Baquba, Iraque, 19/07/2007 – O maior necrotério da oriental província iraquiana de Diyala está com sua capacidade esgotada. Seus funcionários contaram que tiveram de cavar fossas comuns para colocar os corpos. Cada vez aparecem mais cadáveres de vítimas da violência diária nesta cidade, capital de Diyala, cerca de 50 quilômetros a nordeste de Bagdá. “O necrotério recebe, em média, quatro ou cinco corpos todos os dias”, disse à IPS Nima Jima’a, que trabalha nessa dependência.”Muitos outros são jogados em terrenos ou rios. Às vezes, acontece de seus próprios assassinos os enterrarem. A quantidade de mortos que recebemos é apenas uma pequena fração de todos os que existem”, acrescentou.
As ambulâncias, que voltaram a circular após várias semanas de proibição, começaram a recolher corpos caídos nos últimos combates. Mas, também encontraram crânios e outros ossos, provas de matanças ocorridas há muito tempo. O manejo dos restos é difícil. Como toda a cidade, o necrotério sofre contínuos cortes de energia elétrica. Há duas semanas pararam dois de seus refrigeradores. O mau cheiro devido à decomposição dos corpos afeta os transeuntes a cem metros de distância. Funcionários do local disseram à IPS que um comandante do exército dos Estados Unidos lhes ordenou há pouco que todos os corpos sejam enterrados em três dias.
“No domingo retiramos 30 cadáveres do refrigerador, colocamos um nome em cada um e os pusemos em sacos plásticos fornecidos por soldados norte-americanos. Pedimos às famílias que olhassem os corpos. Depois foram enterrados todos juntos”, contou Kareem al-Rubaee à IPS. Especula-se que agora será necessário fazer enterros coletivos a cada 15 ou 20 dias para manter intacta a capacidade do refrigerador, acrescentou. As famílias costumam ter dificuldades para identificar e recolher os corpos, segundo funcionários do necrotério, porque a maioria dos cadáveres nunca chega ao necrotério para serem contados ou identificados.
Muitas vítimas que morreram devido às incursões aéreas dos Estados Unidos ficaram sepultadas sob os escombros de suas casas durante vários dias, às vezes até por semanas, segundo vários vizinhos. A operação militar nesta cidade visava os líderes da rede terrorista Al Qaeda, mas especula-se que estes fugiram antes do início da ofensiva. Os moradores se sentem alvo das matanças de todas as facções iraquianas que lutam entre si. Organizações terroristas estrangeiras, que dizem seguir o modelo da Al Qaeda, seqüestram pessoas das quais não se tem mais notícia. Células da Al Qaeda matam suas vítimas e jogam seus corpos em lugares especialmente escolhidos, que chamam de “zona de execução”, como forma de intimidação.
Veículos policiais e ambulâncias recolhem os cadáveres desses locais e os levam para o necrotério. Baquba não estava preparada para essa quantidade de mortos, e só tem um pequeno depósito de cadáveres e recursos limitados para realizar os procedimentos necessários. “Quando chegam os corpos, fazemos pelo menos duas fotos de ângulos diferentes”, disse à IPS Mohammed Abid, do necrotério. “Em geral, chegam sem nenhuma identificação. É um problema para as famílias, para as quais as fotografias não bastam porque os rostos costumam estar deformados por torturas ou disparos”, acrescentou.
Os refrigeradores o necrotério estão cheios e os trabalhadores conhecem historias terríveis das tentativas para chegar aos corpos a fim de identificá-los. “A foto do meu irmão está no computador, mas não pudemos chegar até o corpo porque estava com outra família”, disse à IPS Naser Sattar, um professor de 52 anos. “Pensavam que era seu filho porque estava deformado. Me aproximei dessa família e recuperei meu irmão para enterrá-lo em seguida”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

