Faluja, 30/08/2007 – Faluja está tranqüila nos últimos dias. As forças norte-americanas e iraquianas atribuem como uma vitória o fim dos combates que causaram a destruição da cidade em 2004. Mas seus moradores acreditam que esta quietude é, na realidade, uma agonia. Faluja, 60 quilômetros a oeste de Bagdá, abrigou um dos maiores focos de resistência contra a ocupação dos Estados Unidos e seus colaboradores iraquianos. A cidade foi sitiada por essas forças em duas ocasiões, abril e novembro de 2004. Três quartos das edificações foram destruídos. As mortes foram em massa. Desde então, a reconstrução tem sido mínima.
Agora, a cidade não sofre assédios nem são registrados em sua área urbana atos de resistência. “Estamos felizes pela paz e tranqüilidade que reina depois da morte de milhares de nossos vizinhos”, disse à IPS um policial local que pediu para não ter o nome revelado. “Agora podemos patrulhar as ruas sem medo e prender qualquer suspeito de ser terrorista”, acrescentou. Isso é verdade, segundo moradores de Faluja. Centenas de suspeitos de pertencer à resistência encontram-se detidos na delegacia local. Muitos outros freqüentemente aparecem assassinados nas ruas. Segundo a polícia, trata-se de “cadáveres sem identificação”. Testemunhas e familiares dos mortos garantem que as vítimas tinham sido detidas antes pelas forças de segurança.
“Este comportamento fascista demonstra a brutalidade dos norte-americanos e do autodenominado governo iraquiano”, disse à IPS um ex-legislador de Faluja que se identificou como Mahmood. “Foram executados sem julgamento. Esta brutalidade era desconhecida na cidade antes da ocupação”. Jornalistas que trabalham dentro da cidade também dizem estar tranqüilos. Porém, alguns foram detidos por vários dias. Um deles, visivelmente nervoso, contou à IPS que um major da polícia o advertiu de que a liberdade de imprensa é objeto de abuso por parte dos meios de comunicação e que as autoridades de Faluja não admitirão mais isso. “As notícias que vocês transmitem ao mundo serão as que nós daremos, não as que vocês colhem nas ruas”, alertou o oficial, segundo o jornalista.
Enquanto isso, aumentam as restrições para a população. As autoridades dos Estados Unidos e do Iraque, por exemplo, proibiram em maio o tráfego de veículos particulares. “Naturalmente que a cidade está tranqüila”, disse à IPS o professor Rahemm Othman, que dá aula no ensino médio. “Se proíbem até a circulação de automóveis. Eles nos querem quietos e silenciosos, como os mortos. Nos matam lentamente, e o mundo parece estar feliz com isso”, acrescentou. Os preços subiram devido às restrições ao transporte. “Não podemos comprar nada”, disse à IPS Um Muhammad, mãe de quatro filhos cujo marido foi preso há quatro meses. “Não tenho renda. Aqueles que antes nos ajudavam já não podem continuar ajudando. Estamos ficando pobres porque não podemos sair para trabalhar”, acrescentou Muhammad.
Os serviços de saúde também se ressentem da situação. Médicos do Hospital Geral de Faluja contaram à IPS que o governo central não fornece os equipamentos básicos nem os remédios de uso diário. ‘Os funcionários do Ministério da Saúde dizem que, como somos terroristas, não merecemos sua ajuda”, afirmou um medico. “Como se eles tivessem dinheiro ou como se dependesse deles nos dar o que precisamos”, acrescentou. “Dizer que Faluja está tranqüila é verdade, e isso pode ser visto nas ruas. A cidade está praticamente morta, e os mortos estão tranqüilos”, disse o xeque Salim, do Conselho de Acadêmicos Islâmicos da Faluja. Um após outro, os moradores da cidade se referem à paz da cidade como a paz de um cemitério.
As ruas estão vazias, com exceção de pedestres ocasionais que se dirigem a um centro médico ou a algum dos poucos mercados ainda abertos. A maior parte do comércio está fechada. Os demais abrem por umas poucas horas apenas. O desemprego na cidade chega a mais de 80%, segundo os moradores. A maioria dos que trabalham o fazem em cargos do governo. A enorme zona industrial está fechada, sob custódia de unidades dos Estados Unidos e do exército iraquiano. “Depois de sacrificarem milhares de nossos seres amados, os norte-americanos e seu séqüito querem matar os que restaram vivos”, disse uma mulher de 50 anos no campo de futebol transformado em cemitério depois de abril de 2004, quando, de acordo com diversos cálculos, morreram mais de 700 moradores.
O chefe militar da ocupação norte-americana, general David Petraeus, logo recomendará a retirada de tropas de várias zonas iraquianas onde acredita que a segurança melhorou, incluindo Faluja. Porém, a resistência não acabou. Cinco soldados dos Estados Unidos morreram quando o helicóptero em que estavam foi abatido no último dia 14, perto da base aérea de Al-Taqaddum, na periferia da cidade. Dos 20 soldados norte-americanos assassinados na província de Al-Anbar, vários caíram na área de Faluja. Desde a invasão morreram 1.257 soldados em Al-Anbar, mais do que em qualquer outra província, segundo o próprio Departamento de Defesa norte-americano. (IPS/Envolverde)

