Infância: As cicatrizes da guerra

Tampa, Estados Unidos, 15/05/2007 – A terrível situação das meninas e dos meninos com graves traumas emocionais em zonas de guerra permanece em grande parte desconhecida, apesar dos esforços de entidades como o Fundo das Nações Unidas para a Infância para chegar até eles e às suas famílias. Isto contrasta drasticamente, por exemplo, com a enorme cobertura dada nos Estados Unidos e no resto mundo ao massacre do dia 16 de abril na Universidade de Virgina Tech, em que um estudante matou 32 pessoas e em seguida suicidou-se. Amanda Melville, encarregada de proteção à infância do Unicef, explicou que é difícil calcular quantas crianças estão nessa situação, “porque é muito subjetivo”.

Melvill, que elaborou estudos de campo para o Unicef durante os últimos seis anos em lugares como Haiti, Indonésia, Irã e Palestina, disse à IPS que “as reações (de crianças em zonas de guerra) podem variar amplamente. Do ponto de vista psicológico, podem ser retraídos, enquanto alguns são rebeldes. Alguns meninos são forçados a assumir a chefia da família, porque o pai foi assassinado, e estas crianças não têm a maturidade” necessária para desempenhar esse papel.

De acordo com o Unicef, “as crianças em conflitos armados também experimentam de forma rotineira acontecimentos emocional e psicologicamente dolorosos, como a morte violenta de um dos pais ou parente próximo, a separação da família, ou presenciar a matança ou tortura de pessoas queridas”. Também estão expostos à “necessidade de abandonar a casa e o local onde vivem por causa de combates; bombardeios e outras situações que ameaçam a vida; abusos como seqüestro, prisão, detenção, violação, tortura; a alteração das rotinas escolares e da vida comunitária; a indigência e um futuro incerto”.

Entretanto, os especialistas dizem que apenas uma pequena porcentagem destas crianças busca se vincar pelo que sofreram. O conceito de vingança é fomentado na idade madura, não na infância. “Eles percebem que a vingança é negativa. Através da maturidade e da exposição à vida fora do acontecimento que processaram são capazes de elaborar maneiras de assumir suas experiências sem violência ou vingança”, disse Charles Figley, psiquiatra que dirige o Psychological Stress Research Porgramme (Programa de Pesquisa sobre o Estresse) na Universidade da Flórida, em Tallahassee.

Um dos informes apresentados pelo ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em seus últimos dias no cargo se referia às crianças em zonas de guerra. Segundo esse estudo, entre 1996 e 2006, dois milhões de meninos e meninas foram assassinados em conflitos e seis milhões ficaram feridos. Em razão desse informe, no final de novembro passado o Conselho de Segurança das Nações Unidas impôs uma proibição ao recrutamento de crianças como soldado.

Entre as enfermidades mentais sofridas por essas crianças, são muito comuns a ansiedade e os flashes de recordação, disse a psiquiatra norte-americana Teri Elliott, que trabalhou com crianças traumatizadas na Bósnia-Herzegovina. “Muitas delas nasceram em zonas de guerra. E se alguma nasce num local assim, acaba se acostumando. Como uma criança lidará com uma experiência em zona de guerra também depende da forma como seus pais lidarem. Quanto melhor manejarem a situação, melhor farão os filhos, e isso é aplicável a qualquer país”, afirmou.

Figley afirmou que a doença mental que mais freqüentemente afetam essas crianças é o estresse pós-traumático. “Coisas como cores brilhantes ou ruídos fortes podem ser alarmante para essas crianças. Boa parte da maneira como enfrentam estas experiências depende da idade de exposição, mas, também de como passam a olhar o mundo” a partir de então, disse à IPS. Figley, veterano da Guerra do Vietnã (1965-1975), observou que, “para alguns países, as doenças mentais constituem uma abstração social. O que importa é a concepção cultural. Por exemplo, dentro de aproximadamente uma semana estarei no Kuwait. O modo como sua população vê o mundo e também as doenças mentais é diferente de como são vistos nos Estados Unidos”, acrescentou.

Afeganistão e Iraque, os dois países mais afetados pela guerra que receberam a maior atenção da imprensa mundial, não têm estatísticas disponíveis sobre como a população infantil foi afetada. “E será difícil, porque a primeira prioridade dessas pessoas são os elementos básicos: alimento, água limpa e abrigo. Analisar a saúde mental de uma pessoa em semelhante contexto não está em um lugar de destaque em suas listas de prioridades”, afirmou.

Por sua vez, Melville explicou que “os tipos de problemas para estas crianças variam de uma região para outra”. Na Palestina, “onde trabalhei, as crianças estão sob muita pressão social para discutir estes assuntos. Assim, nós (do Unicef) criamos um programa mentor de equipe. Havia grupos de discussão para debater outras coisas além da situação política. As crianças queriam discutir a violência entre seus colegas”, contou.

Esta especialista também destacou que a unidade do Unicef com a qual trabalha incentiva “a terapia da brincadeira, depois a terapia da conversação e, às vezes, dependendo da idade das crianças, a terapia de grupo”. E, embora muitos cidadãos dos Estados Unidos possam acreditar que as crianças que se tornam social ou psicologicamente perturbadas por crescer em meio à violência extrema constituam um problema distante, há evidencias de que tal fenômeno existe em Washington, segundo a psiquiatra Rona Fields, que fez trabalhos de campo sobre o assunto.

A doutora Fields, professora-adjunta de psiquiatria na Universidade Howard, em Washington, com décadas de experiência no assunto, disse à IPS que realizou pesquisas sobre crianças que presenciaram horríveis matanças no distrito de Columbia. “Alguns destes casos tinham semelhanças com crianças de outros países que viram o que acontece na guerra. A pobreza e a violência exacerbam a situação com estas crianças, parte do que elas vêm a cada dia se assemelha ao que veria uma pessoa em uma zona de guerra”, afirmou Fields. (IPS/Envolverde)

Mark Weisenmiller

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