Bolívia: A reforma agrária de Morales

La Paz, 06/08/2007 – A era do latifúndio parece ficar para ficar para trás na Bolívia, onde o presidente Evo Morales proclamou a revolução agrária em um ato por ocasião do 54º aniversário da promulgação da primeira lei que entregou terras aos camponeses. Morales anunciou a segunda era da reforma agrária com um plano destinado a sanear, reverter, expropriar e distribuir terras que atualmente estão em poder de empresários e latifundiários das zonas tropicais dos departamentos de Santa Cruz, Beni e Pando, no leste e nordeste do país. Em uma cerimônia na localidade de Ucureña, na quinta-feira, do departamento de Cochabamba, cerca de 500 quilômetros a sudeste de La Paz, Morales apresentou a regulamentação da Lei de Recondução Agrária com um discurso reivindicando a luta permanente dos povos indígenas pela terra e na defesa dos recursos naturais.

Morales anunciou um programa que chamou de “revolucionário” por privilegiar a redistribuição da terra, a mecanização das atividades agrícolas dos pequenos produtores, o fortalecimento do Tratado Comercial dos Povos, assinado com Cuba e Venezuela, além de priorizar a produção agrícola sob normas de conservação ambiental. Os povos indígenas são os mais revolucionários pelas transformações realizadas em matéria de terra, defesa de territórios e de direitos individuais e coletivos na América Latina, afirmou o mandatário, ele próprio um indígena.

Todo dia 2 de agosto, na Bolívia, é comemorado o Dia do Índio, pela promulgação da primeira reforma agrária no ano de 1953, mas na semana passada Morales pediu aos seus ministros que mudassem a denominação para “dia da revolução agrária” e anunciou que a partir de agora cantará o hino nacional com o punho esquerdo erguido e a mão direita na altura do coração. Em uma defesa da norma que regula a posse da terra, o presidente acusou os empresários da região oriental de promoverem um modelo de desenvolvimento sustentado no acúmulo de dinheiro sem respeitar o meio ambiente e os responsabilizou por incentivar “matanças e massacres” quando os povos se rebelam.

O porta-voz do governo, Alex Contreras, assegurou que a concentração de terras chegou a um grau questionável e citou o caso de 14 influentes famílias às quais atribui a propriedade de três milhões de hectares. As demandas indígenas por terras para a atividade agrícola enfrentam resistência por parte dos grupos de poder econômico de Santa Cruz, Beni e Pando, um dos assuntos que geram maiores debates na Assembléia Constituinte que delibera na cidade de Sucre. No altiplano e nos vales algumas famílias vivem em espaços menores que um hectare, enquanto no oriente uma vaca pasta em cinco hectares. “Creio que é preciso ser vaca para ter terras”, disse ironicamente Morales.

Em La Paz, o presidente da Câmara de Indústria e Comércio de Santa Cruz, Gabriel Dabdoub, disse à IPS que o novo regulamento gera incerteza e desestimula novos investimentos privados. Dabdoub defendeu a continuação de negociações entre o governo e a Câmara Agropecuária do Oriente (CAO) após a ruptura do diálogo e a ameaça dos produtores de elevar os preços dos alimentos básicos em até 40% e causar desabastecimento, como efeito da aplicação do regulamento de terras. “Não sabemos aproveitar as oportunidades de produção”. Há empresários que desejam investir na Bolívia, mas a falta de condições para a capital privado impede a concretização de iniciativas, afirmou Dabdoub.

O vice-ministro de Terras, Alejandro Almaraz, negou a possibilidade de uma alta de preços e escassez de alimentos, e defendeu o regulamento por imprimir transparência, correção e rapidez no processo de saneamento de terras. O controle social estará presente nesse processo mediante representantes de organizações sindicais e indígenas que evitarão a transformação de um trâmite em um ato de corrupção, explicou. Durante 10 anos, os governos anteriores titularam terras à razão de US$ 10 por hectare, mas o atual governo reduziu o custo dos trâmites de titulação para um dólar por hectare, disse Morales.

Esses trâmites demorarão apenas seis meses, e os conflitos de limites e destinação de áreas poderão ser resolvidos pelas comunidades indígenas e o governo validará os acordos, disse Almaraz. Até 2006, o governo estimava que podia recuperar cerca de 14 milhões de hectares para distribuí-los entre famílias de camponeses sem terra ou com “terra insuficiente”. A superfície com potencial agrícola chega a 107,2 milhões de hectares, em uma área total de 109,9 milhões de hectares que inclui 2,37% de manchas urbanas, equivalentes a 2,5 milhões de hectares.

Ao final do processo de recuperação de terras, será aplicado um plano de distribuição que dará prioridade aos habitantes do lugar, compreenderá a criação de assentamentos humanos e beneficiará as comunidades, disse à IPS o assessor jurídico do Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA), Howard Arroyo. As novas destinações compreendem organizações coletivas e eliminam a entrega de grandes extensões de terras agrícolas para poucas pessoas. O regulamento declara o final do latifúndio, afirmou Arroyo. Segundo o jurista, a história da distribuição de terras inclui alguns casos, com a entrega gratuita, até 400 mil hectares, a uma pessoa com fins alheios à produção agrícola e muitas vezes voltados à sua comercialização.

A regulamentação incorpora o caráter social do direito agrário que outorga os instrumentos jurídicos para administrar justiça em matéria de posse de terras, com a finalidade de sanear as propriedades ou recuperá-las para sua posterior redistribuição. A legislação anterior apenas tinha por objetivo o aperfeiçoamento do direito proprietário, e não concentrava sua atenção em verificar a função econômica e social das grandes extensões de prédios com potencial agrícola, explicou Arroyo.

Um Conselho Nacional Agrário integrado pelo governo e autoridades do setor acompanhará o cumprimento da lei, enquanto os conselhos departamentais terão participação de organizações camponesas, indígenas, de mulheres, produtores agropecuários e pecuaristas que, em conjunto, formarão o controle social. Cada funcionário público encarregado do processo de saneamento terá a obrigação de entregar a informação solicitada pelos representantes do controle social para verificar o correto trâmite. A função econômica e social das terras estará sujeita a princípios de interesse coletivo e se submeterá ao domínio originário da nação, afirmou o assessor jurídico do INRA. (IPS/Envolverde)

Franz Chávez

Franz Chávez es corresponsal de IPS en Bolivia desde noviembre de 2003. En busca de una cobertura adecuada de la compleja realidad boliviana, en especial para una audiencia internacional, Chávez se focaliza en esos temas en general ignorados por los grandes medios, poniendo esfuerzo en el contexto de uno de los países más pobres de América Latina. Nacido en La Paz, Franz trabajó para Radio Cristal entre 1985 y 1990, y luego formó parte del equipo editorial de los canales de televisión 2, 4, 7 y 11. Fue uno de los fundadores de los diarios La Razón, en el que se desempeñó entre 1990 y 1995, La Prensa (1998-201), y La Prensa-Oruro. Estudió sociología y comunicación en la Universidad Mayor de San Andrés en La Paz.

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