Montevidéu, 09/04/2007 – Diante da renovada ameaça da dengue em vários países da América do Sul, a infra-estrutura para detectar a doença se torna prioritária. Porém, os laboratórios não substituem a eficácia do diagnóstico clinico que compete ao pessoal médico. O Dia Mundial da Saúde, comemorado no sábado, foi dedicado à segurança internacional diante de doenças emergentes, acidentes biológicos e desastres naturais, enquanto vários países sul-americanos lutam contra sua propagação.
A dengue é uma doença viral transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, que contrai o vírus ao absorver o sangue de uma pessoa infectada, e contagia quando pica outra pessoa sã. Os sintomas são febre, cefaléias e dor muscular. A dengue hemorrágica inclui também dor abdominal forte, náuseas, sangramento da pele e mucosas.
No Paraguai, que desde 2000 dotou-se de laboratório para detecção da doença, os testes demonstram os problemas do diagnostico clínico quando uma enfermidade não é bem conhecida. Desde que surgiu a epidemia, em março de 2006, foram registrados nesse país 24.781 casos de dengue, dos quais cinco mil se confirmaram, disse à IPS o diretor-geral da Vigilância da Saúde, Gualberto Piñanez. Até a data houve 13 vítimas fatais, seis por dengue hemorrágica, cinco por uma variante que ataca os órgãos vitais e as duas restantes por uma mistura de ambas. “Atualmente são informados entre cem e duzentos casos por dia. Isto mostra uma importante queda, pois no momento do auge, em fevereiro, recebíamos entre 500 e 600 por dia”, disse Piñanez à IPS.
No Paraguai houve uma grande epidemia em 1988 e 1989, e em seguida em período de 10 anos sem manifestação da doença. Mas em 1999, foram registrados novos casos e em 2000 surgiu outro foco. O atual, iniciado em 2006, é o mais grave.
Existem dois tipos de análise para diagnosticar a dengue em amostras de sangue. Para confirmar se se trata da doença, é feito o de detecção de imunoglobulina M (IgM), e para conhecer o serotipo do vírus, dos quatro conhecidos, se pratica a chamada reação em cadeia da polimerasa (PCR). Até a epidemia de 2000, o Paraguai só contava com centros para os exames de IgM. Mas agora ha laboratórios privados e estatais em todo o território, capazes de também fazerem a análise do PCR. O principal deles fica em Assunção e pertence ao Ministério de Saúde Pública.
Existem, ainda, laboratórios nas zonas fronteiriças com Brasil e Argentina. Também neste país há laboratórios para detectar a doença. Alfredo Seijo, diretor da Unidade Dengue do Hospital Muñiz, de Buenos Aires, garantiu que existe um sistema “muito eficiente” de controle nacional e provincial. O Instituto Nacional de Enfermidades Virais Humanas Doutor Julio Maiztegui, em Pergamino, na província de Buenos Aires, fabrica uma vacina contra a febre hemorrágica, e controla a qualidade das análises de dengue e de outras infecções, como a febre amarela e o arbovírus da encefalite que são feitos nas províncias.
“Há laboratórios em praticamente todas as províncias com risco”, no centro e norte do país, destacou Seijo. Em Salta, no norte, que em parte faz fronteira com a Bolívia e que foi severamente afetada pela dengue no passado, agora conta com quatro laboratórios. Em Buenos Aires há outros quatro, capazes de realizar diagnósticos rápidos e seguros, acrescentou. No Uruguai – que junto com o Canadá são os únicos da América Latina livres de dengue autóctone, contraída por picadas de mosquitos locais – ainda não existem laboratórios de PCR, por isso a análise de serotipos é enviada para bem longe, ao Centro de Controle de Enfermidades de Porto Rico. Isso fez com que o governo informasse em 18 de março que havia sido detectado o primeiro caso de dengue autóctone, de um homem de 30 anos do departamento de Salto, que ainda permanece hospitalizado.
Mas depois de receber de Porto Rico os resultados preliminares negativos de 11 amostras de PCR enviadas, o Ministério de Saúde Pública do Uruguai negou a existência de dengue autóctone. Estes resultados confirmaram que neste ano só foram constatados casos “importados”, três procedentes do Paraguai e um da Bolívia. Por outro lado, 50 casos foram descartados e 26 estão sob análise. O mosquito transmissor foi erradicado do Uruguai em 1958, após uma dura campanha de 11 anos, mas reapareceu em 1997.
Nos últimos anos aparecem cerca de 20 casos anuais no Uruguai. Em 2006, por exemplo, muitos soldados uruguaios das forças de paz da Organização das Nações Unidas “importaram” a doença contraída no Haiti. As autoridades sanitárias asseguraram que para este ano os laboratórios do ministério continuarão fazendo os exames de IgM, que logo poderão passar aos centros assistenciais. Além disso, em um mês o ministério contará com um centro para as análises de PCR.
Por outro lado, em um país como o Brasil, que há 20 anos enfrenta epidemias de dengue, os problemas não são por falta de laboratórios eficazes nem de insumos para os exames. O reiterado surgimento de focos e as mortes se devem à desorganização da saúde pública, segundo o médico Rivaldo Venâncio da Cunha, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e membro do Comitê Assessor do Ministério da Saúde em questões de dengue.
O único diagnóstico rápido e eficiente quando há milhares de infectados em uma cidade é o clinico, que depende da capacidade do médico e de outros agentes de saúde em reconhecer a doença. Os exames só são feitos em casos duvidosos ou muito graves, explicou Cunha. O último boletim epidemiológico, de 26 de março, indica um agravamento da epidemia brasileira, com 234.909 casos suspeitos notificados este ano ao Ministério da Saúde, e aumento de 39% em apenas uma semana.
O Mato Grosso do Sul, na fronteira com Bolívia e Paraguai, enfrenta uma epidemia, com 41,18% do total de casos do País (55.567, dos quais 46.082 na capital, Campo Grande). Com febre hemorrágica, forma mais grave da doença, foram registradas 124 pessoas, nenhuma delas no sul, e 17 mortes. O mosquito está por toda parte, o Brasil não conseguiu controlá-lo, apesar de existir o Levantamento de Índice Rápido de Infestação por Aedes Aegypti, implantado pelo Ministério da Saúde, que acompanha a densidade dos insetos em cada cidade ou bairro e permite prever onde podem ocorrer os focos da doença.
As primeiras menções de dengue em algumas cidades datam de 1916 e 1923. Mas a primeira epidemia comprovada em laboratório ocorreu em 1981-1982 no Estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela, e a partir de 1986 no Rio de Janeiro, se espalhando a outros Estados nos anos seguintes. Desde então, chegaram os vírus 1, 2 e 3 da dengue. Teme-se que a chegada do tipo 4, mais perigoso e com maior repercussão porque a população não está imunizada.
Na Bolívia, a cooperação cubana é fundamental para controlar as epidemias geradas pelas inundações nas regiões amazônicas, onde ainda vigora a emergência sanitária, disse a IPS o responsável de Epidemiologia do Ministério da Saúde, René Barrientos. Em 2006, uma opinião pública contrária aos vínculos com Cuba no oriente impediu a instalação de um laboratório cubano de diagnostico em Trinidad, capital do departamento de Beni, uma das zonas mais afetadas pelas inundações ocorridas entre dezembro e março, mas, a ameaça da dengue mudou a situação.
De janeiro até hoje, o escritório de Barrientos registrou 3.900 casos de dengue, 90% deles no departamento de Santa Cruz, e os restantes 10% em Pando, Beni e Chuquisaca. Os casos se multiplicaram por 10 em relação aos 400 que se registrava nos últimos anos, disse o funcionário. Uma pessoa morreu por dengue hemorrágica, que foi diagnosticada em 12 pacientes, sete deles confirmados.
Quatro laboratórios instalados pelo governo cubano em Santa Cruz de la Sierra, Trinidad, Pando e Tarija ajudaram o diagnóstico rápido de enfermidades mediante “ultramicroanálises”, sem custo para os pacientes. Por causa das inundações, se espalharam dengue, leptospirose, hantavírus e infecções respiratórias. E se espera pela malária, que chegará quando baixar o nível das águas nas regiões tropicais, disse o Ministério de Saúde boliviano.
A primeira epidemia de dengue clássico documentada em laboratório da América foi a que afetou o Caribe e a Venezuela em 1963 e 1964. Nos anos 80, Brasil, Bolívia, Equador, Paraguai e Peru sofreram seus primeiros focos. M 1981, Cuba notificou o primeiro foco de dengue hemorrágica no hemisfério. (IPS/Envolverde)
* Com colaborações de Marcela Valente (Argentina), Franz Chávez ( Bolívia) e Mario Osava (Brasil).

