Basra, 13/04/2007 – A explosão de manifestações no sul do Iraque esta semana pode colocar em xeque uma zona que até agora as forças de ocupação dos Estados Unidos consideravam seu reduto. O sul iraquiano parecia tranqüilo comparado com o resto do país. Os habitantes mantinham uma relação pacifica com os soldados estrangeiros e cooperavam com os sucessivos governos locais instalados desde a invasão norte-americana em 2003. A maioria dos habitantes do sul é xiita, ramo do Islã que controla o atual governo central.
Mesmo assim, centenas de milhares de xiitas participaram na segunda-feira de diversas manifestações em Nayaf, Kut e outras cidades meridionais, nas quais condenaram a ocupação liderada por Washington, gritaram “morte aos Estados Unidos” e queimaram bandeiras desse país. O comandante da policia d eNayaf, Abdul Karim al-Mayahi, informou que dos protestos participaram, pelo menos, 500 mil pessoas. “Estamos a favor da democracia, da liberdade de expressão e reunião. Não necessariamente concordamos com a mensagem que se difunde, mas com o direito de expressá-la”, disse à imprensa o porta-voz do exército norte-americano em Bagdá, Cchristopher Garver.
Distúrbios posteriores deixaram, pelo menos, um soldado norte-americano morto e outro ferido, em Diwaniyah, 180 quilômetros ao sul da capital. “Fomos pacientes e sacrificamos muito pensando que a situação logo melhoraria. O que vemos é que patinamos no ódio que o derramamento de sangue só serviu para que os líderes tivessem mais poder e dinheiro”, disse à IPS Hussein Ali, um professor m Diwaniyah. Nessa cidade prosseguem os enfrentamentos entre as forças de ocupação e o Exército Mehdi, a milícia do clérigo xiita Muqtada al Sadr.
Mais soldados norte-americanos e iraquianos foram enviados nos últimos dias ao sul para realizarem detenções e revistas em busca de armas e insurgentes. Por sua vez, Al Sadr fez um chamado às suas milícias para que ataquem os norte-americanos. Este novo levante armado xiita constitui outro golpe para as forças de ocupação, que já são exigidas ao máximo. “Quatro anos de paciência e o que conseguimos?”, perguntou à IPS Ali Hashim, comerciante em Basra. “Não conseguimos nada, a não ser os que falam muito mas nada fazem que fizeram donos de nosso país. Os Estados Unidos falhou com a gente e nos vendeu aos que nos tratam sem piedade”, acrescentou.
O historiador Mahmood al-Lamy considerou critica a situação atual no sul. “Basra é a maior cidade do sul e a única do Iraque que tem um porto perto do Golfo (Pérsico ou Arábico). Agora está controlada por várias milícias que se enfrentam entre si pelo contrabando de petróleo, que floresce sob a ocupação”, ressaltou. Lamy disse que os moradores temem que “a situação possa piorar nos próximos meses com as disputas entre facções importantes”.
O historiador se referia à saída no mês passado do Partido Al Fadhila da Coalizão Islâmica xiita no parlamento à destituição de dois ministros do movimento de Al Sadr em castigo por terem mantido contato com funcionários norte-americanos na cidade de Nasiriyah. A coalizão tem cada vez mais dificuldades para se manter unida, embora seus integrantes coincidam quanto a uma crescente rejeição à ocupação, apesar dos eventuais benefícios com o fim do regime de Saddam Hussein (1979-2003).
“Demoramos em perceber que estávamos errados sobre as intenções dos Estados Unidos”, disse à IPS Salman Yassen, do Conselho Municipal de Basra. “Esperamos quatro anos, enquanto autoridades iraquianas e norte-americanas nos mantiveram ocupados lutando entre a gente para tramar seu plano de nos roubar petróleo e destruir nosso país para que seus aliados se sentissem seguros”, acrescentou.
Nos quatro anos de ocupação do Iraque os Estados Unidos foram adotando diferentes estratégias, mas estas mudanças parecem ser muito poucas e tardias. “O atraso nos avanços políticos custou muito ao Iraque, aos Estados Unidos e a várias outras nações”, disse à IPS em Bagdá o ex-policial Ahmed Jabbar. “O mínimo que se pode dizer é que o mundo estaria melhor sem está ocupação e sem as catastróficas complicações que causou”.
* Ali, nosso correspondente em Bagdá, trabalha em estreita colaboração com Dahr Jamail, nosso especialista no Iraque desde os Estados Unidos que viaja com freqüência ao Oriente Médio.
(Envolverde/ IPS)

