Finanças: Europeus mantém o monopólio da direção do FMI

Bruxelas, 13/07/2007 – Os ministros das Finanças da União Européia decidiram que o francês Dominique Strauss-Kahn deve ser o novo diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, apesar dos pedidos para que candidatos dos países pobres possam pretender esse cargo.

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Desde sua criação em 1945, o FMI está sob a direção de europeus, e sua instituição “irmã”, o Banco Mundial, sempre tem como presidente um norte-americano. Entre os 185 Estados-membros do FMI, os mais pobres superam de longe em número os europeus. Os críticos da instituição dizem que o processo para escolher seu diretor-gerente é anacrônico. Os pedidos para mudar o mecanismo, entretanto, foram ignorados pela UE na última terça-feira.

A maioria dos 27 ministros de Finanças dos países que integram a União Européia decidiram apoiar Strauss-Kahn para o cargo, que ficou vago com a surpreendente renúncia do espanhol Rodrigo de Rato, que no mês passado alegou motivos familiares para justificar seu afastamento, que acontecerá formalmente em outubro. O novo ministro das Finanças da Grã-Bretanha, Alastair Darling, havia afirmado que o posto deveria estar aberto a candidatos não-europeus. Entretanto, aceitou apoiar Strauss-Kahn, que descreveu como um candidato “crível”.

Strauss-Kahn ainda não disse publicamente se está interessado no cargo. Mas, se aceitar, acontecerá de quatro das principais instituições econômicas internacionais estarem dirigidas por franceses. Pascal Lamy dirige a Organização Mundial de Comércio, Jean-Claude Trichet encabeça o Banco Central Europeu, e Jean Lamierre é titular do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento. Na França, analistas estimam que o presidente Nicolás Sarkozy, de centro-direita, promoveu ativamente a candidatura de Strauss-Kahn a fim de afastá-lo da arena política interna.

Strauss-Kahn, ministro das Finanças da França entre 1997 e 1999, se preparava para assumir a liderança do Partido Socialista, a partir do qual poderia criar uma base para desafiar Sarkozy nas eleições presidenciais de 2012. O presidente francês, entretanto, insistiu que sua campanha levou em conta apenas o fato de considerar Strauss-Kahn a pessoa “mais qualificada para o cargo”, e acrescentou: “compartilhamos a mesma visão sobre o papel do FMI. Por que deveria privar a França de sua candidatura apenas por ser socialista?”.

Organizações de luta contra a pobreza reagiram com desencanto à decisão dos ministros da UE. Alex Wilks, da Rede Européia sobre a Dívida e o Desenvolvimento, disse que a negativa para garantir uma competição aberta para chegar ao cargo fará a credibilidade do FMI entrar em “uma espiral descendente”. Um “processo de seleção aberto não seria totalmente simbólico”, disse Wilks à IPS. “Não se trata da cor da pele do diretor-gerente ou da bandeira em seu passaporte. Trata-se de ter competência. Quem pode dizer que os europeus têm o melhor candidato e que não há ninguém melhor em outra parte?”, acrescentou.

Além disso, Wilks criticou a Grã-Bretanha por não assumir uma posição mais firme. Recordou que o governo britânico se comprometeu a promover a reforma do processo de seleção em um documento de trabalho redigido em 2006 no qual se propôs a “fazer com que a governabilidade funcione para os pobres’. Esse informe assinalou que a posição de máxima hierarquia, tanto no FMI quanto no Banco Mundial, deveria ser entregue com base nos méritos dos candidatos e não em razão de sua nacionalidade. Por sua vez, Peter Chowla, do Projeto Breton Woods, instituição que supervisiona as atividades do FMI, qualificou a decisão da UE como “uma oportunidade perdida” para reformar o mecanismo de designação do diretor-gerente.

Chowla reconheceu, entretanto, que um processo de seleção mais aberto não significaria necessariamente que o FMI exerceria uma influência mais positiva sobre os países pobres. A instituição foi criticada durante anos por promover políticas fiscais que limitavam os gastos dos governos em educação e saúde. “Tudo depende de quem ocupa o cargo”, disse à IPS. “Se for alguém que segue os postulados ortodoxos da Escola de Chicago e pensa que o Fundo deve continuar funcionando da mesma maneira, não haverá uma grande diferença”, ressaltou.

Chowla disse que “também seria possível contar com alguém que tenha um conhecimento critico dos mercados emergentes e países em desenvolvimento, que poderia realmente pensar na implementação de um melhor sistema de governabilidade econômica global”. O ativista disse que “uma das criticas ao FMI é que não é imparcial. Impõe sua vontade aos países pobres, mas, não aos ricos. Se o diretor-gerente fosse de um país em desenvolvimento poderia ajudar a fazer o Fundo agir com maior igualdade”.

Além disso, Chowla criticou os europeus por terem bloqueado durante os últimos dois anos as tentativas para reformar os mecanismos internos do FMI. As propostas apontavam para a concessão aos países pobres de uma participação maior na tomada de decisões. “O fracasso do Fundo no manejo das crises economias da Argentina, Ásia e Rússia fez com que perdesse credibilidade entre seus membros”, acrescentou. “Para recobrá-la, o FMI precisa de um líder visionário. Duvido que um europeu que esteve envolvido na política interna por tanto tempo seja a pessoa adequada para esse tipo de liderança”, afirmou Chowla.

Funcionários do FMI da América Latina e do Oriente Médio pressionam ativamente para reformar o mecanismo de seleção. O brasileiro Paulo Bautista disse que os governos europeus “tentam alcançar um rápido acordo entre eles para evitar dar explicações” sobre sua negativa em tornar mais aberta a seleção do diretor-gerente. Tanto Equador quanto Venezuela anunciaram este ano que têm a intenção de se retirar do Fundo. O FMI recebeu duras criticas por seu papel na crise econômica que estourou na Argentina no final de 2001. muitos a atribuíram às políticas fiscais rígidas que o FMI impôs a Buenos Aires.

A organização não-governamental ActionAid também questionou o Fundo por condicionar a ajuda a países africanos à adoção de políticas macroeconômicas restritivas. Estudos dessa ONG sobre os casos de Malawi, Moçambique e Serra Leoa concluíram que o FMI foi “parcialmente responsável” pela anacrônica falta de professores em nações empobrecidas. Ao impor um teto de gasto com salários no setor público, o fundo impede que os países africanos possam contratar um número suficiente de docentes qualificados, afirma o estudo. (IPS/Envolverde)

David Cronin

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