Iraque: A face oculta da guerra

Genebra, 19/04/2007 – A Organização das Nações Unidas conseguiu, pelo menos por algumas horas, desviar a atenção pública dos atentados e das bombas diários no Iraque para outro aspecto do conflito igualmente penoso, que é a situação humanitária de quase quatro milhões de refugiados internos e no estrangeiro. O esforço da ONU para apresentar aos olhos do mundo a situação extrema dos refugiados iraquianos obteve um relativo sucesso nesta quarta-feira em Genebra, apesar de coincidir com uma das jornadas mais sangrentas nesse país do Oriente Médio desde que foi invadido em março de 2003 por forças lideradas pelos Estados Unidos.

Informações da imprensa diziam que cerca de 170 pessoas morreram em quatro atentados suicidas com bombas cometidos ontem no Iraque, um território em guerra onde a média de civis mortos pela violência a cada dia foi de 100 no ano passado, segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR). O Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), o português Antonio Guterres, acredita que a comunidade internacional se conscientizou da gravidade da crise e comprometeu-se a proteger e ajudar os refugiados iraquianos, bem como dividir o peso desse esforço.

A conferência em Genebra com participação de 450 delegados de mais de 60 nações, incluindo membros de organizações da sociedade civil, terminou ontem em Genebra. Mas permanecerá inalterada a situação de cerca de dois milhões de iraquianos refugiados, que em sua maioria estão radicados nos países vizinhos, como a Síria, onde se concentram mais de um milhão, e na Jordânia, com 750 mil. As nações industrializadas não aceitaram a possibilidade de receber contingentes de solicitantes de asilo iraquianos e só se mostraram dispostas a apoiar a Síria e a Jordânia com recursos financeiros.

Mas Bill Frelick, diretor de política de refugiados da ONG Human Rights Watch (HRW), reclamou uma ajuda especial dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, os dois principais aliados da coalizão militar que ocupa o Iraque. Por um lado deverão dar dinheiro para ajudar a construir escolas e infra-estrutura de saúde que permitam aos refugiados viver com dignidade, sobretudo na Síria e Jordânia, embora também em outros países, como Líbano e Egito, disse Frelick à IPS.

O especialista da HRW, com sede em Nova York, também reclamou que as duas potências militares assumam a responsabilidade de dividir o peso humanitário da crise, que inclui a questão do reassentamento dos refugiados. Nesse sentido, Washington havia declarado sua decisão de receber este ano cerca de sete mil refugiados iraquianos, mas, provavelmente, serão menos da metade, destacou Frelick. Por sua vez, Sarah Orr, especialista da ONG London Detainee Support Group, questionou a política britânica de deter os solicitantes de asilo em lugar de permitir que vivam na comunidade.

Isso ocorre porque na Grã-Bretanha há grande pressão e descontentamento com as pessoas que chegam ao país, disse Orr. Elas são pessoas traumatizadas pelo que está acontecendo em seus países e se deveria esperar um tratamento humanitário, mas basicamente são considerados prisioneiros, insistiu. “Uma elevada proporção dos alojados nos 10 centros de detenção existente na Grã-Bretanha, creio que 30%, são iraquianos”, disse. Alguns permanecem detidos por três e até seis meses, acrescentou.

A situação dos grupos de refugiados que estão no Iraque desde antes da invasão, especialmente cerca de 15 mil palestinos que Guterres descreveu “em um estado dramático”, ficou sem solução ao finalizar nesta quarta-feira a conferência de dois dias convocada pela ONU para Genebra. Fontes de organizações da sociedade civil disseram que os Estados Unidos procuram interessar governos da América Latina para que recebam contingentes de palestinos refugiados no Iraque. A própria delegação norte-americana à conferência admitiu que Washington já manteve contatos com as autoridades do Brasil sobre o assunto.

Participantes da conferência concordaram que o problema central do Iraque é a violência e que “a solução não é humanitária, mas política”, como afirmou Guterres. Por sua vez, o diretor-geral do CICR, Ângelo Gnaedinger, reconheceu que as ações humanitárias “não apontam para as causas de fundo da situação dramática atual do Iraque”. Entretanto, Guterres destacou a vontade do governo iraquiano em apoiar os cidadãos desse país forçados ao exílio através da instalação de escritórios de atenção nas capitais da Síria e da Jordânia.

O chanceler iraquiano, Hoshyar Zebari, reconheceu que mais e mais pessoas fogem a cada dia, especialmente universitários, médicos, cientistas, engenheiros, funcionários civis e empresários. Apesar desse quadro, Guterres estima que a integração dos dois milhões de refugiados iraquianos nos países de asilo não constitui uma opção e que a possibilidade de reassentamento em outros destinos fica reservada aos mais vulneráveis. Durante a conferência, os participantes destacaram que a solução preferida pela esmagadora maioria dos refugiados é o retorno voluntário ao seu país. Mas para ser realista, ainda não há condições para isso, disse Guterres.

Antes da conferência havia uma conspiração mundial para omitir a dimensão humanitária da crise no Iraque, disse Guterres. Só se via os atentados e as bombas, e não os refugiados, insistiu. Mas nas sessões se expressou profunda preocupação pela situação interna no Iraque e se exortou esse país e todas as partes pertinentes a buscar uma solução baseada na reconciliação nacional, resumiu o funcionário. O escritório da Acnur designará um representante em Bagdá, sede que está vaga desde agosto de 2003 quando um ataque com explosivos destruiu o edifício onde funcionava, matando 22 funcionários, inclusive o chefe da missão, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello. (IPS/Envolverde)

Gustavo Capdevila

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