Darfur: Ativistas duvidam do Plano B dos EUA

Washington, 31/05/2007 – O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, ordenou a implementação de seu aguardado Plano B contra o Sudão, porém, ativistas dizem que as novas sanções não obrigarão Cartum a permitir o envio de uma força de paz para a região de Darfur. O governo sudanês resiste à entrada de uma força de 23 mil soldados e policiais da União Africana e da Organização das Nações Unidas para controlar a situação em Darfur, que vive uma crise humanitária. As sanções incluem o congelamento das contas bancárias de dois funcionários do governo do Sudão e de uma companhia acusada de envolvimento em atrocidades na região. Além disso, foram acrescentadas 31 empresas a uma lista de 130 às quais se nega o acesso ao sistema financeiro norte-americano.

Estas medidas foram qualificadas de “muito contundentes” pelo enviado especial de Washington ao Sudão, Andrew Natsios.”Posso dizer-lhes que isto é muito contundente, porque vemos o efeito que tem a inteligência em qualquer lugar”, disse Natsios a jornalistas. Além disso, anunciou que Washington buscará uma resolução no Conselho de Segurança da ONU para ampliar as sanções e impor um embargo à venda de armas a Cartum, além de zonas de exclusão aérea sobre Darfur. Mas ativistas afirmam que tais medidas não dobrarão o governo do presidente Omar Al Bashir.

“O Plano B é tão unilateral em sua natureza e extremamente débil para ter um impacto sobre as autoridades sudanesas ou nos intransigentes líderes rebeldes”, disse em um comunicado Enough!, uma iniciativa conjunta do Grupo Internacional de Crise e do Centro para o Progresso Norte-americano, divulgado após o anúncio de Bush, na terça-feira. “Este anúncio é vazio e inconseqüente, apenas desenhado para o consumo político norte-americano e não como um esforço real para enfrentar a crise de segurança vivida em Darfur”, disse à IPS o ativista Eric Reeves, um dos líderes nas campanhas para resolver a crise humanitária.

“Diante das completas sanções comerciais e econômicas impostas em 1997 pelo presidente Bill Clinton (1993-2001), estas pequenas medidas não passam de inconveniências contáveis para Cartum”, afirmou Reeves. “Simplesmente obrigarão Cartum a converter contratos em dólares em euro ou iene”, acrescentou. A implementação do Plano B parece refletir a crescente frustração de Washington com Cartum, governo do qual percebe uma estratégia deliberada para dilatar o envio de uma força inter nacional de paz. A frustração da Casa Branca aumentou desde agosto, quando o Conselho de Segurança da ONU autorizou o envio dessa força pela primeira vez.

Na oportunidade, parecia claro que o Acordo de Paz de Darfur de 2006, assinado por Cartum e várias facções rebeldes, e apoiados pelos Estados Unidos e pela ONU, entrara em colapso e que a força da União Africana enviada à região, com sete mil soldados, não era capaz de conter a violência. Em um depoimento no Congresso norte-americano há mais de seis meses, Natsios alertou que, se Al BAshir não aceitasse o envio de uma força de paz expandida até 1º de janeiro, Bush imporia sanções do Plano B, mas essa data passou sem maiores conseqüências. Por outro lado, Washington depositou suas esperanças nos crescentes esforços diplomáticos, em particular do secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, e da China, principal comprador do petróleo sudanês e membro permanente com poder de veto no Conselho de Segurança.

Bush, que em diversas ocasiões qualificou de “genocídio” a campanha contra-insurgente em Darfur contra três importantes tribos negras africanas, disse no dia 18 de abril que Ban lhe pedira um adiamento por “um curto período de tempo” da implementação do Plano B. Isso para dar uma oportunidade à diplomacia, sobretudo à luz da promessa de Al Bashir de permitir que três mil soldados de paz da ONU, apoiados por seis helicópteros de ataque, se unissem aos da União Africana. “Adiei a implementação destas medidas porque a ONU acreditava que o presidente Bashir poderia cumprir suas obrigações para deter as mortes”, afirmou Bush na terça-feira.

“Lamentavelmente, ele não cumpriu essas obrigações. As ações do presidente Bashir nas últimas semanas seguem um longo padrão de prometer cooperação em lugar de buscar novos métodos de obstrução”, acrescentou. “Um dia depois que falei, os militares bombardearam uma reunião de comandantes rebeldes onde se discutia um possível acordo de paz com o governo. Nas semanas seguintes, Bashir usava seu exército e as milícias apoiadas pelo governo para atacar rebeldes e civis no sul de Darfur”, afirmou Bush. “Nada disto é aceitável para os Estados Unidos, pensamos que nada disto é aceitável para a comunidade mundial”, afirmou o subsecretário de Estado, John Negroponte, em uma entrevista coletiva após ao anúncio de Bush.

Negroponte disse que Washington pressionará seus aliados europeus para que imponham semelhantes sanções financeiras para “asfixiar investimentos internacionais que são muito importantes para o Sudão. Não há bons argumentos para que seja dado mais tempo aos sudaneses. O governo de Cartum mostra sempre o mesmo”, acrescentou. A organização Human Rights Watch disse que as sanções da ONU e da União Européia deveriam incluir não apenas proibições de viagem e congelamento de contas, mas também sanções econômicas a companhias que fazem negócios com o governo sudanês.

“As sanções contra indivíduos não deveriam estar limitadas a funcionários governamentais de nível médio, mas deveria incluir os altos líderes de Cartum”, disse o diretor do escritório a HRW para a África, Peter Takirambudde. Por sua vez, Ban Ki-moon evitou opinar sobre a efetividade das sanções. “Está é uma decisão do governo dos Estados Unidos, e espero que a comunidade internacional possa trabalhar em conjunto para encontrar uma solução para este assunto o mais rápido possível”, afirmou o secretário-geral da ONU. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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