América Latina: Preparar para a velhice

Santiago, 25/06/2007 – Os países da América Latina devem desenvolver desde já sistemas universais de seguro social para enfrentar o aumento da população maior de 60 anos, que em 2050 será de 189 milhões de pessoas, afirma um estudo da Organização das Nações Unidas sobre o assunto. “Os países devem começar a se preparar já. Se não forem tomadas medidas a partir de agora, em 2050 o problema (do envelhecimento da população) será difícil de ser manejado”, disse à IPS o colombiano José Antonio Ocampo, secretário-geral-adjunto para Assuntos Econômicos e Sociais da ONU.

Ocampo apresentou na semana passada, em Santiago do Chile, o “Estudo Econômico e Social Mundial 2007. O desenvolvimento de um mundo que envelhece”, preparado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais (Desa). “Primeiro, é preciso construir sistemas de pensões viáveis com cobertura universal para esses 190 milhões de pessoas; em segundo lugar, deve-se ir preparando os sistemas de saúde para o cuidado com os idosos e, em terceiro, é preciso desenvolver sistemas que permitam à população idosa estar integrada política e socialmente”, afirmou.

O estudo estima que a maioria dos países em desenvolvimento deve destinar entre 0,5% e 2% de seu produto interno bruto ao financiamento de pensões sociais universais para manter as pessoas em idade avançada longe da pobreza extrema. O custo de sistemas de segurança social mais desenvolvidos, que contem com elementos contributivos, é mais alto, entre 6% e 10% do PIB, ressaltou Ocampo. Projeções do Desa indicam que em 2050 existirão quase dois bilhões de pessoas com 60 anos ou mais no mundo, 80% delas vivendo em países em desenvolvimento.

Como a América Latina e o Caribe ainda estão na segunda transição demográfica (redução da fecundidade e aumento dos adultos em idade de trabalhar), as projeções indicam que passará de 49 milhões o número de adultos em 2005, que equivalem a 8,8% da população total, para 189 milhões em 2050, representando 24,1% do total de habitantes. Já as nações industriais atravessam a terceira transição demográfica, que se caracteriza por um longo período de redução da fertilidade e da mortalidade, gerando aumento da proporção de pessoas mais velhas.

Atualmente, 80% da população mundial não têm uma cobertura de assistência social, e prevê-se que, se não houver uma mudança nas políticas, cerca de 1,2 bilhão de idosos poderão enfrentar insegurança de renda até 2050. “Nossas sociedades (latino-americanas) ainda não estão plenamente preparadas para abordar os desafios que derivam do envelhecimento populacional”, afirmou Dirk Jaspers-Faijer, diretor do Centro Latino-Americano e Caribenho de Demografia da Divisão de População da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

“Os riscos que o envelhecimento provoca na economia, saúde e cultura se devem mais à inexperiência e escassa visão de futuro para abordar a questão como um assunto público que preocupe os Estados do que ao processo de mudança demográfica em si”, ressaltou. O informe destaca que o envelhecimento reflete o progresso humano, já que significa maior longevidade e menor mortalidade, e se deve considerar uma oportunidade para incorporar ativamente os mais velhos à sociedade, o que, por sua vez, implica importantes desafios.

O crescimento da força de trabalho vai desacelerar e inclusive ficar negativa, o que pode afetar a atividade econômica. Além disso, esta tendência demográfica pode prejudicar a sustentabilidade dos sistemas de aposentadorias e de saúde. O estudo afirma que há quatro “respostas cruciais” para este cenário: aumentar a participação feminina na força de trabalho, eliminar incentivos à aposentadoria antecipada, melhorar o ambiente profissional para os trabalhadores de idade avançada e aumentar a produtividade do trabalho.

Um aspecto-chave nos países da região é a criação de sistemas de pensões para a velhice, já que se comprovou que existe uma estreita ligação entre a cobertura da seguridade social e a pobreza em idades avançadas. Alguns dos países que desenvolveram mais cedo sistemas deste tipo são Uruguai, que conta com 78% de cobertura; Brasil, com 77%; Argentina, com 56%, e Chile, com 55% dos idosos. Entre os países com cobertura insuficiente estão Haiti, com 1%; Bolívia, com 11%; Paraguai, com 12%, e México, com 20%. O estudo afirma que não existe uma fórmula universal para a criação dos sistemas de pensões, mas que há princípios reitores: acesso universal, solidariedade, igualdade de gênero, benefícios adequados para evitar a pobreza e sustentabilidade financeira.

Desta forma, os sistemas de segurança de renda devem ter múltiplos pilares, projetados de acordo com as condições e preferências de cada país. Os dois mais importantes são o pilar não-contributivo, que implica a entrega de uma pensão a todos os maiores de 60 anos, e o pilar contributivo, que substitui certo nível de salário. Neste último cabem os sistemas de capitalização do qual o Chile é pioneiro. Entretanto, Ocampo lembrou que “não há evidência da superioridade do sistema de capitalização” sobre o de divisão. “Qualquer sistema depende do crescimento econômico do país”, explicou.

Em 1981, o então ditador chileno general Augusto Pinochet (1973-1990), substituiu o antigo sistema de divisão por um de capitalização individual, criando as Administradoras de Fundos de Pensões (FAP), sociedades anônimas que arrecadam e investem no Chile e no exterior as contribuições obrigatórias dos trabalhadores chilenos. Porém, seus magros resultados levaram a atual presidente, Michelle Bachelet, a enviar ao Congresso um projeto de lei para reformar o sistema que s encontra em discussão. Esta iniciativa contempla a entrega de uma Pensão Básica Solidária (PSB) para os trabalhadores mais pobres que não possam economizar para sua aposentadoria durante os anos em que está no mercado de trabalho. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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