França: Corrida pelos votos de centro

Paris, 24/04/2007 – O direitista Nicolas Sarkozy e a socialista Ségolène Royal iniciaram nesta segunda-feira a corrida pelos votos de centro, com vistas ao segundo turno das eleições presidenciais francesas do próximo dia 6 de maio. Sarkozy, da União por um Movimento Popular (UMP), obteve 31,18% dos votos, contra 25,87 de Royal, do Partido Socialista, na votação de domingo. Os resultados da eleição apresentam características sem precedentes.

Em primeiro lugar, foi destacada a ampla colheita de Sarkozy no primeiro turno. O presidente Jacques Chirac, que se retirará da política no próximo mês, teve apenas 19% no primeiro turno das eleições que o levaram ao cargo há cinco anos. O domingo também registrou uma presença maciça nas urnas, com a presença de 83,78% dos 44,5 milhões de eleitores aptos a votar. Em 2002, votaram apenas 29%.

Essa baixa participação foi então considerada uma das razões para a derrota do candidato socialista Lionel Jospin e da vitória em primeiro turno do neofascista Jean-Marie Le Pen, que depois perderia para Chirac, que no segundo turno ficou com 83% dos votos. Desta vez, os candidatos mais radicais foram eliminados no primeiro turno. Precisamente, Le Pen, que há cinco anos teve 17% dos votos, desta vez recebeu apenas 10,44%.

Os resultados do domingo prejudicaram mais as agrupações de esquerda. As candidatas dos outrora poderosos Partido Comunista e Partido Vrde,Marie George Buffet e Dominique Voynet, respectivamente, obtiveram, cada uma, menos de 2% dos votos. O ativista antiglobalizaçao José Bové ficou com apenas 1,32%. A eliminação dos candidatos radicais sugere que os eleitores franceses tendem para um novo sistema de partidos no qual as forças políticas se dividam entre umas poucas agremiações, como está ocorrendo na maioria das nações européias.

Após ser conhecido o resultado, quase todos os candidatos de esquerda anunciaram seu apoio a Royal para garantir que Sarkozy “não seja presidente”, como disse a Buffet. Por sua vez, Bové também descreveu o candidato da UMP como “um homem perigoso”. “Convoco todos os cidadãos a unirem forças contra a vitória destas idéias de extrema-direita”, afirmou. Mas essas adesões não seriam suficientes para Royal vencer em 6 d maio. Terá, também, que atrair os eleitores do centrista François Bayrou, que foi o terceiro mais votado com 18,57% dos votos.

Essa é uma das principais incógnitas desta fase intermediária, que já começou nas sedes dos partidos vencedores. Sarkozy é considerado um político de extrema-direita, especialmente desde o final de 2005, pela forma como, sendo ministro do Interior, reagiu às violentas manifestações de jovens de origem estrangeira em Paris e outras cidades. Na época qualificou os manifestantes de “escória” e anunciou que usaria uma máquina industrial para limpar as periferias das cidades, onde os imigrantes costumam morar.

Como ministro do Interior, Sarkozy planejou a expulsão em massa de imigrantes ilegais e soube seduzir o eleitorado de Le Pen com sua proposta de criar um ministério de imigração e identidade nacional. Mas, após seu triunfo de domingo, mudou de discurso e propôs “um sonho francês, que é o de uma república fraterna para que todos encontrem um lugar, onde ninguém tema o próximo e onde a diversidade não seja mais considerada uma ameaça, mas uma riqueza”. Por sua vez, Royal pediu aos cidadãos que apóiem sua campanha m duas semanas para criar “uma ordem justa”.

Royal e Sarkozy representam os dois partidos tradicionais, mas ambos prometem romper suas respectivas histórias recentes. Nesse sentido, alguns analistas advertem que nem Sarkovy é o herdeiro de Chirac nem Royal é herdeira do ex-presidente François Mitterrand, que governou o país entre 1981 e 1995. Para o centrista Bayrou, “a enfermidade francesa é mais grave do que eles (direitistas e socialistas) pensam”. A idéia de que a política francesa sofre uma doença terminal foi repetida por quase todos os candidatos ao longo da campanha. Sarkozy garante que sua oferta representa uma “ruptura com o passado”, apesar de ter sido ministro do Interior do atual governo.

Royal, por sua vez, se converteu na candidata dos socialistas graças a uma campanha feita por fora das estruturas partidárias e com base em contatos diretos com os eleitores. Mas, nem Sarkozy nem Royal explicam como pretendem reformar as instituições políticas. Alguns dirigentes do Partido Socialista defenderam uma democracia parlamentar tradicional m lugar do atual sistema presidencialista, mas não contaram com o apoio da sua candidata. Muitos analistas consideram que as reformas devem ser mais profundas do que a simples transferência de poder da figura presidencial para o parlamento.

Atualmente, os poderes político, econômico e administrativo estão fortemente concentrados em Paris, deixando pouco espaço para o planejamento independente das províncias. Esse centralismo é o responsável por estarem bloqueadas todas as tentativas de criar uma estrutura de governo federal. Uma modesta iniciativa empreendida há 30 anos deu uns poucos podres limitados às províncias, mas não evitou a concentração das decisões em Paris. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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