Desenvolvimento: Mais crianças matriculadas, em piores escolas

Bruxelas, 14/05/2007 – Os países pobres estão avançando na cobertura da educação primária, mas a qualidade do que as crianças aprendem na escola freqüentemente deixa a desejar, segundo o Informe de Monitoração Global 2007 do Banco Mundial, apresentado na sexta-feira. O documento é uma revisão anual do que os países fizeram para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da Organização das Nações Unidas, estabelecidos pelos líderes mundiais em 2000. Em matéria de educação, as metas são universalizar o ensino primário e terminar com a desigualdade de gênero no acesso aos três níveis da educação.

Os Estados-membros da ONU também se comprometeram a reduzir drasticamente a mortalidade infantil e a materna; combater a aids, malária e outras doenças; garantir a sustentabilidade ambiental e incentivar uma cooperação Norte-Sul para o desenvolvimento. Este ano marca a metade do caminho até a data limite para a maioria das metas, 2015.

O informe cita resultados de pesquisas feitas na Índia sobre a capacidade de leitura na escola, segundo os quais 68% dos alunos de segundo grau não conseguiram ler um simples parágrafo, enquanto 54% não puderam resolver um problema aritmético de dois dígitos. A atenção sanitária também apresenta problemas de qualidade. Enquanto 68% dos profissionais clínicos na Tanzânia puderam diagnosticar corretamente um caso de tuberculose, 67% trataram mal a doença. Além disso, cumpriram com menos de 24% da lista de controle básico de um paciente com malária.

“Os assuntos ligados às habilidades leitoras diferem de um país a outro”, disse a economista do Banco Mundial e co-autora do informe, Barbara Burns, em uma entrevista coletiva realizada em Bruxelas. “Os professores não estão suficientemente bem treinados, lhes falta motivação e simplesmente não aparecem. Às vezes, as crianças não vão à escola porque precisam ajudar suas famílias nos afazeres domésticos”, acrescentou. O documento não vê uma relação inerente entre perda de qualidade e aumento da cobertura em educação. Mas, há casos em que a qualidade foi colocada em risco quando os países ampliaram o acesso, afirmou.

O informe pede aos doadores que invistam em uma prova internacionalmente avaliada para medir os níveis de aprendizagem ao fim do curso primário. “Saber qual é o problema é o primeiro passo para enfrentá-lo”, disse Burns. O texto também propõe alguns novos indicadores para medir a desigualdade de gênero de modo mais exaustivo. Por exemplo, medindo a mortalidade infantil por sexo fica claro que na Ásia meridional as meninas até 5 anos são pior alimentadas e menos cuidadas dos que os meninos da mesma idade.

O panorama mais amplo sobre o progresso no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio não mudou no último ano. O mundo parece estar bem encaminhado para atingir o primeiro (reduzir pela metade a proporção de pobreza extrema), embora com grandes diferenças regionais. A Ásia orienta já está na reta final, e outras regiões estão mais ou menos a caminho, menos a África subsaariana. A proporção de africanos muito pobres está diminuindo, mas, pelo crescimento demográfico, a quantidade absoluta de pessoas nessa condição continua a mesma, apesar de nos últimos anos o aumento da renda por pessoa no continente se manter estável em 3%.

Os objetivos relativos à saúde e expectativa de vida mostram um panorama menos animador. Nem uma só região parece estar no caminho de reduzir em dois terços a mortalidade infantil até 2015. A África subsaariana e a Ásia meridional correm o risco de não alcançar nem um dos oito Objetivos. Mas além das médias regionais, também há algumas historias de sucesso. Entre 2000 e 2004, Benin, Guiné, Madagascar, Moçambique, Níger e Ruanda aumentaram em 10% a proporção de pessoas que completaram a escola primária. Já a Eritréia se preparou para reduzir pela metade a mortalidade infantil entre 1990 e 2005, apesar de uma renda por pessoa que chega a apenas US$ 190.

“A pobreza extrema está cada vez mais concentrada em Estados frágeis”, diz o informe, referindo-se a 35 países onde, em geral devido a conflitos armados, o governo não consegue fornecer aos seus cidadãos segurança e serviços públicos básicos. Aos Estados frágeis correspondem 9% da população dos países em desenvolvimento, 27% dos habitantes que vivem com menos de um dólar por dia e quase um terço de todas as mortes infantis. (IPS/Envolverde)

Mattias Creffier

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