Caimanera, Cuba, 13/04/2007 – “Quando eles (os fuzileiros) chegavam, minha mãe me trancava em casa”, conta Elia Torres. Aquele espetáculo de dezenas de homens ávidos por distração fácil e o temor familiar é a primeira lembrança desta cubana quando se recorda de 50 anos atrás na província de Guantânamo. Situado cerca de 20 quilômetros do centro da capital de Guantânamo, de mesmo nome, e a mais de 900 quilômetros a sudeste de Havana, este município litorâneo é conhecido, antes de tudo, porque uma boa parte de seu território está ocupada pela base naval dos Estados Unidos.
Caimanera é um “município fechado” onde não é qualquer um que entra. Seus mais de 11 mil moradores devem portar um documento que os credencia como tal e pelo menos dois postos militares revisam minuciosamente essa identificação e as autorizações que todo visitante tem que solicitar com alguns dias de antecedência. Perto da entrada, um enorme cartaz proclama aos quatro ventos que se pisa a rua da “primeira trincheira antiimperialista”. Depois, a vista se perde nas salinas, principal fonte de trabalho na região e de onde procede o sal consumido por sete entre cada 10 habitantes de Cuba.
Quando na base explode uma mina terrestre, ou são realizadas práticas militares, o estrondo é sentido em toda Caimanera, que também pode observar no céu o fogos artificiais que costumam acompanhar a celebração do 4 de julho, festa da independência dos Estados Unidos. A área ocupada pelos norte-americanos é de 117,6 quilômetros quadrados, na entrada da baía de Guantânamo, que lhes foi cedida em arrendamento perpétuo por um convênio bilateral assinado em 1903. Hoje, Washington paga US$ 40.085 por ano, que são depositados em um banco norte-americano porque o governo de Fidel Castro sempre se negou a receber.
Não faltam sugestões, em resposta aos festejos norte-americanos, para que do lado cubano também recorra aos fogos de artifício no dia 1º de janeiro ou 26 de julho, a mais importante celebração do calendário revolucionário desta ilha do Caribe. Porém, as autoridades dizem que preferem “utilizar os recursos em escolas ou saúde pública”. Professoras da escola primária Wilfredo Gonce Cabrera afirmam que seus alunos não sofrem estresse psicológico por viverem tão perto o enclave militar de um país como os Estados Unidos, afastado de Cuba por um conflito que tem a mesma idade do processo revolucionário iniciado em janeiro de 1959 e liderado por Castro.
“A aula não é interrompida quando acontece a explosão de algum artefato, já estamos acostumados”, afirmou Idaelia Luna, diretora há 22 anos dessa escola fundada em 1961 e reformada no ano passado. Luna contou, orgulhosa, que mais de cem ex-alunos hoje são médicos e mais de meia centena são profissionais em outras áreas, entre eles nove professores que integram o corpo docente do Filfredo Gonce Cabrera. “Nasci e cresci em Caimanera, por isso conheço bem todos meus pacientes e seus problemas. isso é importante para o diagnostico”, disse Yordani Marrón, médica de família em um dos 13 consultórios do município.
Em saúde, educação e demais áreas sociais e econômicas se tem como política incentivar a permanência profissional dos habitantes originários. “Procura-se fazer com que as vagas sejam ocupadas por gente daqui”, explicou Leonel Haber, especialista em pediatria do hospital materno-infantil Gustavo Adolfo Moll. O médico acrescentou que em Caimanera, além dos salários, recebe-se um adicional de 30% seus moradores se beneficiam de um plano especial que acrescenta alimentos como carne e leite à cesta básica racionada distribuída em todo o país e preços subsidiados.
O hospital tem entre seus êxitos sanitários zero de mortalidade infantil desde meados de julho de 2003, graças a uma estratégia que envolve não só o setor da saúde, mas também as empresas, que fornecem assistência médica à trabalhadora gestante, acrescentou o pediatra. Longe estão os tempos em que a saúde era um privilegio de poucos. Elia Torres, hoje com 63 anos, e enfermeira aposentada, também recorda que não foi atendida de uma gastroenterite que sofria porque seus país não tiveram o dinheiro suficiente para pagar a consulta no único centro sanitário que existia há cinco décadas neste povoado. “Por essa época aqui não havia escolas nem médicos como agora, mas existiam muitos bares e prostíbulos”, contou. Devido a problemas de saúde e para fugir da solidão, Torres vai diariamente à Casa do Avô do povoado, onde é a mais jovem das 24 pessoas da terceira idade atendidas no local entre sete da manhã e quatro da tarde.
A enseada de Guantânamo tem 19 quilômetros de comprimento e oito de largura. A base naval norte-americana está localizada no terreno que se estende dos dois lados de um estreito canal situado no extremo sul da baía, que permite a entrada de navios de grande tonelagem. Os moradores de Caimanera acreditam que se pudessem dispor dessa area para turismo internacional, ou outras atividades econômicas, tanto o município quanto o restante da província de Guantânamo teriam melhores condições de vida e maior desenvolvimento. “Eles têm a parte mais importante e de melhores condições. É uma seria limitação para a província não poder dispor desse recurso natural”, disse à IPS o historiador José Ramón Sánchez, de Guantânamo.
Sánchez assegurou que até os anos 80 houve muitos conflitos com o enclave, violações do espaço aéreo, desembarques clandestinos e outros atos hostis, mas, “a partir da década de 90 se conseguiu uma distensão na linha divisória”. Em momentos florescentes da base, em meados do século XX, chegou a haver mais de 12 mil trabalhadores cubanos no enclave, contou Sánchez. Atualmente, restam apenas três, segundo funcionários do governante Partido Comunista de Cuba. Isto reduziu drasticamente as possibilidades de intercâmbio da população civil cubana com a base, onde o governo norte-americano de George W. Bush mantém cerca de 450 prisioneiros acusados de pertencerem à rede terrorista Al Qaeda e ao movimento islâmico afegão Talibã. Os detidos sofrem condições sub-humanas, segundo várias organizações internacionais.
“Os guantanameros ficam ofendidos porque, quando se fala dessa prisão na imprensa internacional, nem sempre se esclarece que está em um território cubano ocupado pelos Estados Unidos”, disse Sánchez. Havana exige a devolução à sua jurisdição da área em que a base está enclavada. Além disso, em 2004 e 2005 tentou-se, sem sucesso, promover uma resolução condenando os Estados Unidos pela violação dos direitos humanos na base. Neste contexto, o governo de Cuba permitiu em janeiro que um grupo de pacifistas marchasse até o perímetro fronteiriço da base para exigir o fechamento da prisão, a revogação da Lei de Comissões Militares aprovada por Bush no ano passado e a restauração do instrumento do hábeas corpus. (IPS/Envolverde)

