Caracas, 15/06/2007 – Caminharam quilômetros quase todos os dias das ultimas três semanas gritando palavras de ordem como “somos estudantes, não somos políticos”. Mas estes jovens, precisamente, ao deixarem as salas de aulas para ocupar o asfalto deram um novo curso à política na Venezuela. “A liberdade, a democracia que tínhamos gravada nos ossos nos despertou. Despertou um gigante”, disse à IPS Yon goicoechea, líder dos estudantes na Universidade Católica Andrés Bello, de Caracas, dirigida pelos jesuítas. Começam a ser chamados de “a geração do 28”, porque emergiram nessa dia de maio, horas depois que o governo do presidente Hugo Chávez deixou sem sinal a emissora de televisão Radio Caracas (RCTV), ao ano renovar sua concessão.
Como tal geração são conhecidos os universitários que em 1928 se levantaram contra a ditadura de Juan Vicente Gómez (19-9-1935) e que a partir de 1945 dirigiram o país por meio século. “O fechamento da RCTV teve um impacto emocional, foi a gota d’água que fez transbordar um copo que se enchia com cada medida autoritária. Essa decisão contra a emissora, extrema e evidentemente autoritária e autocrática, foi o estopim para entender que estamos em uma ditadura”, afirmou Goicoechea, estudante de Direito de 22 anos.
Jesús Quintana, de 20 anos, aluno de Engenharia na estatal Universidade Simon Bolívar, fez sua estréia contra o gás lacrimogêneo. “Nunca nos manifestamos antes. Saímos às ruas porque Chávez atacou a liberdade de expressão. Nem eu nem meus amigos assistíamos a RCTV, mas se lhe retiram o sinal também tiram a possibilidade de serem expressos outros pontos de vista”, disse Quintana à IPS. A programação desta emissora era considerada um exemplo do chamado “lixo televisivo”, ao estilo norte-americano e onde se exacerbava o espetáculo deixando de lado a qualidade e o conteúdo.
Estefanía Simon, de 19 anos, estudante de Humanas, afirmou à IPS que ficou surpresa com o número de manifestantes. “Pensei que pertencia a uma geração apática. Também não via a RCTV, mas quem gosta tem o direito de vê-la, e com a retirada do sinal se reduziu o espaço da liberdade de expressão”. Estefanía disse que “foi a primeira vez que participei de manifestações. Sinto que a polícia tem ordens para que nada nos aconteça e continuarei se este movimento se mantiver longe dos partidos políticos, pelos quais não sinto nenhum respeito”.
Stalin González, presidente da Federação de Estudantes da Universidade Central, a principal dos país, disse à IPS que “temos nossa própria agenda. Não queremos derrubar o governo, mas que haja respeito pelos direitos civis, começando pelo de liberdade de expressão e de manifestação”. Na faixa dos 20 anos, rapazes e moças que foram às ruas de Caracas e outras 10 cidades desconcertaram as autoridades com suas formas de protesto. A maioria das manifestações foi pacifica, com participantes pintando as mãos de branco e caminhando com elas abertas e erguidas, e com as moças entregando flores aos policiais.
Em uma caminhada acompanhada pela IPS o grupo mais ria do que gritava, e inventava “refrões como “parem de lavar e venham caminhar”, quando passavam diante de uma tinturaria. Os vizinhos riam, aplaudiam, gritando em seu apoio, agitam bandeiras e batem em panelas. Os jovens pintam as siglas de suas universidades (publicas ou pagas, e algumas com matriculas caríssimas) no rosto, nas mãos e nos braços, faziam cartazes e se comunicavam constantemente com a direção da marcha através de mensagens de texto via celular. “Não é verdade o rotulo que deputados e funcionários do governo nos impõem, de que somos estudantes de famílias bem de vida”, afirmou à IPS Ricardo Andrade, de 20 anos, estudante de Comunicação Social na Universidade Central.
“Venho de Lara (Estado do centro-oeste), vivo com parentes, e muitos de meus companheiros vivem em localidades próximas de Caracas, zonas humildes, e estudam em meio a grandes necessidades. Não apoio o lixo televisivo que podia haver na RCTV, mas o Estado intervém em muitas coisas que não deve”, disse Andrade. Os estudantes conseguiram o que a oposição partidária não conseguiu em cinco anos: chegar às zonas do centro-oeste de Caracas, onde só eram permitidas caminhadas oficialistas, e, além disso, foram recebidos pelo Supremo Tribunal de Justiça e pela Assembléia Nacional (parlamento unicameral).
Os parlamentares organizaram, sem consulta aos manifestantes, um debate entre 10 estudantes críticos e outros tantos seguidores do processo liderado por Chávez, e quando os jovens chegaram foi ordenada a formação de uma rede nacional de rádio e televisão. Porem, os manifestantes contrários a posição do presidente usaram da palavra apenas uma vez, transmitiram uma mensagem defendendo os direitos civis e se retiraram do parlamento, negando-se, em outra de suas táticas surpresas, a participar de um debate porque não haviam sido consultados antes.
Ao analisar a atenção do país sobre a agitação estudantil das ultimas semanas, o sociólogo Túlio Hernández disse à IPS que “isto não é o Maio de 68 na França, mas, nasce uma nova geração política, com estes jovens que eram apenas adolescentes durante a crise de 2002 e crianças quando Chávez chegou ao poder” em 1999. o instituto de pesquisa Hinterlaces registrou em maio 80% de rejeição popular à medida contra a RCTC e em suas primeiras medições sobre o protesto estudantil, agora em junho, constata a aprovação de mais de 60% dos entrevistados.
“Os jovens emergem com muita credibilidade como novos atores da politica, porque não são parte da polarização e aumentam a brecha aberta no apoio ao presidente no caso RCTV”, disse à IPS Oscar Schéml, diretor da Hinterlaces. Chaves, em sucessivas intervenções, afirmou que “digam o que digam (os estudantes), não passam de peões do império. Muitos não se dão conta do que fazem. Coitados. Tão jovens e já trabalham para a carniça, para a oligarquia”, afirmou.
Em entrevista coletiva, Chávez desenhou um cartucho de dinamite com o pavio aceso, ao explicar que as manifestações “não passam de um primeiro passo desestabilizador, de um golpe que he como uma bomba com o pavio longo”. O presidente e os comunicadores mais conhecidos nas emissoras estatais de TV afirmam que o plano desestabilizador se inspira em diretrizes de desobediência pacifica estabelecidas por Albert Einstein Institution, a organização criada pelo especialista político norte-americano Gene Sharp.
Goicoechea reconhece que admira figuras emblemáticas da desobediência civil, como o líder pacifista e independentista indiano Mahatma Gandhi e o defensor dos direitos humanos norte-americano Martin Luther King, bem como Muhammad Yunus, o economista de Bangaldesh criador do Banco dos Pobres e prêmio Nobel da Paz. González, outro líder da movimentação estudantil em Caracas, admira figuras como Oswaldo Guillén, gerente venezuelano da equipe Meias Brancas de Chicago no torneio de beisebol das Grandes Ligas dos Estados Unidos. Revelador, em alguém a quem os país, militantes do pequeno partido marxista-leninista Bandeira Vermelha, deram o nome de Stalin.
O que os estudantes farão agora? “Vamos compactar mais o movimento, ter maiores laços entre Caracas e o interior, e iremos aos bairros pobres, não como turistas, mas párea entrarmos na realidade venezuelana”, afirmou Goicoechea. De imediato está descartada qualquer obstrução à realização da Copa América de Futebol, o mais antigo torneio de seleções de países do mundo que será disputado entre 26 deste mês e 15 de junho e no qual o governo venezuelano investiu cerca de US$ 1 bilhão. “Os estudantes vão receber de braços abertos quem vier para a Copa América. Queremos vê-la, e também queremos que o governo democratize a venda de ingressos”, disse González. “Agora, com todo respeito ao evento, estaremos aproveitando a Copa para enviar nossas mensagens ao mundo”, acrescentou.
Chávez respondeu ao movimento de rua determinando que uma comissão liderada por seu vice-presidente, Jorge Rodríguez, também líder universitário há mais de duas décadas, prepare uma legislação sobre “conselhos do poder popular estudantil”, uma figura que teria o reconhecimento oficial e manejaria bolsas e outros serviços. “Os estudantes não derrubam governos, mas são movimento proféticos da sociedade”, disse a psicóloga social e ex-ministra da Familia Mercedes Pulido. Por sua vez, o analista político Fausto Masó afirmou que “algo ruim aconteceu a Chávez, que é ter perdido a iniciativa. Estava a oito anos jogando ping-pong com a oposição e agora os estudantes o desafiam no tabuleiro de xadrez. (IPS/Envolverde)

