Tabaco: O lucro que vem da fumaça

Blantyre, Malawi, 05/04/2007 – Os preços do tabaco e a produção do Malawi caem, em meio à pressão de ativistas que lutam contra o hábito de fumar e à débâcle agrícola generalizada. O país ainda não avançou na promoção de cultivos que substituam seu principal produto de exportação, chamado de “ouro verde” por seus habitantes. Historicamente, a folha de fumo é considerada a tábua de salvação da economia neste país africano sem riquezas minerais. Até 70% das divisas estrangeiras que entrem no Malawi procedem desse cultivo, enquanto 80% dos trabalhadores são empregados pela indústria do tabaco.

Esta nação da África austral concentra 2% da produção (e 20% da variedade burley), bem como 5% das vendas mundiais, segundo o Banco Mundial. A Associação de Tabaco de Malawi (Tama), que promove e protege os interesses dos plantadores, diz que este produto também representa 13% do produto interno bruto do país e 23% da base de impostos. A origem desses cultivos no país remonta a 1889, quando foram introduzidos por imigrantes procedentes do Estado norte-americano de Virginia.

Nos últimos anos, a indústria do tabaco luta por sua sobrevivência, ameaçada pela campanha contra o vício de fumar empreendida por ativistas liderados pela Organização Mundial da Saúde. Outros desafios para os produtores do Malawi são a escassez de compradores e os baixos preços dos leiloes, negociações habitualmente diretas entre comprador e vendedor em torno das condições de transação. Os pequenos agricultores ficam presos em uma armadilha. Um deles é Dongo Msiska, que dedicou a esta atividade a maior parte de seus 55 anos.

Aos 24 anos, assumiu os 50 hectares que eram de seu pai. A vida de sua família e as de seus 33 empregados dependem do tabaco. Nos últimos três anos, a renda de Msiska caiu em queda livre devido à baixa dos preços básicos dos leilões. Desde então, foi obrigado a reduzir a produção pela metade. “Não podia comprar insumos suficientes para a produção com o dinheiro conseguido no ano passado. Tive de diminuir a produção e demitir alguns trabalhadores”, disse. Seus problemas foram conseqüência da catastrófica queda das vendas, que chegou a 15% no ano passado, passando de US$ 162 milhões para US$ 137 milhões entre 2005 e 2006, segundo a Comissão de Control do Tabaco (TCC).

O presidente do Malawi, Bingu wa Mutharika, ele mesmo um produtor, admitiu que a indústria do tabaco perdeu viabilidade. O mandatário, junto com os ministérios da Agricultura e do Comércio, pediu que os agricultores de tabaco considerem com urgência alternativas como algodão, mandioca, soja, produtos lácteos e arroz, entre outras possibilidades. Cerca de 40 mil plantadores seguiram esses conselhos nos últimos seis anos, segundo a TCC.mas, as propostas de diversificação não impediram Mutharika de continuar lutando pela sobrevivência da indústria do tabaco.

No ano passado, o presidente acusou os compradores de tabaco residentes no país de formação de cartel, e os advertiu que, se não melhorassem os preços básicos nos leilões, deveriam abandonar o Malawi. Mutharika impôs um preço mínimo de 110 centavos por quilo para as folhas de qualidade padrão e de 170 centavos para as de qualidade superior. Mas os compradores realizaram um boicote e obrigaram o governo a admitir a derrota. Desde então o presidente qualifica os compradores que desafiaram os preços básicos de “ladrões” e “exploradores”.

Por outro lado, o Malawi negocia com outros países africanos produtores de tabaco – Moçambique, Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue – um convênio de cooperação em mercadotecnia e para agregar maior valor à folha. Apesar da pressão sobre o setor, a maioria dos agricultores do Malawi, através da Tama, se mostrou reticente quanto à estratégia de diversificação, porque o tabaco ainda é o cultivo de maior valor comercial. O secretário-executivo da Tama, Félix Mkumba, alega que o mercado da folha está garantido, pois toda a produção é vencida, embora a preços baixos. “Aceitar a diversificação total será suicídio”, afirmou.

Por sua vez, David Mkwambisi, da Faculdade de Agricultura Bunda, da Universidade de Malawi, considera que o tabaco já não é a coluna vertebral da economia nacional. Este especialista isso ao fato de governo e setor privado não terem adotado medidas para potencializar a produção. Pelo contrário, os produtores foram castigados com impostos que não foram reinvestidos no setor. Mkwambisi afirma que os problemas da indústria mundial do tabaco não constituem a principal preocupação. Para ele, a maioria das dificuldades tem sua origem dentro do Malawi.

Mkwambisi também tem dúvidas sobre a política oficial de diversificação. “O algodão foi identificado como o cultivo para substituir o fumo, mas nada foi feito para promovê-lo”, disse. “Por que o presidente se apressou a anunciar a diversificação? Por acaso temos mercados para o algodão, a mandioca, a soja? Por que deveríamos ampliar a agricultura para esses produtos se ainda não encontramos os mercados?”, perguntou o especialista.

Mkwambisi também destacou que, mesmo sem considerar as campanhas mundiais de saúde contra o fumo, depender de um único cultivo para o crescimento econômico supõe um planejamento extremamente ruim. “Ao depender somente do tabaco, como país caminhamos economicamente sobre uma linha muito fina”, alertou. Enquanto isso, a produção de fumo no Malawi desmorona. A TCC assinalou que o rendimento do tabaco diminuiu 18 milhões de quilo este ano, chegando a 140 milhões de quilos. Os compradores internacionais demandam 170 milhões de quilos, o que significa que o Malawi tem déficit de 30 milhões de quilos. (IPS/Envolverde)

Pilirani Semu-Banda

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