Clima: Quando até a Lua se move

Nações Unidas,, 25/05/2007 – Uma noite, há cerca de quatro anos, o avô de Lakhan Bibi lhe disse que as coisas em sua terra, no norte do Paquistão, iriam mudar. “Como assim?”, perguntou ela. “Olhe o céu. Vê a lua? Já não está onde costumava estar”, respondeu ele. Para muitos, pode soar como superstição. Mas Bibi, que foi piloto de linhas aéreas comerciais e jovem dirigente da comunidade indígena kailash, nas montanhas de Hindu Kush, não tem razão para duvidar da sabedoria de seu avô. “Tinha razão. Desde esse momento, as coisas mudaram”, disse à IPS. “Nunca antes vimos o que estamos vendo agora. Nossos rebanhos fogem. Nossos lares ficam enterrados em enormes glaciais.

Usando um colorido vestido kailash no recinto da Organização das Nações Unidas, Bibi disse que com o acelerado derretimento das geleiras seu povo está cada vez mais preocupado com o futuro de seus meios de subsistência e estilo de vida tradicional, baseado durante séculos em uma economia autônoma. Os nativos do verde e exuberante vale de Kailash, cercado por algumas montanhas mais altas do mundo (com três mil a oito mil metros) vivem ali em proximidade com a natureza, que se manifesta em lagos cristalinos e densas florestas.

Bibi, delegada à sexta reunião do Fórum Permanente para as Questões Indígenas da ONU, que acontece todos os anos, disse temer que muitas pessoas de sua comunidade possam ser obrigadas a abandonar suas casas se o mundo não tomar medidas urgentes e práticas para minimizar o impacto da mudança climática. Muitos nativos morreram ou foram feridos por causa do derretimento e colapso de geleiras nos últimos anos. “Isso nunca havia ocorrido, porque sabiam quando iria acontecer. Agora já não sabem. Os glaciais caem com freqüência. No passado era diferente”, afirmou.

Especialistas em biodiversidade da ONU disseram que os problemas ambientais são muito reais, e que áreas muito altas em várias partes do mundo são particularmente afetadas pelo aumento da temperatura. “Uma característica comum das áreas muito elevadas é que proporcionam às comunidades de regiões baixas uma fonte vital de água doce”, afirmou um rascunho de documento das Nações Unidas sobre a vulnerabilidade das comunidades indígenas à mudança climática.

Os glaciais de montanha são importantes para o abastecimento de água de lagos e rios mais baixos, e são vitais para a subsistência e economia de muitas comunidades. Pesquisas recentes sugerem que seu derretimento mais rápido pode ser o impacto mais sério da mudança climática. Segundo informes em poder da ONU, a mudança climática já causou impactos adversos, o que representa “severas dificuldades para muitas comunidades indígenas”. Bibi disse que seu povo perdeu cultivos e animais dos quais depende para sua sobrevivência.

Mas os nativos de suas montanhas, assim como no Himalaia da Ásia meridional e nos Andes sul-americanos, não são os únicos prejudicados pela emissão de gases causadores do efeito estufa que alimentam o aquecimento global. Os especialistas dizem que os que vivem na região ártica, coberta por neve, e em pequenas ilhas estão ameaçados da mesma forma. Segundo os pesquisadores, na cordilheira dos Andes e no monte Kilimanjaro da África central a redução dos glaciais está se acelerando. Em fevereiro, a revista National Geographic informou que alguns glaciares andinos estão derretendo 10 vezes mais rápido do que há 20 anos.

Líderes indígenas dizem que suas comunidades, nem um pouco responsáveis pela industrialização que dispara a mudança climática, são as mais atingidas mesmo sem aproveitar de seus benefícios. E o fenômeno os obriga a abandonar suas terras. “É tempo de frear a exploração sem sentido dos recursos naturais da Terra”, disse Victoria Tauli-Corpuz, nativa das Filipinas e presidente do Fórum Permanente para as Questões Indígenas, que reuniu mais de mil ativistas na semana passada na ONU.

Cientistas que trabalham para as Nações Unidas agora reconhecem plenamente que o conhecimento tradicional sobre espécies de fauna e flora é chave para entender como conservar os recursos naturais e proteger espécies que são vitais para a sobrevivência de vida na Terra. “O vínculo entre biodiversidade e conhecimentos tradicionais é evicente”, disse Ahmed Djoghlaf, secretário-executivo da Convenção das Nações Unidas sobre a Diversidade Biológica.

Djoghlaf vê a Terra como “uma mãe espiritual que não somente dá vida e, portanto, o alimento, mas que também dá a identidade cultural e espiritual de seus ocupantes”. O manejo sustentável dos recursos nas mãos dos povos indígenas “pode proteger e potencializar” a biodiversidade, afirmou. “Suas culturas e cosmovisões são, portanto, essenciais no esforço global para frear a perda de biodiversidade e a destruição do habitat natural”, concluiu.

A Convenção, assinada ou ratificada por 190 países, não só reconhece o significado dos conhecimentos tradicionais como também reafirma a necessidade de “respeitar” e manter as inovações indígenas. Embora apreciem os objetivos expostos na Convenção, os líderes indígenas estão descontentes pelo fato de a Assembléia Geral da ONU não reconhecer seu direito a exercer pleno controle sobre suas terras e seus recursos naturais. “Embora em décadas recentes tenham se concretizado alguns avanços na área do reconhecimento legal do direito dos povos indígenas à proteção de suas terras, territórios e recursos naturais, em termos práticos este reconhecimento não se tornou realidade”, disse Tauli-Corpuz.

As ameaças a terras e territórios indígenas, segundo Tauli-Corpuz, incluem extração de minerais, desmatamento, contaminação tóxica, privatizações e projetos de desenvolvimento, bem como o uso de técnicas de engenharia genética e o cultivo de sementes transgênicas. Quando a Assembléia Geral se reuniu em setembro passado, muitos tinham grandes esperanças de que a ONU aprovasse o projeto de declaração sobre os direitos universais dos povos indígenas, mas isso não aconteceu.

Apesar de já aprovado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, Estados Unidos, Canadá e Austrália, entre outras nações, negaram-se a aceitar o texto por incluir uma cláusula exigindo o reconhecimento do direito dos povos indígenas à autodeterminação. Os líderes indígenas dizem que se a ONU não consagrar esse direito os esforços internacionais para reverter a perda de biodiversidade e superar os desafios da mudança climática serão inúteis porque seus recursos continuarão sendo explorados por companhias particulares.

“Por um lado, eles reconhecem nosso conhecimento tradicional como parte da solução. Mas, como podemos compartilhar nosso conhecimento sem exercer nosso direito de controlar nossas terras e recursos naturais?”, disse à IPS Arthur Manuel, da Rede Indígena sobre Economia e Comércio, com sede no Canadá. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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