Clima: Agenda da ONU exclui perspectiva de gênero

Nações Unidas, 03/08/2007 – A Organização das Nações Unidas se converteu nesta semana em alvo das críticas de ativistas pelos direitos das mulheres, que questionaram sua forma de abordar a mudança climática. A ONU organizou um debate de dois dias sobre o assunto, no qual se passaram em revista problemas como desertificação, fontes de energia renováveis, biocombustíveis e desenvolvimento sustentável. Porém, essa ampla agenda não incluiu a perspectiva de gênero, disse à IPS June Zeitlin, diretora-executiva da Organização da Mulher para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, com sede em Nova York. “As mulheres e as crianças têm 14 vezes mais possibilidades de morrer durante um desastre do que os homens”, acrescentou.

No tsunami que açoitou o oceano Índico em dezembro de 2004, entre 70% e 80% das vítimas fatais foram mulheres. Em 1991, morreram 1450 mil pessoas em Bangaldesh devido a um ciclone: 90% foram mulheres. “O mesmo ocorre nos países industrializados. Mais mulheres do que homens perderam a vida durante a onda de calor na Europa em 2003”, disse Zeitlin durante o debate esta semana, preparatório para a primeira sessão temática na história da Assembléia Geral da ONU, dedicada exclusivamente a discutir a mudança climática. Zeitlin disse que depois do furacão Katrina nos Estados Unidos, em agosto de 2005, as mulheres afro-americanas tiveram de enfrentar os maiores obstáculos para sobreviver. Além disso, elas constituíam o segmento de população mais pobre dos Estados do sul afetados: Alabama, Louisiana e Mississippi.

De acordo com Zeitlin, as pessoas pobres do mundo são, em sua maioria, mulheres, especialmente nas áreas rurais e majoritariamente responsáveis por assegurar a provisão de comida, água e energia para cozinhar e obter calefação. “Estas estatísticas nos obrigam a perguntarmos por que ocorre isto e o que podemos aprender para implementar soluções mais efetivas em resposta à mudança climática”, acrescentou. Zeitlin disse à IPS que ela foi a única no painel de discussão que apresentou uma perspectiva de gênero. Mais de 120 países-membros participaram na quarta-feira da sessão da Assembléia Geral dedicada à mudança climática, um tema que segundo o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, deve ser abordado “frontalmente”.

“Estou convencido de que este desafio, e o que fizermos a respeito, definirá, a nós e a nossa era e, em última instância, o nosso legado”, afirmou Ban. O secretário-geral disse, ainda que “não podemos continuar com as práticas habituais. Chegou o momento para uma ação decisiva em escala global”. Ao falar em representação das 130 nações que integram o Grupo dos 77 países em desenvolvimento, o ministro de Meio Ambiente do Paquistão, Mikhdoom Faisal Saleh Hayat, disse que a mudança climática apresenta sérios riscos e desafios, especialmente para as regiões mais pobres.

“A elevação do nível do mar, o aumento da freqüência e intensidade de furacões, ciclones e inundações, bem como o derretimento dos gelos, as secas e a desertificação, ameaçam o desenvolvimento sustentável, a forma de se ganhar a vida e até a própria existência dos países em desenvolvimento”, afirmou Hayat. O risco é muito maior para algumas nações africanas, os 50 países menos desenvolvidos, os Estados mediterrâneos e os mais pobres localizados em áreas propensas a sofrer desastres, acrescentou. Os países industrializados devem fornecer fundos adicionais para ajudar as nações em desenvolvimento em seus esforços para se adaptarem à mudança climática e aplicar medidas em resposta a este problema, disse Hayat, que também reclamou transferências de tecnologia.

Porém, o mais importante, ressaltou Hayat, é que o mundo industrializado respeite os compromissos assumidos em diversas conferências organizadas pela ONU, começando pela Cúpula da Terra de 1992, no Rio de Janeiro, sobre as metas de desenvolvimento sócio-econômico e um ambiente sustentável. No entanto, um informe da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), intitulado “Energia e gênero”, alerta que as mulheres estão largamente marginalizadas do processo de tomada de decisões e que seu papel no manejo de assuntos ambientais é freqüentemente deixado de lado. “Houve pouquíssimas referências ao gênero nas discussões internacionais sobre mudança climática”, diz o documento.

Zeitlin afirmou à IPS que as mulheres sempre foram líderes nos processos de revitalização das comunidades e no manejo dos recursos naturais. “Contudo, são freqüentemente marginalizadas da esfera pública e estão, portanto, ausentes da tomada de decisões em níveis local, nacional e internacional em relação aos desastres naturais”, acrescentou. Há muitos exemplos sobre o papel-chave das mulheres na sobrevivência das comunidades, assegurou Zeitlin. Em Honduras – recordou – La Masica foi o único lugar do mundo onde não houve mortos em razão da passagem do furacão Mitch em 1998, graças a um sistema de alerta operado por mulheres dessa comunidade. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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