Peshawar, Paquistão, 10/07/2007 – Enquanto o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) suspendeu suas operações de repatriação de refugiados afegãos devido às fortes chuvas, a polícia do Paquistão anunciou que vai redobrar esforços para enviar os “ilegais” de volta ao seu país. Inundações e fortes tempestades danificaram várias pontes e bloquearam estradas do Afeganistão e Paquistão. No último dia 3, na central província afegã de Salang, centenas de pessoas interromperam o tráfego em uma estrada para protestar contra a falta de ajuda do governo. Por outro lado, informou-se que a passagem de Torkham, desde a cidade paquistanesa de Peshawar para o Afeganistão foi reaberta.
Os afegãos registrados agora poderão ir ao Centro de Repatriação Voluntária. O Acnur entrega a cada um que retorna ao seu país US$ 100 em ajuda. Além de Torkham, os refugiados podem seguir a rota Quetta-Chaman para voltarem à sua terra, destroçada pela guerra. Cerca de 1,3 milhão de afegãos permanecem refugiados no Paquistão, cinco anos depois de a coalizão liderada pelos Estados Unidos ter afastado de Cabul o movimento islâmico Talibã e propiciado a chegada de Hamid Karzai ao cargo de presidente interino, que foi ratificado no cargo nas eleições de 2004.
Embora a maioria dos refugiados tenha se registrado perante as autoridades, “cerca de 250 mil afegãos permanecem como ilegais. Outros 170 mil retornaram ao seu país, mas perdemos o rastro de aproximadamente 80 mil”, disse o chefe de polícia de Peshawar. Abdul Majeed Marwat. “A polícia local iniciou as ações necessárias contra quem não tiver seu cartão de registro e permanecer ilegalmente” no país, afirmou Marwat, que acusou os afegãos de serem responsáveis pela maioria dos crimes na província da Fronteira Noroeste, da qual Peshawar é capital.
Marwat informou que foram feitas cerca de 50 prisões desde 15 de junho. A decisão de expulsar os ilegais foi tomada durante uma reunião entre a polícia e funcionários da Comissão para os Refugiados afegãos. Em 2006, Islamabad havia anunciado que fecharia o maior acampamento de refugiados afegãos, Kacha Garhi, no último dia 30 de junho. O prazo foi prolongado por 15 dias. Outro campo, na província da Fronteira Noroeste e mais um na província de Balochistão serão fechados em agosto.
O vice-presidente da independente Comissão de Direitos Humanos do Paquistão, Kamran Arif, descreveu o processo de repatriação como extremamente “severo e desumano. Decidimos realizar uma missão para investigar. Não estamos satisfeitos com o tratamento dado aos refugiados”, disse à IPS. O acampamento de Kacha Garhi foi cercado por policiais e para o local foram levados tratores para demolir as casas de barro quando ficarem vazias. Arif, que é advogado de profissão, também apontou falhas no processo para registrar os refugiados.
Muitas famílias que solicitaram ao Acnur voltar ao seu país poderiam ficar “perdidas” interminavelmente em acampamentos de repatriação. Os que rejeitaram a oferta serão recolocados nas províncias de Chitral e Dir, perto da fronteira com o Afeganistão. “Os refugiados que não têm seu cartão de registro e permanecem ilegais serão repatriados ou enviados para novos acampamentos”, disse o Comissário para os Refugiados Afegãos, Nasir Azam Khan. Foram criadas 15 equipes para coletar informações sobre todos os afegãos no país, que serão entregues à polícia.
Haji Dost Mohammad, encarregado do acampamento de Kacha Garhi, não concorda com a decisão unilateral do governo. “Lá não tem trabalho nem eletricidade. Em Peshawar, os residentes nos campos podem, pelo menos, encontrar algum trabalho”, disse Garhi à IPS. Alguns refugiados, desesperados, optaram por alugar casas em Peshawar pagando preços exorbitantes. Encontramos uma casa em ruínas na cidade por US$ 33 ao mês. Em Kacha Garhi não pagávamos nada por nossa casa improvisada, onde vivemos por 15 anos”, disse Shahbaz, de 38 anos.
Shahbaz acrescentou que não tem dinheiro para voltar ao Afeganistão nem para ser recolocado em outro lugar que não seja Peshawar. “Se deixarmos a cidade, morreremos de fome, porque não encontraremos trabalho nas províncias de Dir e Chitral”, disse à IPS. O Acunur, que suspendeu as repatriações de refugiados por causa das fortes chuvas e inundações, reiniciou o processo no último dia 3. o comissário Khan afirmou que o governo está decidido a fechar o acampamento de Kacha Garhi na data prevista.
As autoridades paquistanesas defendem as repatriações e garantem que são voluntárias. Afirmam que Islamabad cuidou dos refugiados com cuidados médicos e facilidades de educação. O funcionário governamental Nasir Azan disse que mantiveram negociações com organizações não-governamentais para criar 50 escolas nos novos acampamentos de refugiados em Dir e Chtral. (IPS/Envolverde)

