Pequim, 18/05/2007 – A China se mostra como modelo de crescimento para a empobrecida África e espera beneficiar-se dos abundantes recursos e do potencial econômico desse continente. Os representantes de Pequim mantiveram sua campanha nos dois dias da conferência anual do Banco Africano de Desenvolvimento, que terminou quinta-feira na cidade chinesa de Xangai. Foi a primeira vez que a instituição se reuniu na Ásia, e a segunda fora da África. A China expressa cada vez maior interesse no desenvolvimento do continente. Sua presença diplomática e econômica cresce dia a dia.
“Que a conferência aconteça neste continente e nesta conjuntura não é por acaso”, afirmou o presidente do Banco, Donald Kaberuka, inaugurá-la na quarta-feira. “Este encontro anual é uma oportunidade para trocar experiências e melhorar as oportunidades”. Por sua vez, o presidente de Madagascar, Marc Ravalomanana, disse aos anfitriões: “vocês são um exemplo de transformação. Na África, temos de aprender com sua experiência”.
Este país, cuja economia cresceu 10% na década passada, é aplaudido por seus esforços para livrar milhos de pessoas da pobreza. As autoridades chinesas priorizam o crescimento econômico como ferramenta de contenção da tensão social. Desde que se incorporou ao Banco em 1985, a China passou a ser um dos acionistas não africanos mais importantes. Empurrada por suas crescentes necessidades energéticas e de matéria-prima para alimentar seu auge econômico, Pequim investiu nos últimos cinco anos milhos de dólares em várias nações africanas.
No final do ano passado, os investimentos chineses na África chegavam a US$ 11,7 bilhões em um amplo leque de setores que inclui indústria, comércio, transporte e agricultura, segundo o Banco. O comércio bilateral aumentou para US$ 55 bilhões em 2006, quatro vezes mais do que em 2000. porém, Pequim disse que pretende aumentar o volume comercial para US$ 100 bilhões até 2020. A China logo será a maior fonte de investimento estrangeiro direto, segundo um informe sobre a participação asiática na economia africana, divulgado por duas agências da Organização das Nações Unidas.
O estudo feito pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) resenha a crescente presença de empresas chinesas na África. Algumas como Huawei, o maior fornecedor de serviços de telecomunicações da China, se destaca no contexto africano como a principal fornecedora de serviços de banda larga, com negócios desde o Egito até a África do Sul. O impulso dos investimentos chineses nesse continente foi propiciado por generosos pacotes de empréstimos e ajuda. Pequim cancelou US$ 1,4 bilhão em dívida e anunciou um alivio adicional de mais de US$ 1,3 bilhão.
Além disso, em uma cúpula de líderes africanos realizada em Pequim no outono passado, a China anunciou que duplicaria sua assistência à África até 2009. A generosidade chinesa para com a África é cada vez mais questionada. As autoridades de Pequim alegam que sua ajuda é o único mecanismo viável para resolver a enorme quantidade de conflitos políticos e humanitários que esse continente sofre. Porém, o governo chinês também é acusado de indiferença diante de situações políticas nas nações africanas e da determinação com que explora suas riquezas.
“Estou convencido de que a forte cooperação não beneficia apenas à população da China e da África, mas também contribui para o desenvolvimento e a paz”, disse o primeiro-ministro Wen Jiabao na abertura da cúpula de Xangai. Ativistas dos direitos humanos e organizações multilaterais de crédito, como o Banco Mundial, alertaram que a autodefinida política chinesa de empréstimos “sem ataduras políticas” ignora os direitos humanos, deixa de lado as possibilidades de um aumento na corrupção e a carga financeira das nações africanas.
“Os planos do Banco e da China de intensificar suas indústrias de extração e infra-estrutura na África apresentam sérios perigos para a população e o meio ambiente”, dissse Niki Reisch, do Programa para a África do Centro de Informação do Banco. “A sociedade civil da China, África e de outros lugares deve trabalhar para que seus governos sejam responsáveis pela situação”, afirmou. Pequim, que construiu uma vasta rede de enormes represas em todo seu território sem consultar os moradores afetados, está envolvida em vários projetos hidrelétricos na África.
A não-governamental Rede Internacional de Rios, com sede nos Estados Unidos, disse que a usina de Morewe, construída por empresas chinesas no Sudão expulsará 70 mil pessoas do fértil vale do rio Nilo para o deserto de Núbia. A represa de Mpanda Nkuwa, que será construída em Moçambique com capital chinês, terá um enorme impacto ambiental no delta do rio Zambeze, local protegido pelo Convênio de Ramsar, assinado em 1971 nessa cidade iraniana, para a conservação e o uso racional dos mangues.
“Os projetos que não atendem às necessidades das populações afetadas exacerbarão os conflitos sociais e a desintegração”, alertou Ali Askouri, líder da comunidade vizinha à represa de Morewe, no Sudão. Askouri afirmou que as autoridades sudanesas reprimiram com violência manifestações pacificas contra o projeto. O Sudão representa os questionamentos que a China enfrenta na África. Pequim, com profundos vínculos militares e econômicos com Cartum, é criticada por sua falta de esforços pela paz nesse país assolado pela guerra.
Na qualidade de membro do Conselho de Segurança da ONU com poder de veto, a China bloqueou o envio de soldados da ONU para a região sudanesa de Darfur sem consentimento de Cartum. Pelo menos 250 mil pessoas podem ter morrido nessa região pro causa da violência e de várias doenças, enquanto cerca de 2,5 milhões tiveram de abandonar suas casas desde o início do conflito em 2003. (IPS/Envolverde)

