Terrorismo: O risco está no Paquistão, não no Iraque

Washington, 24/07/2007 – A última avaliação das agências de inteligência dos Estados Unidos sobre a ameaça da rede terrorista Al Qaeda renova as dúvidas sobre a invasão do Iraque em 2003. Além disso, chama a atenção para o dia-a-dia mais conflitivo no Paquistão. Uma versão não classificada de duas paginas da última Estimativa Nacional de Inteligência (NIE), elaborada em consenso pelas 16 agências do setor para ser entregue ao presidente George W. Bush, foi divulgada na capital norte-americana na terça-feira.

A análise indica que a Al Qaeda se recuperou após sua expulsão do Afeganistão em 2001, ao reconstituir sua organização central e alguns de seus campos de treinamento. Isto cria uma atmosfera de “ameaça intensificada” para os Estados Unidos, segundo a avaliação. De acordo com o estudo, o ressurgir do grupo foi possível, basicamente, devido aos “paraisos seguros” aos quais teve acesso em áreas tribais do oeste paquistanês. Outro motivo é sua associação com a Al Qaeda no Iraque, a qual ajudou a “energizar a comunidade sunita extremista, arrecadar fundos e recrutar e doutrinar” novos membros. Estas conclusões foram imediatamente acolhidas pelos críticos da política de Bush, especialmente os líderes do opositor Partido Democrata no Congresso.

Estes críticos argumentam há muito tempo que a invasão do Iraque não só desviou recursos e atenção do Afeganistão e Paquistão como, também, funcionou como ferramenta extraordinariamente efetiva de recrutamento para a Al Qaeda e outros grupos terroristas. “O Iraque é importante porque se converteu em uma causa célebre. A Al Qaeda nesse país e sua organização central exploram a imagem dos Estados Unidos como potência ocupante de terra muçulmana”, disse um especialista em Oriente Médio e analista aposentado da Agência Central de Inteligência (CIA), Paul Pillar, em uma análise publicada pelo jornal The Washington Post.

A NIE é a primeira avaliação sobre a ameaça potencial da Al Qaeda contra os Estados Unidos desde os ataques de 11 de setembro de 2001 que deixaram três mil mortos em Nova Yorque e Washington. O estudo reavivou um velho debate sobre a afirmação do governo a respeito de o Iraque constituir “a principal frente de batalha na guerra contra o terrorismo”, curiosamente, o próprio Bush baseou esta certeza em um comentário semelhante feito pelo líder dessa organização, Osama bin Laden. Especialistas em contra-terrorismo, particularmente nas agências de inteligência, questionam essa tese.

A última estimativa de inteligência apóia claramente esse cepticismo, ao enfatizar que os grupos da Al Qaeda presentes no Paquistão, junto com sua estendida rede de filiados e membros opeacionais, continuam sendo “a ameaça mais seria” para os Estados Unidos em seu próprio território. O governo Bush pressiona há muito tempo o presidente paquistanês, Pervez Musharraf, para que ataque bases da organização nas zonas tribais do país, na fronteira com o Afeganistão. O exército do Paquistão o fez, com certo grau de sucesso, entre final de 2001 e 2004, quando capturou ou matou importantes chefes da Al Qaeda, algumas vezes com ajuda da inteligência dos Estados Unidos e de seus mísseis Predator.

Entretanto, depois de uma série de enfrentamentos com milícias da organização islâmica Talibã, que controlou a maior parte do território afegão entre 1996 e 2001, as tropas paquistanesas se retiraram dessas áreas nos últimos 18 meses. Isso foi feito depois de o governo prometer a chefes tribais expulsar rebeldes estrangeiros e prevenir e infiltração de membros do Talibã a partir do Afeganistão. De fato, a retirada do exército deixou a zona sob controle dos talibãs paquistaneses, que não só proporcionaram à Al Qaeda um abrigo seguro para reconstruir sua capacidade operacional mas, também, começaram a exercer agressivamente sua influência sobre territórios vizinhos e o próprio Paquistão.

Na semana passada, o sangrento desenlace do prolongado sitio do exército à Mesquita Vermelha, em Islamabad, capital do Paquistão, deu lugar ao rompimento dos acordos de paz em Waziristao, e a uma série de ataques e atentados suicidas com bombas. Musharraf, incentivado por Washington para enfrentar os combatentes que controlavam a mesquita, respondeu com um novo deslocamento de tropas nas áreas tribais. “Alguma ação militar é necessária e provavelmente deverá ser tomada”, disse o subsecretário de Estado para o Centro e sul da Ásia, Richard Boucher.

Boucher também afirmou que Washington espera conceder quase a totalidade dos US$ 350 milhões pedidos por Musharraf para treinar, equipar e enviar forças paquistanesas para as áreas tribais. Os planos incluem a criação de um corpo de guarda da fronteira, que se somaria aos esforços para reafirmar o controle do governo central. Washington já comprometeu a entrega de US$ 750 milhões, em cinco anos, para promover o desenvolvimento das áreas tribais. A ajuda total, porém, representa menos do que os Estados Unidos gastam em quatro dias com seu esforço militar no Iraque. Boucher acrescentou que a decisão de Musharraf de atacar a mesquita “implicou ultrapassar uma linha. Já não há retorno”.

O presidente do Paquistão enfrenta um acrescente oposição interna por parte dos partidos políticos seculares. O governo Bush de fato tem esperança de que Musharraf e os militares levem a luta às áreas tribais para, dessa forma, causar o maior dano possível à estrutura da Al Qaeda. “Veremos o desbaratamento de grupos extremistas ligados à Al Qaeda e também outros de caráter local, que realizam ataques através da fronteira no Afeganistão”, afirmou na televisão outro ex-agente da CIA, Robert Grenier.

Entretanto, uma ação mais agressiva acarretaria sérios riscos para Musharraf que, segundo se soube, foi forçado a sair das regiões de fronteira por pressão dos comandantes militares. “Estão muito preocupados com a possibilidade de desatar uma guerra civil mais generalizada entre os pasthuns” paquistaneses, disse Anatol Lieven, especialista no sul da Ásia do centro de estudos Fundação Nova América. A etnia pasthun (patana) é majoritária no Afeganistão e na fronteira paquistanesa. Entre seus membros predomina o Islã sunita.

“A maioria dos pasthuns vive no Paquistão, não no Afeganistão, mas estão muito identificados com os que ficam do outro lado da fronteira. E este grupo também é o que mais homens fornece, de maneira desproporcional, ao exército paquistanês”, disse Lieven. Um especialista do Centro Nixon, de Washington, Aléxis Debat, concorda com essa preocupação. “Existe uma grande tensão entre os pashtuns e os punjáis”, de ascendência indo-ariana, afirmou. “Se os patshuns, os punjáis, estão felizes e se os dois grupos começarem a se matar entre si as conseqüências podem ser muito serias”, disse à IPS. “Vejo isso como uma ameaça, inclusive no curto prazo, de que o Paquistão simplesmente se desintegre”, acrescentou.

Outro problema, segundo Debat, é que o exército “carece da capacidade para combater os insurgentes nas áreas tribais. As poucas operações feitas não tiveram sucesso e, simplesmente, jogaram a toalha”. Se o exército do Paquistão é realmente incapaz de iniciar operações ofensivas, ou não deseja fazê-lo, pode aumentar a pressão nos Estados Unidos para que intervenham diretamente, além das operações encobertas de inteligência e sua hoje limitada cooperação com missões especiais. A maioria dos analistas se diz contra esse curso de ação. “Causará distúrbios no Paquistão e no mundo árabe e levará, com toda certeza, a um nível maior de insurgência contra as forças dos Estados Unidos”, alertou Seth Jones, especialista no sul da Ásia do centro de estudos RAND Institute. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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