Irã: EUA seguem duas estratégias opostas

Washington, 06/03/2007 – A disposição a um diálogo direto com o Irã sobre o futuro do Iraque, manifestada pela secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, choca-se com o ânimo beligerante do Departamento de Defesa. Em uma reunião feita no mês passado, altos funcionários da Defesa concordaram em considerar necessário que o Irã acredite que os Estados Unidos estão prontos para atacá-lo, segundo apurou a IPS. Da reunião reservada realizada no Pentágono, sede do Departamento, nos arredores de Washington, surgiu o plano de aprofundar a retórica da guerra e prosseguir com preparativos para um eventual ataque, o que recorda os meses anteriores à invasão do Iraque em 2003. Foi o que disse um dos participantes da reunião a um informante da IPS, que pediu para não ser identificado.

Os planos do Pentágono são muito mais agressivos do que sugere o anúncio feito por Rice na terça-feira passada: que Washington e Teerã dialogarão frente a frente em uma conferência patrocinada pelo governo iraquiano. Damasco e o governo iraniano anunciaram suas presenças. Segundo o relato do participante da reunião, a decisão de enviar pelo menos 22 mil soldados a mais para o Iraque, anunciada pelo presidente George W. Bush no dia 1 dia 10 de janeiro, está mais ligada à estratégia de aumentar a pressão sobre o Irã do que ao objetivo de estabilizar o país ocupado.

Essa decisão foi atribuída à intenção de melhorar a posição do exército norte-amricano no Iraque para responder aos ataques de forças xiitas em represália contra um possível ataque de Washington contra o Irã. Alguns índicos sugerem que o discurso de Bush se integra a um contexto estratégico de endurecimento do vínculo com Teerã. Imediatamente após o discurso de janeiro, Tim Russert, da rede NBC, informou que o presidente e seus principais colaboradores haviam indicado a um reduzido grupo de jornalistas que os Estados Unidos não sentariam para conversar com o Irã enquanto não conseguisse uma posição de vantagem.

Nessa mesa oportunidade, segundo Russert, os funcionários disseram que um dos objetivos do governo é conseguir uma situação em que Washington não tenha que “acudir a Síria e o Irã” e “pedir qualquer coisa”. Essa foi uma referência indireta à posição supostamente de vantagem do Irã diante dos Estados Unidos, em razão da necessidade contida do governo Bush de pedir ajuda ao regime islâmico de Teerã para estabilizar o Iraque. Ao que parece, o mandatário assegurou que o aumento das tropas convenceria o Irã de que seu governo não dependia do fato de Teerã usar de sua influência sobre a comunidade xiita iraquiana.

A estratégia do presidente envolve um aumento da pressão sobre o Irã, que se mostra como uma ameaça contra os Estados Unidos e aos seus interesses no Oriente Médio. Ao discurso de Bush seguiu-se uma campanha de declarações e vazamentos de informação desde o governo segundo a qual o regime iraniano fornece a milícias xiitas do Iraque armas capazes de penetrar em blindados. Mas representantes de Washington admitiram a um grupo de jornalistas em Bagdá que essa acusação se baseava em “suposições”, não em evidências reais.

Para aumentar a tensão e sugerir que avança para um confronto militar, o governo norte-americano enviou porta-aviões para o Golfo Pérsico, ou Arábico. Outro passo, segundo o informante da IPS, foi enviar equipamentos de abastecimento de avios à base norte-americana da ilha Diego Garcia, no oceano Índico. “Não se pode lançar ataques aéreos contra o Irã sem esses recursos”, ressaltou a fonte. Nas últimas semanas, altos funcionários do governo tiveram muito cuidado com as palavras para sugerir que planejam um ataque contra o Irã, inclusive multiplicando os vazamentos para a imprensa sobre o assunto.

Mas “não estamos procurando uma desculpa para ir à guerra com o Irã nem planejando uma guerra contra o Irã”, disse o secretário de Defesa, Robert Gates, no dia 15 de fevereiro. O governo afirma que um ataque militar continua sendo o último recurso, caso o Irã não concorde com as condições norte-americanas para as negociações. O vice-almirante Patrick Walsh, comandante da Marinha de Guerra dos EUA, disse no dia 19 de fevereiro à imprensa em Bagdá que o exército iraniano realiza exercícios no estreito de Hormuz, entrada para o Golfo desde o oceano Índico, e que poderia usar minas para fechar a passagem.

Walsh definiu as minas como “um tipo de arma de ataque terrorista”. O Irã sempre ameaçou fechar o estreito de Hormuz, mas, somente como represália diante de um eventual ataque norte-americano. “A pergunta não é o que os Estados Unidos planejam, mas o que o Irã planeja”, acrescentou o comandante. Essa declaração indica que Washington pretende apresentar o Irã à comunidade internacional como uma ameaça para seus aliados e para a segurança no Oriente Médio.

Um ex-secretário de Defesa-adjunto do governo de Bill Clinton (2993-2001) e ex-embaixador na Arábia Saudita, Chas Freeman, comparou a escalada de pressão militar de Bush com o “brinksmanship” (estar a bordo de), estratégia de constante ameaça de guerra contra a China que costumavam formular o presidente Dwight D. Eisenhower (1953-1961) e seu secretário de Estado John Foster Dulles. “Ao deslocar forças para acrescentar credibilidade à ameaça, aumenta-se o risco de conflito militar, que é, de fato, o que se busca”, disse Freeman à IPS.(IPS/Envolverde)

(*) Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança dos Estados Unidos. “Perigo de domínio: desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã”, seu último livro, foi publicado em junho de 2005.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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