Trabalho: Territórios palestinos no abismo

Genebra, 29/05/2007 – Os trabalhadores dos territórios árabes ocupados por Israel sofrem outro ano de drástica queda em seus níveis de vida e de aumento da pobreza, do desemprego, da desintegração social e da desordem política, afirma a Organização Internacional do Trabalho em seu último informe nessa região. O número de lares que vivem abaixo da linha de pobreza aumentou 26% entre março de 2006 e março deste ano, período examinado pelas missões de alto nível que a OIT enviou em abril aos territórios árabes ocupados.

Desde 1999 até 2006, o produto interno bruto por habitante dessa região ocupada diminuiu 40%. Sete em cada 10 lares, cerca de 2,4 milhões de habitantes, vivem atualmente na pobreza, diz o informe, que será examinado em suas sessões a partir de hoje até 15 de junho pela Conferência Internacional do Trabalho, máxima instância da OIT. Somente uma em cada três pessoas trabalha e com sua renda mantém outras seis. Aproximadamente 206 mil estão desempregadas, o equivalente a 24% da força de trabalho. Além disso, duas em cada três pessoas não têm emprego, seja porque figuram entre as desempregadas ou porque diretamente não fazem parte da força de trabalho.

À luz dos dados recolhidos pela missão da OIT, seu diretor-geral, o chileno Juan Somavía, considerou que a situação dos moradores da área é desesperadora. A violência não acabou e continua afetando tanto civis palestinos quanto israelenses, mas com muitos diferentes graus de intensidade, afirmou. Somavía destacou que a atividade econômica diminuiu de maneira drástica, o que aumentou a pobreza, o emprego precário e o desemprego. As empresas encontram cada vez mais dificuldades para funcionar por causa da alta dos custos logísticos, ressaltou.

Outros dados da situação na zona mostram que os trabalhadores e as famílias enfrentam uma queda das oportunidades de emprego e pagamento irregular de salário. O diretor-geral da OIT enfatizou três aspectos: as permissões nos postos de fronteira marcam a vida diária, o governo palestino tem de brigar com uma forte redução dos recursos e os confrontos entre setores políticos complicam ainda mais a situação. Os 40 anos de ocupação israelense da margem ocidental do rio Jordão, incluída Jerusalém oriental, a faixa de Gaza e as Colinas de Golan sírias, não são a única causa da atual deterioração da região, diz o informe. Também influi uma série de medidas tomadas após as eleições que provocaram a mudança de governo na Palestina em março de 2006, afirmou Somavía.

As eleições legislativas de janeiro de 2006 deram a vitória ao Movimento de Resistência Islâmico (Hamas), uma força mais radical em sua oposição a Israel e aos governos ocidentais que apóiam esse país. O partido secular Al Fatah, mais moderado, manteve a chefia da Autoridade Nacional Palestina, que conserva desde 1994. Desde então, o embargo financeiro imposto pela comunidade internacional à ANP teve efeitos devastadores para o povo e a economia palestinos, afirmou a OIT.

A isso somaram-se a retenção por Israel da renda com tributos e taxas aduaneiras palestinos, o que causou uma perda de divisas mensal estimada, em média, em US$ 60 milhões, e a suspensão do apoio orçamentário direto dos doadores ocidentais. No total, esses aspectos determinaram uma perda de 50% da renda do governo palestino. Um terceiro fator foi a imposição de novas restrições rigorosas à mobilidade de pessoas e mercadorias palestinas, que reduziu ao mínimo o funcionamento da economia desses territórios. O acesso aos mercados para os palestinos, tanto dentro quanto fora dessa zona, está rigidamente controlado pelas Focas de Defesa de Israel.

Somavía afirmou que a causa imediata da difícil situação social e econômica é o sistema dominante de barreiras e controles, incluído o muro de separação, estabelecido por Israel. Esta proteção estão causando ao mesmo tempo insegurança econômica e social para a população desses territórios, acrescentou. O dirigente da OIT refletiu que uma situação de prosperidade e segurança, por um lado, e de ocupação militar, pobreza e insegurança, por outro, é muito perigosa para os dois lados e não é sustentável. A OIT estima que a ANP, os doadores internacionais e Israel deveriam tentar apoiar os empresários e trabalhadores para consolidar as empresas, incentivar novos investimentos e diversificar a economia.

Dessa maneira se contribuiria para fomentar a segurança de palestinos e israelenses, bem como aproximar-se de uma solução negociada e duradoura do conflito, afirmou Somavía. A redução e supressão dos obstáculos à circulação das pessoas e mercadorias nos territórios, entre Gaza e a margem ocidental com o mundo exterior, mas garantindo a segurança em Israel, é a mais importante das medidas que poderiam ser tomadas para fazer retroceder a crescente crise econômica e social dos territórios ocupados, recomenda o documento da OIT.

O informe alerta que o tecido social dos territórios ocupados suporta a pressão de um alto nível de desemprego persistente, sobretudo entre os jovens, e níveis de pobreza e violência sem precedentes, incluída a deterioração do império da lei e da ordem. A população palestina, que continua tendo um rápido crescimento de 2,8% ao ano, se caracteriza por ser muito jovem, pois 46% dos seus 2,4 milhões de habitantes têm menos de 14 anos. (IPS/Envolverde)

Gustavo Capdevila

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