Cabul, 05/04/2007 – Associações de imprensa do Afeganistão e da Itália exigiram do movimento islâmico Talibã a libertação do jornalista afegão Ajmal Naqshbandi, seqüestrado no dia 5 de março. Naqshbandi foi capturado no sul do Afeganistão junto com o jornalista do diário italiano La Repubblica com quem trabalhava como intérprete, Daniele Mastrogiacomo, libertado em 20 de março, e com seu motorista, Sayed Agha, degolado no dia 13 desse mês. Os três foram “presos por entrarem em nosso território sem autorização”, informou o Talibã, a organização que dominou o Afeganistão entre 1996 e 2001.
Esse grupo, que controla a província de Helmand, também indicou que os seqüestrados eram interrogados sob suspeita de serem espiões a serviço das forças militares britânicas, empenhadas em uma ofensiva contra o movimento islâmico. Mastrogiacomo foi libertado em troca da libertação de quatro dirigentes talibãs presos em Cabul, mas o comandante talibã mula Mohammad Dadullha decidiu manter preso Naqshband. Dadullah exigiu em seguida que o governo do presidente Hamid Karzai trate com ele sobre a libertação de outros três talibãs. Há dois dias, deu uma semana de prazo antes de matar seu prisioneiros.
Desde o começo do caso, Dadullah pretende, sobretudo, a libertação do ex-porta-voz talibã Mohammad Hanif, que se suspeita ter colaborado com o governo depois de sua captura, em janeiro. Segundo versões não confirmadas, Hanif se nega a deixar a prisão porque Dadullah o mataria por traição. “Os jornalistas não podem nunca ser considerados prisioneiros de guerra. Nossa missão é informar objetivamente sobre o processo afegão”, diz o pedido ítalo-afegão, divulgado em uma entrevista coletiva coberta por todos os meios de comunicação afegãos e internacionais.
A petição está dirigida ao Talibã, “e em particular ao comandante Dadullha, que retém nosso jovem colega” para que o liberte “imediatamente”. Naqshbandi tem 25 anos. O texto faz sua a recomendação de que “todas as partes envolvidas no conflito armado devem proteger e respeitar a liberdade dos jornalistas (…) e, ao mesmo tempo, libertar os que estão em cativeiro”, feita pelo recente Fórum dos Meios de Comunicação e Sociedade Civil do Afeganistão, realizado em Cabul no último dia 28 e organizado pelo grupo afegão The Killid Group e pela agência internacional de notícias IPS.
A guerra, travada principalmente no sul, coloca frente a frente talibãs e outros insurgentes com cerca de 40 mil soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), especialmente dos Estados Unidos, e o exército do Afeganistão. O Talibã governou este país até novembro de 2001, quando foi derrubado por forças dos Estados Unidos que invadiram o país em resposta ao ataque de 11 de setembro desse ano contra Nova York e Washington, atribuído à rede terrorista A Qaeda, cujo líder, Osama bin Laden, vivia no Afeganistão.
No encerramento do Fórum, o chanceler afegão, Rangin Spanta, disse que “jamais teria aceito negociar com o Talibã para libertar terroristas presos”. A libertação dos dirigentes talibãs foi imediatamente criticada por políticos e parlamentares locais, e pelos Estados Unidos, embora ninguém o tenha feito quando as negociações estavam em andamento. No sábado passado, deputados criticaram o governo pela “indiferença” com que enfrentava a tarefa de garantir a libertação de Naqshbandi com vida.
No que é interpretada como uma resposta à acusação de parcialidade lançada pelo comandante Dadullah contra meios de comunicação ocidentais, a petição afirma: “Nós, jornalistas afegãos e italianos, permanecemos abertos e dispostos a informar desde o local dos fatos sobre conflito em andamento”. O pedido foi transmitido a Dadullah através de um de seus porta-vozes e com divulgação ontem e hoje por toda a imprensa afegã, italiana e internacional.
Na entrevista coletiva estavam presentes Lorenzo Cremonesi, do jornal Corriere della Será; Duílio Giammaria, da Rádio e TV da Itália (RAI); o diretor da Pajhwok Afghan News, Danish Karokhel; representantes das duas associações de jornalistas do Afeganistão, Zia Bomya e Fazel Sancharaki, e um irmão de Naqshbandi, Munir. Giammaria também exigiu que o governo informe sobre Rahmatullah Hanefi, responsável afegão pelo hospital da organização italiana Emergency in Lashkargah, perto de Kandahar, que intermediou na negociação.
Hanefi foi detido pelo serviço de inteligência deste país na madrugada do dia 20 de março, pouco depois da libertação de Mastrogiacomo, e desde então nem mesmo seus familiares puderam vê-lo. A iniciativa se inscreve no contexto do mal-estar manifestado no Afeganistão pelos que acreditam que a negociação dos governos italiano e afegão com o Talibã teve como único objetivo a libertação do jornalista italiano. “Como o governo afegão e a comunidade internacional puderam permitir isto?”, disse à IPS Shahir Zahine, presidente do The Killid Group, que edita dois semanários e possui duas rádios. “O Talibã está perdendo credibilidade, porque libertou um estrangeiro enquanto matava um afegão e ameaça matar outro”, acrescentou.
“Nos últimos cinco anos, o Talibã não havia tocado em jornalistas. Apenas ameaçava. Agora, sabem que podem nos trocar por dinheiro ou talibãs presos”, disse à IPS Danish Karokhel. “Durante o seqüestro fizemos todo o possível: entrevistas coletivas, uma carta ao Talibã. Nossa esperança era que o governo italiano também ajudasse o jornalista afegão. Não era difícil. Por que aceitaram recuperar apenas um em troca de quatro?”, perguntou Rahimullah Samandr, presidente de uma associação de jornalistas. Agora se espera pela reação do comandante Dadulla à petição afegão-italiana. (IPS/Envolverde)

