Ambiente: A economia ajudando o ecológico

San Diego, 17/04/2007 – Um quiosque em uma congestionada avenida de San Diego, no Estado norte-americano da Califórnia, é a sede mundial da empresa Wahle Tails, dedicada a fabricar tortilhas sãs e curar o planeta. Na porta descansam de pé uma mulher com uma selvagem cabeleira prateada e um homem sorridente. São os ecoempresários Ric e Terry Kraszewski, um casal que decidiu mudar os hábitos alimentares dos consumidores.

Whale Tails se soma a uma onda de empresas que abraçam o princípio da sustentabilidade econômica e ambiental. Seu sistema de valores se baseia na crença de que o setor privado pode originar mudanças ambientais e sociais positivas. “É um grande momento para ser empresário nos Estados Unidos”, disse Ric, um homem criado de acordo com as idéias de contra-cultura dos anos 60. Ao casal, que toda a vida amou a água e que há 30 anos vive perto do Oceano Pacífico, pareceu adequado vincular sua empresa à conservação marinha.

Um dia de surf há 17 anos levou à criação da Whale Tails, quando Ric Kraszewski e Rick Grant, o terceiro co-fundador da empresa, tiveram a idéia conversando sobre o guacamole que usavam para fazer petiscos. Por que não criar uma tortilha dourada com forma de baleia, elaborada inteiramente com ingredientes orgânicos? Atualmente, o casal Kraszewski tem muitos motivos para sorrir. Depois de registrar, finalmente, sua marca em 2005, lançaram um produto que cada vez ganha mais adeptos nas gôndolas das lojas de alimento natural em toda a região e no noroeste do Pacífico.

Os Kraszewski exibem dois atributos habituais entre os empresários de sucesso: uma fé cega em seu produto e a obsessão pelos detalhes. “Às vezes, Ric utiliza termos próprios do jargão empresarial, como “penetração de mercado”. Após terem aperfeiçoado a fórmula de sua tortilha dourada, agora estão no processo de refinar a embalagem. Se entre uma mordida e outra o consumidor ler o rótulo encontrará frases como “As tortilhas douradas Whale Tails estão dedicadas às baleias e aos que, como você, querem marcar uma diferença”. Em última instância, gostariam de ter uma embalagem biodegradável que obrigue a indústria de alimentos e bebidas a dar atenção à situação das baleias.

Conseguir que este setor, que fatura US$ 20 bilhões ao ano nos Estados Unidos, siga seu exemplo e elabore produtos mais amigáveis como o meio ambiente seria um êxito significativo. “Se isto os incentivar a fazer uma diferença, será formidável”, afirmou Terry. Centenas de empresas com idéias similares parecem concordar. Nos últimos tempos aumentou o número de membros da One Percent for the Planet (Um Por Cento para o Planeta), organização não-governamental que combina espírito empresarial com convicções ambientalistas.

Uma rede de negócios se integrou à aliança “para fazer o correto”: priorizar o meio ambiente frente ao lucro, como estabelece sua carta de criação. Seus membros estão de acordo em doar 1% de seus ganhos a organizações ambientalistas. “Os ajudamos a se tornarem uma força poderosa para a mudança social”, disse o diretor-executivo da organização, Terry Kellogg. One Percent for the Planet existe há quatro anos. Seu crescimento, inicialmente, foi lento, mas teve um repentino impulso no último ano e meio. Seus membros já somam meio milhão.

Kellogg atribui esse aumento ao “efeito Bush”. Desde que George W. Bush assumiu a presidência dos Estados Unidos em 2001, as notícias sobre a degradação ambiental foram piorando, o que levou o setor privado e os consumidores a tomarem medidas a respeito. Estes negócios e seu mercado consumidor são conhecidos como Lohas, sigla em inglês de Estilos de Vida, de Saúde e Sustentabilidade, setor demográfico de rápido crescimento disposto a gastar de acordo com seus valores.

Segundo os editores da publicação comercial Lohas Journal, este mercado conseguiu crescimento de dois dígitos nos últimos anos, e agora chega a US$ 230 bilhões em vendas anuais de bens e serviços, desde alimentos orgânicos até energia de fontes renováveis. O tamanho e o alcance deste mercado ainda pode ser um equívoco. Os alimentos orgânicos, por exemplo, representam apenas 2,5% das vendas do setor alimentício, e apenas 0,02% da terra nos Estados Unidos está dedicada atualmente a estes cultivos.

Boa parte dos produtos orgânicos devem ser importados ou transportados por grandes distâncias desde o estabelecimento agrícola até a mesa do consumidor. Existe uma grande brecha entre a demanda e a oferta. Mas os Kraszewski vêem um tremendo potencial neste crescente mercado. Sua diminuta empresa projetou vendas entre US$ 3 milhões e US$ 5 milhões para os próximos anos. Desse dinheiro serão reservados 10% para uma pesquisa ambiental, de educação e preservação.

Uma junta informal composta por cientistas marinhos e membros de organizações sem fins lucrativos assessora a companhia. Entre três e quatro centavos de cada saco de tortilhas Whale Tails vendido são doados a pesquisas sobre baleias e conservação marinha. O primeiro desses beneficiários foi Julio Solís, fundador da recém-criada Vigilantes da Baía Magdalena, organização da Baixa Califórnia, no México, que ajuda a proteger as baleias cinzas em seu habitat natural do oceano Pacífico. A doação permitiu à organização manter e alimentar sua patrulha de botes, explicou Ric, mantendo flutuando os sonhos de uma pequena equipe de ambientalistas com escassos recursos. (IPS/Envolverde)

Enrique Gili

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