Palestina: Unidos e isolados

Jerusalém, 23/03/2007 – A constituição de um governo de unidade na Palestina impediu que a crise entre os partidos Hamas e Fatah degenerasse em uma guerra civil, mas pode não conseguir seu segundo objetivo: o fim das sanções econômicas internacionais. Após meses de complicadas negociações e choques violentos que acabaram com uma centena de vidas, o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) e o secular Fatah conseguiram finalmente um acordo político no último final de semana.

Quando o primeiro-ministro, Ismail Haniyeh, do Hamas, propôs um gabinete ao presidente Mahmoud Abbas, líder do Fatah, sugeriu poucos detalhes do programa do novo governo. Tudo o que disse foi que a prioridade seria acabar com “a anarquia da segurança” em Gaza. A plataforma do governo de unidade inclui a preservação da trégua com Israel e uma vaga referência a cumprir tratados interinos de paz assinados antes pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e o Estado judeu.

No entanto, não cumpre as três demandas-chave da comunidade internacional para que o novo governo seja reconhecido e as sanções levantadas: não houve uma clara renúncia à violência, nem um compromisso claro de adesão aos acordos existentes, nem um reconhecimento do Estado de Israel. Como era previsível, no domingo o gabinete israelense votou por ampla maioria a manutenção do boicote ao governo palestino.”Israel espera que a comunidade internacional não se deixe enganar pela formação de um governo palestino de unidade, e que persista em sua posição de isolar o governo que rejeita os princípios propostos pelo Quarteto (instância mediadora intgrada por Estados Unidos, Rússia, Estados Unidos e Organização das Nações Unidas)”, disse o primeiro-ministro, Ehud Olmert.

Porém, o governante deixou claro que manterá seus contatos com Abbas, a quem considera um interlocutor moderado e confiável. O governo dos Estados Unidos e as autoridades da União Européia anunciaram que manterão vínculos com membros do novo governo de unidade não pertencentes ao Hamas, e a Noruega informou que restabelecerá relações plenas com a Autoridade Nacional Palestina. Porém, a Noruega não integra a UE e tanto funcionários desse bloco como de Washington deixaram claro que não estão dispostos a levantar o embargo econômico em vigor desde que o Hamas formou um governo, ao vencer as eleições de janeiro de 2006.

Alguns funcionários europeus agora expressam cuidadoso otimismo, sugerindo que o novo governo palestino acabará cumprindo as condições necessárias para o fim das sanções. Mas o Departamento de Estado norte-americano insistiu está semana que não houve nenhuma mudança nas condições que levaram o Quarteto a estabelecer as sanções. A secretária de Estado, Condoleezza Rice, disse que queria saber o significado, na plataforma do novo governo, a referência ao “direito à resistência” do povo palestino.

“Não tentarei interpretar o que significa o direito à resistência, mas lhes direi que não me soa muito bem quando alguém fala sobre todas as formas de resistência”, afirmou. “Assim, transmitiria a pergunta ao governo palestino e ao seu primiro-ministro. Vocês se referem ao direito à resistência por meio da violência? Esperamos uma resposta”, acrescentou. Enquanto Rice fazia estes comentários, na segunda-feira, a ala armada do Hamas assumia um tiroteio perto da faixa de Gaza em que um civil israelense saiu ferido.

O alto representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Européia, Javier Solana, também advertiu que o novo governo palestino não cumpriu as condições apresentadas pelo Quarteto para levantar as sanções. “Esperamos que este governo adote as posições do Quarteto, agora dentro do possível e, por fim, completamente”, afirmou. Depois de completado o acordo entre Fatah e Hamas, Haniyeh se referiu ao que via como posições discrepantes entre Estados Unidos e União Européia.

“Sem dúvida, há uma posição diferente por parte do governo norte-americano e os israelenses”, afirmou. Outros funcionários palestinos também manifestaram esperanças de os líderes europeus começarem a restabelecer laços com a perspectiva de levantar o embargo. Porém, Abbas está consciente de que, embora a formação de um governo de unidade possa ter impedido uma luta sangrenta entre Fatah e Hamas, pelo menos agora, não solucionou o acerto das nações.

É claro que Abbas quer manter contatos com Israel, pois teve extremo cuidado em não designar seus principais colaboradores para postos ministeriais. Desta forma, habilitou o Estado judeu a manter contato com eles sem vincular-se diretamente com o governo palestino. No entanto, o primeiro-ministro israelense luta por sua sobrevivência política. Um comitê que investiga a campanha militar no Líbano, em julho e agosto de 2006, vista como desastrosa por muitos israelenses, divulgará em breve suas primeiras conclusões. Neste contexto, para Olmert o governo de unidade palestina não representa nenhuma nova dor de cabeça. (IPS/Envolverde)

Peter Hirschberg

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