México, 20/06/2007 – Na América Latina e no Caribe vivem 75 milhões de mulheres negras, mas não chegam a 50 as que ocupam altos cargos na política ou administração publica. Ser afrodescendente é estar nos degraus mais baixos da escala social regional. “A desigualdade e iniqüidade estão à vista: temos pouco ou nenhum espaço onde estão os tomadores de decisões. Nossa situação é uma das piores”, disse à IPS a nicaragüense Dorotea Wilson, coordenadora de Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas, Afro-Caribenhas e da Diáspora.
Ser pobre, mulher e negra “nos obriga a realizar um esforço gigante contra a discriminação e a xenofobia”, disse Wilson, ex-prefeita e legisladora na Nicarágua, além de líder da organização não-governamental Vozes do Caribe. A coordenadora da rede, que reúne grupos de 33 países, foi entrevistada por telefone desde o Panamá, onde participou na segunda e terça-feira, junto com outras 30 pessoas, do Encontro Intergeração de Mulheres Afrodescendentes da América Latina, com patrocínio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Cerca de 150 milhões de afrodescendentes da região conseguiram vencer sua segregação, conquistando alguns papéis relevantes no poder político ou na administração publica, como ocorreu, por outro lado, com um punhado de representantes da população indígena latino-americana, estimada em aproximadamente 40 milhões de pessoas. A Rede de Mulheres Afrodescendentes afirma que não chegam a 50 as mulheres nesses postos. Na reunião do Panamá se buscou articular e definir agendas das organizações de mulheres negras, “que estão dispersas”, explicou Wilson.
As participantes apresentarão uma postura unitária na X Conferência Regional sobre a Mulher da América Latina e do Caribe, que acontecerá em Quito, no Equador, entre 6 e 9 de agosto, por iniciativa da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). “Temos que nos articularmos com urgência como mulheres afrodescendentes, pois estamos separadas e nem mesmo conseguimos que os governos façam o suficiente para saber quantos somos exatamente na região”, afirmou Wilson. Na capital equatoriana, um dos temas centrais será a situação do trabalho doméstico feminino.
A metade das mulheres ocupadas nesse setor trabalha mais de 48 horas semanais, sem salários adequados nem acesso ao seguro social, segundo a Cepal. Além disso, milhões de domesticas não recebem nem mesmo um pagamento. Grande parte desta força trabalhista é composta por mulheres indígenas e afrodescendentes. Mais de 90% da população descendente de africanos escravizados na América na época colonial são pobres, têm acesso apenas aos empregos menos remunerados e conta com baixo nível de educação, conforme as estatísticas.
Uma pesquisa da Cepal feita em 2001 afirma que “a população afro-latina e afro-caribenha é de alta densidade e pouca ressonância”. As estatísticas disponíveis indicam que devido à discriminação a condição de negritude funciona como uma ancora mantendo as pessoas na pobreza. No Brasil, por exemplo, 71% das mulheres negras trabalham no setor informal, uma proporção maior do que a de homens negros (65%), de mulheres brancas (61%) e de homens brancos (48%).
Também no Brasil a população branca é 2,5 vezes mais rica do que a negra. Na Colômbia, 80% dos afrodescendentes vivem na pobreza extrema, e em Cuba, único país da América com sistema econômico socialista, habitam as piores moradias e têm os trabalhos pior remunerados. “Ser negro é muito difícil nesta região, e mais ainda se é mulher, sei disso porque eu mesma tive de enfrentara situações degradantes em muitos momentos”, afirmou Wilson, originária de Puerto Cabezas, região autônoma do Atlântico Norte nicaragüense. “Meu pai foi operário em mina por mais de 48 anos, minha mãe era dona de casa que criou nove filhos. Foi difícil seis mulheres e três homens seguirem adiante nestas sociedades, mas lutamos e conseguimos”, acrescentou.
Em 1975, sendo uma religiosa missionária, Wilson entrou para a esquerdista Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) e depois aderiu às ações armadas contra a ditadura de Anastásio Somoza. Em 1979, derrubado o ditador, se converteu na primeira prefeita de Puerto Cabezas e em seguida foi deputada na Assembléia Nacional Legislativa, pela Costa Caribe. Wilson continua sendo integrante da FSLN que, após perder o governo nas eleições de 1990, o recuperou nas de 2006, quando Daniel Ortega foi eleito presidente. (IPS/Envolverde)

