Balcãs: Armas da guerra acabaram no Afeganistão e Iraque

Belgrado, 14/06/2007 – Armas usadas na guerra dos Balcãs nos anos 90 agora avivam os conflitos do Afeganistão e Iraque, segundo altas fontes oficiais. Um aspecto fundamental dos Acordos de Paz de Daytona, que puseram fim à guerra Bósnia-Herzegovina em 1995, foi a destruição de armas pequenas e pesadas, artilharia e munições. Os 39 mil soldados das Forças de Estabilização da Organização do Tratado do Atlântico Norte, que ficaram até dezembro de 2004, seguidos pelos 6.300 efetivos das Forças da União Européia (Eufor), procuraram restabelecer a paz e garantir a segurança. Entre suas tarefas estava a destruição das armas remanescentes. Mas o armamento teve outro destino.

Os jornais Nezavisne Novine, da Bósnia, e Vicernji List, da Croácia, citaram um ex-membro austríaco da Eufor, identificado como Major Erwin K, dizendo que sob pressão dos Estados Unidos as armas e as munições armazenadas tiveram de ser vendidas ao Afeganistão e Iraque após os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington. Pelo menos 290 mil rifles foram vendidos a empresas privadas, em sua maioria dos Estados Unidos. As pistolas tiveram de ser entregues às “forças de segurança locais” desses países, teria informado a fonte militar.

Os pedidos de informação oficial feitos pela IPS não foram respondidos. Mas o presidente empresa estatal de armas Unis-Promex, com sede em Sarajevo, Jasenko Maglajlija, confirmou que sua companhia manteve acordos comerciais com a norte-americana Scout. “Tivemos negócios com a Scout, mas isso não é um problema porque contamos com a aprovação do Estado”, afirmou Maglajlija ao jornal Vicernji List. Mas “desconheço o paradeiro das armas. Isso deve ser perguntado a outra pessoa. Talvez tenham acabado no Afeganistão ou Iraque, não posso confirmar”. Porém, segundo ele, a imprensa “arma um escândalo desnecessário” sobre o assunto.

Estas não são as primeiras advertências a respeito do desvio de armamento. O informe “Morte a tempo”, divulgado no ano passado pela Anistia Internacional, com sede em Londres, dedica 40 páginas a assuntos de direitos humanos derivados do tráfico ilegal de armas. “Centenas de armas leves da guerra da Bósnia-Herzegovina junto com dezenas de milhões de munições teriam sido enviadas, clandestinamente e sem controle estatal, ao Iraque, através de agentes privados e transportadoras sob os auspícios do Departamento de Defesa dos Estados Unidos entre 31 de julho de 2004 e 31 de julho de 2005”, diz o documento da Anistia com base em fontes da Eufor.

A Anistia alertou os proprietários dessas armas sobre violações dos direitos humanos. Também nomeou várias companhias envolvidas na operação. O informe revelava, ainda, que as armas foram parar em Ruanda em dezembro de 2004, apesar das advertências da Organização das Nações Unidas sobre esse país africano dar ajuda a grupos armados da República Democrática do Congo. Bósnia-Herzegovina custou a se recuperar das feridas após o fim do sangrento conflito de três anos que acabou em 1995. O território ficou dividido entre muçulmanos de origem eslava, sérvios e croatas. Mais de cem mil pessoas morreram em conseqüência da guerra.

As armas que ficaram foram tão difíceis de eliminar quanto as recordações do conflito e o ódio residual entre os diferentes lados. “Segundo nossa pesquisa, morre a arrepiante quantidade de mil pessoas por ano por abusos e por não saberem manejar armas pequenas na Bósnia”, afirmou o representante local do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Stefan Priesner. Esta agência da ONU assinala que cerca de 20% dos civis da Bósnia possuem armas e em sua maioria de forma ilegal. O número concreto seria de, aproximadamente, 500 mil em um país com cerca de 3,8 milhões de habitantes.

O Pnud organizou em novembro uma loteria incomum em que oferecia motocicletas e utensílios de cozinha a quem entregasse armas ilegais. Essa iniciativa seguiu-se outra, da Eufor, chamada “Colheita”, com o mesmo objetivo. Nas operações do ano passado e em questão de dois meses foram coletadas mais de 30 mil granadas de mão, nove mil armas pequenas e 200 quilos de explosivos. Esse armamento mais “as 500 mil munições era suficiente para armar uma brigada inteira”, afirmou na oportunidade Julio García, da Eufor.

As forças de manutenção da paz reuniram desde 1998 52 mil armas pequenas, 38.500 minas terrestres, mais de 225 granadas de mão, cerca de 15,5 milhos de munições, 33 toneladas de explosivos e, inclusive, dois tanques, segundo informação oficial. Porém, o Pnud e as autoridades locais estimam que ainda há grandes quantidades de armas em mãos de civis e outras 350 mil toneladas de munições na Bósnia e que sua apreensão demoraria mais de 20 anos ou, do contrário, teriam que ser incluídas na lista do tráfico ilegal. (IPS/Envolverde)

Vesna Peric Zimonjic

Vesna Peric Zimonjic is a freelance journalist working from the Balkan region with more than three decades of experience. She has contributed to IPS since the disintegration of the former Yugoslavia in 1991. Vesna also conducts political analyses of the region and contributes to the London-based daily The Independent, BBC World Service and German Deutsche Welle radio and television.

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