Toronto, 02/04/2007 – A cadeia alimentar dos oceanos está em colapso, segundo estudo publicado pela revista científica Science. A queda da população de grandes tubarões na costa atlântica dos Estados Unidos reduziu, por exemplo, os mariscos e a qualidade da água A virtual eliminação do tubarão-tigre e o de pontas negras, entre outras espécies de grandes esqualos, provocou notório aumento da população de tubarões menores e arraias, dos quais estes costumam se alimentar. A redução da população de tubarões se deve, em parte, à demanda de remédios fabricados com sua cartilagem, apesar de seus efeitos não estarem cientificamente provados, e à dos restaurantes caros, que preparam sopa com suas barbatanas.
As arraias nariz-de-vaca se multiplicaram por 20 desde 1970 e, como conseqüência direta, mariscos como as ostras, alimento desses peixes, praticamente desapareceram apesar dos importantes esforços de conservação. A cascata de conseqüências da pesca excessiva de grandes tubarões vai ainda mais longe, segundo pesquisa realizada pelo cientista marinho Ransom Myers (falecido no último dia 27) e por outros especialistas publicada no dia 29 passado pela revista Science. A perda de ostras reduziu a qualidade da água do mar, porque esses mariscos a filtram. Agora, a arraia nariz-de-vaca se alimenta vorazmente de outros, como ostras e almejas.
“Também encontramos grandes leitos de algas cavados por arraias em busca de mariscos”, disse Charles Peterson, do Instituto de Ciências Marinhas da Universidade da Carolina do Norte, co-autor do estudo. As colônias de alga são consideradas as “guardiãs” de muitas espécies de peixes, mas Peterson disse que não há dados disponíveis sobre o impacto da ação das arraias nesses ecossistemas. A arraia nariz-de-vaca é apenas uma das 12 espécies cuja população aumentou drasticamente. “Não temos idéia do impacto das outras 11”, confessou o cientista à IPS. “O que sabemos a partir desta pesquisa é que os tubarões têm um papel crucial no ecossistema oceânico”.
Os tubarões são “os reis dos animais” no oceano, os predadores superiores. E, segundo ecologistas, os predadores superiores desempenham um papel importante na estabilização de ecossistemas. Sua eliminação produz o que se conhece como “cascata trófica” ou alimentar. Por exemplo, graves reduções de nutrias (uma espécie de castor) do mar na costa oeste da América do Norte resultaram em um auge do alimento favorito desses animais, os ouriços do mar, o que, por sua vez, causou importantes reduções nas florestas de algas kelp, que constituem outra classe de guardiã importante para muitas espécies.
Em outro plano, a reintrodução de lobos – predadores superiores – reduziu a população de alces do Parque Yellowstone (EUA). Por isso, voltaram a crescer plantas e árvores ao longo de correntes e rios, em beneficio de pássaros e outras espécies, segundo Jim Estes, ecologista marinho da Universidade da Califórnia. “Os lobos ajudaram a amortizar os ecossistemas do efeito da mudança climática, segundo algumas pesquisas”, disse o especialista à IPS no ano passado. “Em terra, muitos dos predadores superiores já não são encontrados, mas os oceanos ainda têm todas as peças.” Essas peças, e especialmente os predadores superiores, estão diminuindo rapidamente.
Ransom Myers e Julia Baum, da Universidade Dalhousie, do Canadá, documentaram que mais de 90% dos peixes predadores dos oceanos já não existiam, principalmente por culpa da pesca excessiva. E advertiram que esta perda de toda a parte superior da cadeia alimentar marinha desequilibraria os ecossistemas oceânicos. “Como conseqüência, ocorre uma reestrutura maciça” da rede alimentar, explicou Baum à IPS. O estudo atual talvez seja a primeira documentação da história sobre o impacto em cascata da perda dos grandes tubarões, porque as redes alimentares oceânicas são muito complexas e há poucos dados. “Há poucas dúvidas de que estes fenômenos ocorrem em outras regiões costeiras do mundo”, afirmou Baum.
Cientistas japoneses detectaram um grande aumento na população de arraia-água, que atribuíram à redução de seus mariscos naturais e de cultivo. A causa do fenômeno é uma incógnita, “devido à maciça redução dos tubarões que se alimentam de arraias”, disse a especialista. O interesse pelas barbatanas de tubarão se converteu na principal razão. Os pescadores os caçam em suas redes, cortam as barbatanas e os devolvem ao mar, sangrando e desmembrados. As barbatanas são o principal ingrediente de uma sopa cujo prato custa US$ 100 em restaurantes de comida chinesa de toda Ásia e partes do ocidente.
A caça de tubarões para retirar as barbatanas “é uma enorme indústria e está fora de controle”, afirmou Baum. A demanda cresce mais de 5% ao ano e os esforços para proibir a prática não foram efetivos, acrescentou. Alguns informes enfatizam o valor das barbatanas e cartilagens usadas em medicinas tradicionais para tratar dores nas articulações, que geram US$ 1 bilhão. Na América do Norte não existe uma farmácia que não tenha produtos derivados da cartilagem de tubarão, apesar da falta de provas sobre qualquer beneficio médico.
Não é apenas lucrativa. A retirada de barbatanas é uma indústria de baixa tecnologia que nem mesmo requer barcos com refrigeração, pois são dessecadas. Os tubarões não podem se recuperar, pois se trata de espécies de crescimento lento, que amadurecem em 20 anos ou mais e têm relativamente poucas crias. No início da década de 90, os Estados Unidos e o Canadá impuseram proibições à retirada de barbatanas de tubarão, enquanto outros 60 países acertaram proibir a prática no oceano Atlântico. No mês passado o México anunciou uma proibição.
Entretanto, tais proibições são difíceis de serem aplicadas. Freqüentemente, não são proibições reais, em absoluto, afirmou Baum. Por outro lado, a retirada de barbatana é considerável aceitável sempre que o corpo do tubarão também seja aproveitado. A escalada na demanda de barbatanas e cartilagem de tubarão está produzido uma catastrófica redução na quantidade de tubarões em todo o mundo. Um passo importante é reduzir a demanda destes produtos através da educação do público. O outro é que exista uma proibição completa e absoluta da caça de grandes tubarões costeiros, disse Peterson. “Os resultados de nosso estudo deveriam ser levados muito a sério”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

