Edição nº 16 – Os Objetivos do Milênio

Energia: Biocombustível, uma janela de oportunidades
Abid Aslam

Washington, (IPS) – Os pobres das áreas rurais se beneficiarão de um auge na extração de biocombustíveis de suas colheitas, apesar de isso poder desatar um encarecimento dos alimentos e o recrudescimento da fome, afirmam especialistas.

Para que os pobres tenham uma parte dos ganhos da chamada “revolução do biocombustível”, deverão ser mudadas as políticas e práticas comerciais e agrícolas, acrescentam. O preço de muitos produtos agrícolas básicos esteve em queda livre desde os anos 70 até os 90, com conseqüências devastadoras para países inteiros. As cotações-chave se recuperaram nos últimos anos graças, em grande parte, à indústria do biocombustível.

“O crescente uso desses fluidos reverteu décadas de queda dos preços agrícolas”, disse o presidente do centro de estudos ambientalistas Worldwatch Institute, Christopher Flavin. “Os agricultores de algumas das nações mais pobres foram dizimados pelos subsídios dos Estados Unidos e da União Européia aos cultivos de milho, algodão e açúcar. O encarecimento atual poderia permitir-lhes vender suas colheitas a um preço decente”, acrescentou Flavin. Além disso, o especialista afirma que os países que desenvolverem indústrias nacionais de biocombustíveis poderão comprá-lo de suas próprias empresas em lugar de gastar grandes somas em divisas para importar petróleo, combustível cujo preço aumentou sete vezes desde 1999.
Infância:Teatro ajuda a enfrentar conseqüências da violência
Suvendrini Kakuchi

Japão, (IPS) – O teatro pode ajudar meninos e meninas a enfrentar as conseqüências da violência sofrida em ambientes de conflito, afirmam diretores, especialistas e ativistas reunidos nesta cidade japonesa.

Vários especialistas que trabalham em zonas de conflito se reuniram em Okinawa por ocasião da Kijimuna Festa, festival internacional de teatro de duas semanas, para compartilhar experiências sobre assistência a vítimas de abuso infantil. Desde especialistas palestinos até psicólogos que tratam casos de abuso infantil no Japão concordaram que a arte, em geral, e o teatro, em particular, aliviam o sofrimento das crianças.

“Ao assistirem obras ou atuarem nelas e narrar histórias, as crianças revivem a tragédia sofrida”, disse Marina Barham, responsável da companhia teatral palestina Alharah. “O teatro lhes proporciona um contexto onde imaginar uma solução para seus problemas e a oportunidade de enfrentar e aliviar seu trauma”. Esta companhia de teatro de 12 integrantes trabalha com pessoas que vivem condições de opressão. As crianças sofrem a violência diária por causa do conflito com Israel, da pobreza e do escasso desenvolvimento. Okinawa, onde aconteceu a Kijimuna Festa, realizada desde 2003, oferece um ambiente propício para essa mensagem de paz.
Brasil:Polêmico projeto de esterilização feminina
Fabiana Frayssinet

Rio de Janeiro, (IPS) – Um projeto de lei que propõe reduzir de 25 para 18 anos a idade mínima para as mulheres poderem optar pela esterilização nos hospitais públicos do Brasil enfrenta uma férrea oposição do governo.

Para o senador e bispo de Igreja Universal do Reino de Deus, Marcelo Crivella (do Partido Republicano Brasileiro), autor da iniciativa em análise no Senado, a lei ajudaria a reduzir a violência porque “não nasceriam crianças expostas à fome e ao abandono”, causas que em sua opinião estão vinculadas à criminalidade.

A lei 9.263, que regulamenta o planejamento familiar, estabelece em seu artigo 10 que somente é permitida a esterilização voluntária de homens e mulheres maiores de 25 anos e com pelo menos dois filhos vivos. O Ministério da Saúde é contrário à proposta e oferece várias opções de planejamento familiar na rede pública de saúde. Entre elas a esterilização feminina por meio da ligadura das trompas de Falópio, que interrompe a passagem dos óvulos dos ovários para o útero, evitando a fecundação. Em declarações à Agência Brasil, o ministro da Saúde, José Gomes, disse ser “radicalmente contra” a redução da idade para a esterilização voluntária “porque isso não é planejamento familiar, mas controle de natalidade”, uma fase que considera superada no País, que tem mais de 188 milhões de habitantes.

Água: Entre o desperdício e a escassez
Thalif Deen

Estocolmo, (IPS) – O mundo está à beira de “uma nova era de escassez de água, a mais seria da história”. Essa advertência foi feita por especialistas que participam da 17ª Semana Mundial da Água na capital da Suécia.

A disponibilidade de água está em perigo por ameaças com a mudança climática, o aumento da população global e o repentino crescimento do sedento setor bioenergético. O diretor-executivo do Instituto Internacional da Água, com sede em Estocolmo, Anders Berntell, alertou que 1,4 bilhão de pessoas vivem em regiões com escassez real de água e outros 1,1 bilhão em áreas onde ela é consumida em excesso.

“Estes números aumentarão no futuro, devido ao crescimento demográfico, à intensificação da agricultura e à mudança climática”, afirmou Berntell perante cerca de dois mil profissionais, técnicos, cientistas e políticos ligados à água. A conferência anual, que acontece esta semana, é considerada a maior reunião mundial de especialistas na matéria, entre eles membros de mais de 150 instituições. “Não estamos preparados para enfrentar as implicações que isto tem para nosso planeta. Há um componente de seguranças que ainda não é plenamente compreendido ou abordado no âmbito internacional. E não estou falando de escassez hídrica, mas da segurança política”, acrescentou o especialista.

Água: Chave para a estabilidade social
Thalif Deen

Estocolmo, (IPS) – Uma alta funcionária da Organização das Nações Unidas conhece pessoalmente o que é viver sem acesso à água potável, já que realiza freqüentes viagens à sua Tanzânia natal.

A subsecretária-geral da ONU e diretora-executiva do Programa de Assentamentos Humanos das Nações Unidas (ONU-Habitat), Anna Tibaijuka, disse que sempre que volta para sua casa em Dar-es-Salaa de férias tem grandes dificuldades para conseguir água limpa. “Não há água no bairro”, disse, ao assinalar os problemas enfrentados por muitas cidades africanas de rápido crescimento, bem como outras restantes do Sul em desenvolvimento.

Tibaijuka contou à IPS que precisa comprar água engarrafada cada vez que volta a Dar-es-Salaam, uma típica cidade com problemas de acesso a esse recurso e que cresce ao ritmo de 4% ao ano. Sua população duplica a cada 15 anos. A funcionária disse que o explosivo crescimento dos centros urbanos nos últimos 30 anos está reduzindo os outrora plenos recursos hídricos. “Várias cidades metropolitanas estão enterradas em problemas”, disse a subsecretária-geral da ONU, citando o caso do México, que afundou 11 metros nos últimos 70 anos. A causa? O uso excessivo dos recursos hídricos subterrâneos.

A ONU informou que mais de um bilhão de pessoas não têm acesso à água potável em todo o mundo, enquanto mais de dois bilhões carecem de saneamento adequado. Tibaijuka ressaltou que são os grupos mais pobres que sofrem particularmente os problemas de saúde e ambientais derivados desta situação. “São os que têm menos possibilidade de pagar uma casa de boa qualidade em bairros onde há água potável, saneamento adequado, coleta de lixo, ruas pavimentadas e bueiros”, acrescentou.

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Correspondentes da IPS

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