América Latina: Lula, Chávez e o arco das alianças

Caracas, 10/08/2007 – Os eixos de alianças políticas, econômicas e de integração latino-americana se recompõem enquanto o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, viaja por México, América Central e Caribe, e seu colega da Venezuela, Hugo Chávez, visita Argentina, Uruguai, Equador e Bolívia. Ao mesmo tempo em que Chávez assinava acordos de segurança energética e oferecia o petróleo e gás que Argentina e Uruguai necessitarem, uma refinaria para o Equador e uma usina de gás para a Bolívia, Lula selava pactos de ajuda à produção de etanol ou biodiesel à base de cana-de-açúcar ou palma africana no México, Honduras, Nicarágua, Panamá e Jamaica.

Lula convidou o México a aderir ao Mercosul, formado em sua origem, além do Brasil, por Argentina, Paraguai, Uruguai e com a Venezuela em processo de adesao plena, na busca de “uma integração mais forte na América Latina”. Também defendeu um tratado de livre comércio entre a América Central e o Mercosul. Chávez, por sua vez, sustentou um discurso político antiimperialista em cada uma de suas escalas e acusou Washington de mover “suas fichas para impedir que a Venezuela ingresse no Mercosul”, em alusão à demora dos parlamentos brasileiro e paraguaio em ratificar essa decisão tomada pelos governos no final de 2005 em Montevidéu. “Mas fracassará”, garantiu com ênfase.

Enquanto isso, e com uma política internacional pragmática e moderada, o Presidente Lula não vacilou, na Nicarágua, por exemplo, em recordar a velha e comum militância na esquerda com seu anfitrião, Daniel Ortega, até arrancar deste uma declaração de boas-vindas à produção maciça de etanol, não à base de milho, mas de outros cultivos. A produção de etanol como combustível alternativo aos de origem fóssil é um assunto no qual coincide com o governo do presidente norte-americano, George W. Bush. O presidente de Cuba, Fidel Castro, e o próprio Chávez criticaram a ofensiva pró-etanol de Washington, embora favoreçam seu uso como aditivo à gasolina, e inclusive a projetos cubano-venezuelanos para produzir etanol de cana-de-açúcar.

Chávez “arma um cerco ao redor do Brasil, de maior presença e acordo com os demais vizinhos, enquanto Lula mostra que não está disposto a nenhum grau de dependência de seu vizinho produtor de petróleo”, disse à IPS Ítalo Luongo, professor de geopolítica petrolífera na Universidade Central da Venezuela. “O que ocorre é que a geopolítica continental mudou com a reunião em Camp David (residência de descanso dos presidentes dos Estados Unidos)” em março último entre Lula e Bush, disse o especialista em política Alberto Garrido, da Universidade de Los Andes. “Washington estendeu a mão à Brasília para estabelecer conjuntamente o império do etanol”, acrescentou à IPS.

Segundo Garrido, “A inteligente elite brasileira viu um futuro como potência global energética global, porque o etanol será para os Estados Unidos, mas do Brasil. Essa viagem rompeu o eixo Caracas-Brasília-Buenos Aires e por isso vemos que atravessou nada menos que o gigante brasileiro no projetado gasoduto do sul”, acrescentou. Chávez acertou, com os presidentes Néstor Kirchner, da Argentina, e Tabaré Váquez, do Uruguai, a construção de unidades de regasificaçao para gás liquefeito que a Venezuela enviaria ao Rio da Prata nos próximos anos, quando explorar suas jazidas no nordeste, mas já em navios e não através do supergasoduto.

Essa gigantesca tubulação de oito mil quilômetros quadrados, que custaria mais de US$ 20 bilhões e teria um impacto ambiental ainda não calculado, foi explicada por Chávez nesta viagem apenas como uma possibilidade, depois de ter dito no final de julho que o projeto “esfriou”, após receber “ataques” de seus sócios, os quais não especificou. “Quem está entre Venezuela e Rio da Prata?”, perguntou Garrido. “Está o Brasil”, respondeu, “com Lula fazendo papel de amortecedor entre a real politik brasileira e a petro-geopolítica, o projeto de Chávez”, acrescentou evocando a dilação do Congresso brasileiro em aprovar a adesão plena da Venezuela ao Mercosul.

“Pela primeira vez diante do sempre preponderante Brasil apareceu na região uma contra-estrela, na figura de Chávez, mas Brasília não vai subordinar seus interesses nem renunciar à sua aspiração de igualar-se às potências globais e, por exemplo, ocupar um lugar permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas”, disse Luongo. Analistas como Michael Shifter, da organização Diálogo Interamericano, baseada em Washington, também afirma que entre Chávez e Lula “existe um forte distanciamento, pois um não quer se subordinar ao outro”, embora os presidentes quando se referem ao tema afirmam que “nada nem ninguém nos distanciará”.

O divisor de águas, segundo Garrido, está na Bolívia, “o pomo da discórdia nesta geopolítica da energia depois que no ano passado a PDVSA (Petróleos de Venezuela) irrompeu como investidora, deslocando a Petrobras”, disse Garrido. A viagem de Chávez terminará no departamento boliviano de Tarija, onde assinará com o mandatário anfitrião, Evo Morales, e com Kirchner convênios para construir uma unidade para separar os líquidos do gás natural que a Bolívia exporta e outros acordos de “segurança energética”.

No entanto, o Presidente Lula ganhou no desenvolvimento de agro-combustíveis a países como Nicarágua e Jamaica, um dos líderes da Comunidade do Caribe de língua inglesa, que inclusive com capital venezuelano construirão uma refinaria, de petróleo no caso nicaragüense, ou ampliarão a que já têm, no caso jamaicano. Cada um dos líderes parece não ter atingido apenas os flancos, mas chegado inclusive à retaguarda do vizinho. (IPS/Envolverde)

Humberto Márquez

Humberto Márquez fue corresponsal de IPS en Venezuela entre 1994 y 1996, y retomó esa labor en 2002. Fue corresponsal de Agence France Presse para Venezuela y el Caribe entre 1977 y 1992, y redactor de la sección internacional del diario El Nacional de Caracas entre 1997 y 2002. Periodista venezolano, graduado en Comunicación Social (1982) por la Universidad Central de Venezuela, durante más de 30 años ha cubierto y descrito el acontecer político y económico de Venezuela, su sociedad y su condición de encrucijada en procesos de integración y cambio en América Latina y el Caribe.

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