Bangcoc, 20/04/2007 – As economias da Ásia-Pacífico podem voltar a crescer com força este ano, levadas pelas mãos de China e Índia, mas especialistas da Organização das Nações Unidas alertam que possíveis obstáculos, que vão desde uma má administração do fluxo de capital, até a iniqüidade de gênero. Esta avaliação está no informe anual da Comissão Econômica e Social das Nações Unidas para Ásia-Pacífico (Escap), divulgado esta semana. As exportações foram o motor do crescimento econômico da região na última década. Raj Kumar, da Escap, afirmou que as previsões continuam sendo otimistas depois que esses economias conseguiram enfrentar a alta dos preços do petróleo em 2006 e o medo de inflação.
“Eu diria que a saúde da economia da região é muito boa. A Ásia teve um ano muito bom. É possível que tenha estado um pouco abaixo do anterior, mas também foi extraordinário”, afirmou Kumar. Os especialistas da Escap esperam que as economias em desenvolvimento da Ásia-Pacífico cresçam 7,4% em 2007, um pouco abaixo dos 7,9% do ano anterior, com alguns sinais de esfriamento na demanda de produtos eletrônicos. A demanda dentro da própria Ásia-Pacífico é “um dos motores do crescimento” regional, mas, não o único, “também o são Europa e Estados Unidos”, disse Kumar à IPS.
Porém, um aspecto-chave é como muda a economia da região após seu crescimento dos últimos anos. “A Ásia está se transformando para assumir um papel mais significativo do que antes, especialmente pelo crescimento da China e Índia, mas, também pelo de Cingapura e Coréia do Sul”, afirmou Kumar. De todo modo, a economia da região deve estar preparada para resistir a qualquer abalo possível durante o ano. Economistas da Escap também vigiam de perto a economia norte-americana. Uma queda no consumo do público nos Estados Unidos capaz de precipitar as importações da Ásia é um dos riscos que, segundo especialistas, colocam em perigo as positivas perspectivas.
Há mais questões preocupantes, como outra eventual alta do preço do petróleo, ou um “desenlace desordenado dos desequilíbrios globais” das balanças comerciais, especialmente a deficitária dos Estados Unidos e a superavitária da Ásia, que permitiu à região aumentar enormemente suas reservas em divisas. Mas as perspectivas continuam boas para este ano e melhoraram em relação às previsões anteriores. Shamika Sirimanne, economista da Escap especialista em desenvolvimento, mostrou-se otimista com o crescimento de 7,4% previsto para a região.
“Nossas economias têm capacidade para enfrentar a tendência de redução da economia dos Estados Unidos e continuamos prevendo um crescimento muito alto para China e Índia”, afirmou Sirimanne. “A Índia cresceria cerca de 9% este ano e a China perto de 10%. São números importantes. Além disso, o sudeste asiático terá uma recuperação, com exceção de Camboja e Tailândia, que terão crescimento inferior”, acrescentou. Mas ainda há assuntos que a região deve enfrentar ou vigiar de perto, apesar do cenário otimista.
Os “desequilíbrios globais” do capital e os déficit levaram a região a acumular US$ 2,5 bilhões em reservas estrangeiras, uma cifra sem precedentes. A enorme afluência de divisas fortaleceu as moedas regionais em relação ao dólar no ano passado. A administração de divisas será o centro de atenção dos governos nos próximos anos, segundo Sirimanne. “O maior desafio será o manejo da taxa de câmbio, haverá um grande fluxo de capital para a região, incluídos os que especulativos, e esse será um grande tema no futuro”, acrescentou.
O informe da Escap alerta que muitos dos países que há uma década se viram envolvidos na crise financeira da Ásia estou novamente em situação vulnerável, em grande parte pela forte dependência de suas economias das exportações em contraposição com o consumo interno e os investimentos locais para seu crescimento. As economias mais envolvidas, em diferentes graus, são as da Coréia do Sul, Filipinas, Indonésia e Tailândia. “É necessária uma resposta política decisiva para promover o investimento privado nesses países”, diz o documento.
O informe também propõe sistemas melhorados de contenção do risco para que os bancos tenham maior flexibilidade em suas políticas de empréstimo, além de outras reformas financeiras. Mas a questão das divisas e a vulnerabilidade das economias não são os únicos assuntos que preocupam a Escap. O escritório de desenvolvimento regional das Nações Unidas pede aos governos da região que agora tratem de se beneficiar do “dividendo demográfico” pela grande quantidade de adultos em idade de trabalhar. “Que os países possam aproveitar essa oportunidade dependerá das políticas econômicas e sociais e das instituições que designarem para absorver uma força de trabalho em rápido crescimento”, diz o relatório.
Outra questão importante é um manejo efetivo do crescimento urbano bem como a promoção de um desenvolvimento sustentável. Mas a Escap acredita que há um potencial econômico real para terminar com a discriminação de gênero em países-chave como Índia, Indonésia e Malásia. A discriminação custa à região mais de US$ 80 bilhões ao ano somente no âmbito trabalhista e educacional, segundo Sirimanne. “Descobrimos que a região perde entre US$ 42 bilhões e US$ 47 bilhões por ano pela desigualdade no trabalho e entre US$ 16 bilhões e US$ 30 bilhões pela desigualdade no setor educacional”, acrescentou.
A matrícula de meninas na escola primária pode chegar a ser até 26% inferior à dos meninos. A região também enfrenta uma alarmante tendência na deterioração da proporção de mulheres e homens em toda a região asiática. As pautas do informe se baseiam na idéia de que se a participação feminina, por exemplo, na Índia, fosse a mesma que nos Estados Unidos seu produto interno bruto aumentaria mais de 4%, injetando US$ 19 bilhões em sua economia. “O assunto que queremos apresentar é que a discriminação de gênero, que costuma ser vista como uma questão de direitos humanos, também tem grandes custos econômicos”, explicou Sirimanne. (IPS/Envolverde)

