Universidade de Columbia (EUA) e ao Instituto Internacional de Ambiente e Desenvolvimento (IIED, sigla em inglês) com sede em Londres.

“Dos mais de 180 países com populações em zonas costeiras de baixa altitude, 130 delas (aproximadamente 70%) têm seu maior conglomerado urbano nessas áreas”, explicou Bridget Andersen, do Ciesin. “Além disso, as maiores cidades do mundo, com mais de cinco milhões de habitantes, têm, em média, um quinto de sua população e um sexto de seu território em zonas costeiras”, acrescentou. A pesquisa, que será divulgada na edição do próximo mês da revista Environment and Urbanization, avalia os riscos para as populações e os assentamentos urbanos nas costas que ficam a menos de 10 metros acima do nível do mar.

Essas áreas representam apenas 2% das terras do planeta, mas abrigam 10% da população mundial e 13% dos centros urbanos, segundo o estudo. As 10 nações com maior quantidade de pessoas em zonas vulneráveis são China, Índia, Bangladesh, Vietnã, Indonésia, Japão, Egito, Estados Unidos, Tailândia e Filipinas. Cidades como a chinesa Xangai, a indiana Mumbai, ou Dacca, capital de Bangladesh, são as mais expostas aos perigos que pairam sobre os litorais, como inundações, tempestades e ciclones.

Além disso, a rápida urbanização, especialmente na China, país com grandes zonas econômicas em expansão ao longo de seu litoral, continua atraindo cada vez mais pessoas. “As cidades costeiras crescem, em média, 20% mais rápido do que as outras e têm entre 10% e 15% de maior densidade”, disse à IPS Sharad Shankardass, porta-voz do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (Habitat), acrescentando que das 20 grandes cidades do mundo, 15 ficam no litoral.

A maioria dos cientistas concorda que o aquecimento do planeta, com suas conseqüentes transformações climáticas, é causado pelas atividades humanas, sobretudo pelo efeito dos gases liberados pela combustão de petróleo, gás e carvão, dos quais o principal é o dióxido de carbono. Esses gases vão se acumulando na atmosfera e, por sua grande capacidade de reter o calor dos raios solares, acentual o chamado efeito estufa. O Protocolo de Kyoto, que entrou em vigor em fevereiro de 2005, impõe aos países industriais que o assinaram e ratificaram a obrigação de reduzir suas emissões de gases a volumes 5,2% menores do que os de 1990, até 2012.

A pesquisa revelou que 75% das pessoas que moram em zonas de baixa altitude e dois terços da população urbana mundial estão na Ásia. De acordo com o estudo Ciesin-IIED, o Habitat elaborou em 2005 uma lista indicando que 11 das 15 grandes cidades do mundo estão em países de renda baixa ou média. Além disso, 14% da população total do Sul em desenvolvimento se encontram em zonas vulneráveis, contra 10% das nações ricas. E, 21% da população urbana nos países pobres ocupam essas áreas, enquanto nas nações da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico esse índice cai para 11%.

Portanto, os assentamentos humanos em países de baixa renda e recursos limitados são significativamente mais vulneráveis aos perigos que supõe a mudança climática. “Para mim está claro que as nações pobres sofrerão uma carga desproporcional, especialmente as que têm grandes regiões com deltas”, disse à IPS Deborah Balk, pesquisadora e co-autora do estudo. Bahamas, Holanda e Suriname têm 70% de sua população em áreas vulneráveis. A seguir estão Vietnã com 55%, Bangladesh 46% e Egito 38%.

A pesquisa foi financiada em parte pela Agência Nacional de Cooperação para o Desenvolvimento da Suécia e sua equivalente da Dinamarca, ambas com programas dedicados a questões urbanas. Os cientistas usaram dados geográficos, os mais recentes e disponíveis censos e os referentes a assentamentos urbanos para elaborar mapas onde ressaltam as populações e territórios de zonas vulneráveis de 24 países. Em seguida foi feita a classificação da informação por país, região e renda.

A quarta avaliação do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática calculou que o nível do mar pode aumentar de 22 a 34 centímetros entre 1990 e 2080. Porém, o aumento pode ser significativamente maior com o acelerado derretimento dos gelos da Groenlândia e das calotas polares, afirma o estudo Ciesin-IIED. Os pequenos países insulares têm grandes porções de suas terras em zonas de baixa altitude (16%) e, portanto, provavelmente se veriam mais afetados pelos perigos provocados pela elevação do nível do mar. Por outro lado, têm uma porcentagem menor de sua população nessas áreas. Balk explicou que isso obedece ao fato de as populações das ilhas estarem melhor adaptadas a esses perigos e costumam se assentar longe da costa.

“O estudo demonstra que se trata de um assunto crítico do ponto de vista global, e não somente para os países insulares”, disse à IPS Gordon McGranahan, chefe do grupo de assentamentos humanos do IIED e co-autor do estudo. Segundo Tanya Imola, porta-voz da Associação Internacional de Governos Locais, muitas cidades começaram a implementar programas para enfrentar a mudança climática e reduzir suas emissões de gases causadores do efeito estufa. Essas iniciativas incluem melhorias no sistema de transporte, programas de reciclagem e de eficiência energética. Mas somente umas poucas cidades começaram a pensar em como enfrentar a elevação do nível do mar e outros perigos ligados às mudanças que sofrem os oceanos. (IPS/Envolverde)

Srabani Roy

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