EUA: A reconstrução dos corredores da biodiversidade

Nova York, 01/08/2007 – O maior dos carnívoros e o menor dos roedores costumam perambular até se cansar pela América do Norte. Mas o desmatamento e a descontrolada expansão urbana fragmentaram o subcontinente em ilhas de bio-homogeneidade. Hoje, estradas de oito faixas e cidades dispersas enjaularam a natureza que antes era livre, destruindo a unidade ecológica. Inadvertidamente, caminhoneiros e planejadores urbanos se converteram em sicários, incrementando a extinção de espécies. Quatro ambiciosas iniciativas a cargo de uma coalizão conservacionista têm o objetivo de reverter estas tendências desestabilizadoras, que impactaram a paisagem norte-americana por várias gerações.

O Wildlands Project (Projeto Zonas Silvestres) pretende reconectar, restaurar e “renaturalizar” o continente, incentivando a criação de quatro corredores de conservação que liguem terras fiscais e privadas ao longo das montanhas Rochosas, dos oceanos Pacifico e Atlântico e através do Canadá, desde o Alasca até o mar de Labrador. “Se não religarmos estas áreas protegidas antes ligadas, não seremos capazes de diminuir a extinção”, disse, entrevistado para esta matéria, Kim Vacariu, diretor ocidental do Wildlands Project. Estes “corredores biológicos continentais” restabelecerão a continuidade de conservação sem interrupções entre os parques nacionais e outras áreas protegidas em um nível cujo único precedente é o estado original do continente.

A primeira iniciativa, cujo lançamento está previsto para o final de 2008, ainda não obteve um financiamento adequado. Trata-se do corredor Coluna do Continente, que se estende ao longo de 6.400 quilômetros, pelas Rochosas, desde o Alasca setentrional e através do norte do México. “As coisas estavam em seu lugar para fazer a Coluna do Continente primeiro, pois já se havia feito muito para concretizá-la”, disse a este cronista Dave Foreman, co-fundador do Wildlands Project e diretor-executivo do The Rewilding Institute (Institudo de Renaturalização) a respeito dos vínculos já estabelecidos entre vários terrenos protegidos na área.

Foreman desenhou o conceito destes quatro mega-enlaces no verso de um envelope há 15 anos, sem dar-se conta, na época, de que se esboço se tornaria a pedra angular dos esforços de conservação e recuperação da natureza na América do Norte e em todo o mundo. Michael Soulé, o outro co-fundador principal do Wildlands Project, adotou a idéia dos corredores continentais da Austrália. Soulé co-presidente o WildCountry Science Council (Conselho Cientifico País Silvestre), filial australiana do WildLands Project que trabalha com organizações conservacionistas e governos para estabelecer corredores.

“Os parques nacionais isolados, sem considerar sua área, não protegerão a natureza a longo prazo, não apenas pela mudança climática mas também pelos efeitos de isolamento que gradualmente levarão à degradação”, disse Soulé ao ser entrevistado pela IPS. “Para que as espécies sobrevivam deve haver possibilidade de plantas e animais se trasladarem a longas distancias”, acrescentou. Para facilitar a livre circulação ao longo da Coluna do Continente, é necessário vencer os principais obstáculos, mas notoriamente as auto-estradas norte-americanas.

Uma solução possível que os defensores da iniciativa do corredor continental exploram é a construção de maciças passagens elevadas de natureza, com pelo menos 40 metros de largura, que sirvam como pontes seguras para animais e vegetação. A Administração Federal de Auto-Estradas dos Estados Unidos (FHWA) financiou várias dessas pontes, conhecidas popularmente como “passagem de bichos”, em todo o país para proteger a natureza.

“Quando essas passagens financiadas pela FHWA são projetadas adequadamente e protegem o acesso de vida silvestre aos dois lados da rodovia, são altamente efetivos na redução de mortes, conectando habitat e aumentando a segurança dos motoristas”, explicou à IPS Gloria Shepherd, alta funcionaria desta agência governamental. Embora o fato de flora e fauna passarem por cima da Coluna do Continente fosse ideal do ponto de vista conservacionista, o preço calculado entre US$ 5 milhões e US$ 10 milhões para cada uma limita a construção em algumas poucas.

“Alguém tem de estar seguro de que vão funcionar, pois são uma espécie de último recurso”, disse Kurt Menke, co-presidente da Tijeras Canyon Safe Passage Coalition. Sua organização de voluntários no Novo México retirou escombros de passagens inferiores, como aquedutos e leitos de rios, em lugar de criar novas pontes para dar aos animais liberdade de passarem sob as auto-pistas de maneira segura. “Este assunto da conexão é vital para manter a biodiversidade, especialmente com a mudança climática”, disse Menke.

Um desejo de proteger a natureza dos florescentes impactos da mudança climática foi uma força condutora por trás da iniciativa dos corredores continentais desde seu início, quando foi criado o Wildlands Project, em 1991. “Embora estejamos há anos falando sobre a mudança climática e como as espécies precisariam de capacidade de resposta diante de seus efeitos, o atual fervor nacional a respeito nos ajuda a descrever o tipo de trabalho que estamos fazendo. Estes corredores poderiam ser vistos como rotas para que os animais evitem a mudança climática”, disse Vacariu.

Soulé advertiu que a excessiva ênfase na questão, na realidade, poderia voltar-se contra os esforços de conservação. “Há um perigo real em cada um que sobe no carro climático e se esquece da destruição e exploração do habitat. A menos que continuemos trabalhando duramente nestes e em outros problemas, vamos perder natureza de toda maneira”, afirmou. O apoio à iniciativa da Coluna do Continente ficou mais forte nos últimos anos, na medida em que a idéia de megavínculos se torna mais amplamente aceita em círculos dedicados à conservação. Mas, ainda enfrenta uma oposição significativa.

“Houve um apoio surpreendente. Também é realmente interessante o fato de alguns o virem como um tipo de mal que se apodera dos Estados Unidos”, disse Foreman. “O problema internacional-chave é a idiota muralha fronteiriça (proposta pelos Estados Unidos e pelo México), e digo isso como ativista pela estabilidade da população”, acrescentou. No contexto de um projeto de lei assinado pelo presidente George W. Bush em 2006, está prevista a instalação de 1.126 quilômetros de barreira em 3.380 quilômetros de fronteira que separam Estados Unidos do México, para dissuadir os mexicanos de migrarem para o Norte.

Muitos conservacionistas contrários à imigração ilegal ainda defendem fronteiras abertas que promovam a biodiversidade, o que permitira aos jaguares (os grandes carnívores mais comuns de se ver perto desta fronteira) a liberdade de circular internacionalmente. Continua sendo incerto se os governo slocais e nacionais apoiarão este grau de liberdade internacional para a vida silvestre. Vacariu disse que, como o Wildlands Project ainda está em processo de planejamento estratégico, a maioria das entidades governamentais sabem pouco e nada sobre a proposta. “Não queremos falar com sócios futuros até termos tudo organizado”, acrescentou.

Junto com as iniciativas que atualmente são desenvolvidas na América do Norte e na Austrália, notáveis esforços de vínculos de conservação estão em curso na África e Europa. A idéia das ligações de natureza “se impõe porque os ecologistas se deram conta de que não podem proteger a natureza em ilhas”, disse Soulé.

A internacional Peace Parks Foundation (Fundação Parques da Paz), criada em Botswana, Moçambique e África do Sul, tentará minimizar os efeitos desestabilizadores do meio ambiente associados com a maioria das fronteiras políticas criando reservas transfronteiriças. Na Romênia são desenvolvidos esforços de conexão para proteger os montes Cárpatos. “O tempo é primordial para começar a trabalhar no lugar e avançar para a proteção destas conexões-chave de vida silvestre. Perdemos espécies todos os dias. Esta é realmente uma situação urgente”, ressaltou Vacariu. (IPS/Envolverde)

(*) Este artigo é parte de uma série sobre desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter Press Service) e IFEJ (siglas em inglês de Federação Internacional de Jornalistas Ambientais).

Brian D. Pellot

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