Desenvolvimento: Cidades olham para o espelho

Madri, 02/04/2007 – A globalização esta reestruturando o mundo, e nas cidades, melhor do que em qualquer outro lugar, seus efeitos são mais evidentes, disseram especialistas reunidos em Madri. As cidades manterão seu protagonismo como enclaves eficientes devido à crescente concentração da economia e à expansão de seu poder através das comunicações graças a computadores, Internet, satélites e outros meios, afirmaram participantes da conferência “Quais políticas demandam as cidades globais?”.

O encontro de quinta e sexta-feira esteve a cargo do Clube de Madri, grupo dedicado a promover a democracia integrado por ex-chefes de Estado e de governo, pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE, que reúne todos os países ricos) e pela prefeitura de Madri. A idéia de cidades globais foi exposta através de dois conceitos diferentes durante o encontro, do qual participaram 600 pessoas de 45 países.

Para o prefeito da capital espanhola, Ruiz Gallardón, são aquelas que têm mais de um milhão de habitantes, “que em 1900 eram apenas 16 em todo o mundo e hoje são mais de 400”. Essa urbanização produziu “ilhas de riqueza rodeadas de miséria em muitas cidades”, o que “não se deve permitir”, disse. As autoridades locais devem assumir maior responsabilidade nessas tarefas e a OCDE deve coordenar ações, já que é “a organização mais capacitada para forçar um entendimento entre todos os níveis de governo, nações e internacionais”, propôs Gallardón.

Por sua vez, o ex-presidente do Chile, Ricardo Lagos (2000-2006), presidente do Clube de Madri, disse à IPS que as cidades não são grandes ou globais apenas por sua quantidade de habitantes, superfície, infra-estrutura, indústrias e produto interno bruto, mas também por sua cultura, pesquisa, história e capacidade de se inter-relacionar. “Na Espanha, não posso deixar de incluir nesse item Toledo, a cidade das três culturas, ou Salamanca”, afirmou o ex-mandatário. A quantidade de habitantes não é o mais importantes, muitas “tem mais moradores de dia do que à noite”, mas importa uma identidade mais vinculada com a cultura do que com o PIB, acrescentou Lagos.

Toledo, no centro da Espanha, é conhecida por sua história na qual conviveram as religiões judaica, cristã e muçulmana, das quais permanecem conservados tempos, e em Salamanca, no nordeste, foi criada a primeira universidade de língua hispana, em 1218. Coordenar as ações globais das cidades é um imperativo, já que o mundo está se tornando cada vez mais urbano e, tal como demonstram estatísticas da Organização das Nações Unidas, “pela primeira vez na história da civilização há mais pessoas vivendo nas cidades do que em qualquer outro tipo de assentamento humano”, disse em entrevista coletiva o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría.

O encontro confirmou que está instalado o esforço para institucionalizar a conferência, cuja continuidade dependerá do que se possa oferecer aos municípios e às cidades, acrescentou. Além de Lagos, participaram da conferência os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (1985-2003); Mary Robinson, da Irlanda (1990-1997), e Joaquim Chissano, de Moçambique (1986-2005), bem como prefeitos de cidades da África, Ásia Europa e América. Ainda neste ano será constituída a Conferência de Grandes Cidades Espanholas, “para enfrentar conjuntamente como tornar mais fácil a vida para os cidadãos”, e se criará um observatório para essas cidades, anunciou o ministro de Administrações Públicas da Espanha, Jordi Sevilla.

A grande pergunta é “como faremos para que nas cidades sejam garantidos os direitos e as possibilidades de todos os cidadãos, com igualdade e justiça social?”, perguntou Lagos ao auditório. A resposta, em seu entendimento, é torná-las mais competitivas em um mundo global, melhorando seus serviços, qualidade de vida, centros educativos e de saúde, pois “nisso reside a chave”. Os três grandes problemas destas cidades hoje são a contaminação, as migrações e sua atração para abrigar encontros internacionais como os esportivos, “que são um motor de crescimento. Mas, depois, muitas vezes, surgem problemas herdados dos mesmos, como as grandes dívidas que permitiram sua organização”, afirmou Gurría.

As migrações são um assunto “que não admite demoras, é o tema central do século XXI, junto com o ambiental”, afirmou Robinson, ex-alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos. É preciso abordar as questões relativas aos fluxos migratórios – especialmente para evitar as dinâmicas de exclusão deste valioso capital humano – e que permanecem como perguntas sem respostas na maioria das cidades, acrescentou. Na era da economia do conhecimento, “as cidades ostentam indiscutíveis vantagens de especialização naqueles processos produtivos geradores de valor agregado”, afirmaram os especialistas reunidos em Madri.

“A dotação de capital humano altamente qualificado, do todo necessário em processos produtivos avançados, é um atributo exclusivo dos centros urbanos. Assim, a concentração de habilidades e capital humano fazem das cidades centros de inovação”, acrescentaram os especialistas. Oito em cada 10 patentes dos países da OCDE procedem de zonas urbanas. Os desafios são tão grandes, difíceis e complexos que nenhuma cidade ou país poderá levá-los adiante sozinho. É preciso tornar compatíveis a competência e a cooperação, tendo presente que esses propósitos serão inalcançáveis “encerrados em nossos quintais particulares”, finalizaram os participantes. (IPS/Envolverde)

Tito Drago

Tito Drago es corresponsal de IPS en Madrid. Periodista y consultor especializado en relaciones internacionales, nació en Argentina y vive en España desde 1977, tras su paso por varios países latinoamericanos y europeos. En 1977 abrió la primera corresponsalía de IPS en España y en 1978 se trasladó a la sede mundial de la agencia en Roma para reestructurar la jefatura de redacción. Es escritor y conferencista. Fue presidente del Club Internacional de Prensa de España, del que es presidente honorario desde 1999. También presidió la Asociación de Corresponsales de Prensa Extranjera (ACPE). Entre 1989 y 2008 fue director general de la agencia de comunicación y editora Comunica, de la revista Mercosur y de los libros y los sitios web de las Cumbres Iberoamericanas de Jefes de Estado y de Gobierno. Desde 1992 dirige el portal sobre la Actualidad del Español en el Mundo.

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