Iraque: Toque de recolher asfixia Samarra

Samarra, Iraque, 24/05/2007 – Informes de médicos indicam que, pelo menos, 10 pessoas morreram nesta cidade iraquiana, que fica 125 quilômetros ao norte de Bagdá, como resultado do toque de recolher imposto pelo governo do Iraque apoiado pelos Estados Unidos. Os 300 mil moradores de Samarra lutam para conseguir alimento, água e remédios. Os veículos estão proibidos de entrar ou deixar a cidade desde o último dia 6. O governo iraquiano e o exército norte-americano impuseram um rígido toque de recolher na cidade nesse dia, após o ataque com carro-bomba conduzido por um suicida que matou uma dezenas de oficiais da polícia, incluindo seu chefe local, Abd al-Jalil al-Dulaimi.

Samarra é um ponto quente da resistência à ocupação norte-americana no Iraque desde praticamente o início da invasão, concretizada em 20 de março de 2003. Depois do atentado, forças dos Estados Unidos e do Iraque cercaram a cidade e fecharam todas as entradas e saídas com blocos de concreto e sacos de areia. Moradores da região disseram à IPS que a principal ponte da cidade foi fechada, as ambulâncias estão proibidas de se aproximar e os habitantes enfrentam uma situação cada vez mais angustiante. “Estamos sendo massacrados aqui por estes norte-americanos. As pessoas estão morrendo porque carecemos de tudo o que é indispensável, e nosso governo parece estar muito feliz com isso”, disse à IPS Majid Hamid, professor em uma escola de Samarra.

Moradores e fornecedores de serviços disseram à IPS que a eletricidade foi cortada. “Não há vida na cidade por causa dos castigos coletivos. Privar as pessoas de eletricidade significa privá-las de água, cuidados com a saúde e de tudo o que é indispensável para a manutenção da vida, especialmente com as altas temperaturas de agora”, afirmou à IPS um funcionário do serviço de energia elétrica, que pediu para não ser identificado. A rede elétrica e o fornecimento de água potável em Samarra já estavam em franca deterioração.

Os dois correspondentes da IPS em Bagdá estiveram em Samarra várias vezes desde o começo da ocupação e presenciaram as táticas militares norte-americanas de cortar a água e a eletricidade dos habitantes quando são atacados. A estratégia defensiva das forças lideradas pelos Estados Unidos e por iraquianos também inclui a demolição de casas, invasões e detenções em massa. “Este não é o primeiro sitio que sofremos. Os norte-americanos fazem isso com freqüência, e continuarão fazendo, já que não aceitamos sua ocupação e todos os desastres que ela nos trouxe”, disse as IPS Nahla Alwan, uma farmacêutica da cidade. “Eles deveriam saber que nos prejudicam mais agora, e ensinaremos às futuras gerações a se vingarem das almas inocentes mortas pelos criminosos norte-americanos”, acrescentou.

Um médico do principal hospital de Samarra, que como muitos outros falou sob a condição de não ser identificado, informou à IPS que pelo menos 10 pessoas, entre elas sete bebês, morreram por falta de combustível para os geradores necessários ao funcionamento de incubadoras e equipamentos de salvar vidas. Pelo menos dois pacientes idosos estavam entre os mortos. Apesar das súplicas dos moradores às forças norte-americanas e iraquianas para que permitam a entrada de ajuda, ninguém chegou e o toque de recolher continua.

“Meu sobrinho de 10 anos morreu de asma porque não pudemos levá-lo ao hospital”, contou à IPS Namer Aboud, um jovem de 25 anos do bairro Abbasiya, em Samarra. “Todos os serviços médicos estão paralisados por causa do sitio, e muitas pessoas estão morrendo. Se isto ocorresse em alguma outra parte do mundo seria considerado assassinato. Mas para o mundo, o sangue iraquiano é barata”, afirmou. Este castigo coletivo é injusto e mostra claramente o quanto são cruéis os norte-americanos. Estão castigando inocentes de um modo covarde”, disse à IPS um membro do Conselho da cidade de Samarra.

A organização Médicos pelo Iraque divulgou um documento expressando sua grave preocupação sobre a deterioração da situação. “Médicos pelo Iraque condenas nos termos mais fortes qualquer atividade que impeça civis de receber assistência médica ou humanitária por parte de todos os atores envolvidos no conflito”, dizia a declaração. Os médicos reclamaram o fim imediato do sitio, que chamam de “um ato de castigo coletivo”, e exigiram que as organizações não-governamentais locais, bem como os trabalhadores da saúde, tenham acesso à cidade.

Um porta-voz do exército norte-americano admitiu aos jornalistas que as medidas de segurança impostas sobre Samarra “tornaram a vida muito difícil” para seus habitantes, mas, alegou que “as autoridades locais” as impuseram. Porém, o correspondente da IPS viu vários veículos militares dos Estados Unidos em torno da cidade e, antes, pessoal militar desse país estabelecendo controles nas estradas no início do sitio. “Esses covardes desfrutam matando nossos filhos, como os funcionários do governo do persa Nouri Maliki” (primeiro-ministro), disse à IPS Abu Nabhan, de 45 anos, em Samarra. “Eles parecem querer mais ataques de nossos benditos filhos na resistência, porque este ataque contra o povo de Samarra somente aumentará nosso ódio contra os norte-americanos”, garantiu.

A população está cada vez mais indignada com as forças ocupantes. “A situação está ficando muito pior por causa deste comportamento irresponsável das forças dos Estados Unidos”, disse à IPS um trabalhador de uma ONG local que se identificou como Yassin. “Estão gerando mais indignação e inclinação pela violência. Todos nossos esforços para acalmar o povo agora são desperdiçados, já que mais do que nunca as pessoas acreditam na violência em lugar da paz”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Ali al-Fadhily

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