EUA: Bush aumenta a tensão com o Irã

Washington, 30/08/2007 – O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, aproveita o recesso do Congresso para aumentar a tensão com o Irã. No começo deste mês, o Departamento de Estado revelou planos para incluir o Corpo de Guardas Revolucionários do Irã (IRGC) em sua lista de organizações terroristas. Na terça-feira, durante um discurso para veteranos de guerra no Estado de Nevada, Bush aumentou a temperatura ao declarar sua intenção de “enfrentar as assassinas atividades de Teerã” no Iraque. Mas o que à primeira vista parece ser parte da habitual guerra de palavras entre Washington e Teerã pode, na realidade, ser a repetição de uma estratégia para provocar a guerra.

Enquanto o Congresso se prepara para enfrentar a Casa Branca sobre a última tática militar no Iraque, que implicou o envio de mais soldados, Bush tem muitas razões para continuar sua campanha contra o Irã. Concentrar-se nesse país pode ajudar a distrair a atenção do fracasso da estratégia denominada “surge” (embate) no Iraque, que não conseguiu deter a violência sectária. Também poderia servir para convencer os congressistas de que o Irã é responsável pelas desgraças dos Estados Unidos em território iraquiano e que suspender os fundos para a guerra somente fortaleceria os líderes de Teerã.

Além disso, o presidente do Irã, Mahmmod Ahmadinejad, parece facilitar-lhe a tarefa. Pouco depois de Bush falar aos veteranos de guerra, o Ahmadinejad deu sua contribuição para as tensões bilaterais. “Logo veremos um grande vazio de poder na região” do Oriente Médio, disse em entrevista coletiva, referindo-se aos Estados Unidos. “Naturalmente, estamos preparados para preencher esse vazio com a ajuda de nossos vizinhos e nossos amigos regionais, como a Arábia Saudita, e com a ajuda da nação iraquiana”, acrescentou o mandatário iraniano.

As acusações de Bush contra o Irã de acrescentar tensão no Oriente Médio sob “a sombra de um holocausto nuclear” e prometendo enfrentar Teerã, cujas ações “ameaçavam a segurança das nações em todas as partes”, parece um eco das declarações contra o regime de Saddam Hussein (1979-2003) antes da invasão do Iraque. De fato, o discurso o presidente norte-americano aos veteranos em Nevada teve muitas semelhanças como o que fez à nação no dia 10 de janeiro, quando revelou novos elementos de uma postura agressiva em relação ao Irã.

Pela primeira vez, Bush acusou Teerã de “fornecer material de apoio para os ataques contra os soldados norte-americanos”, enquanto prometia “desbaratar” as ações contra suas forças e “tentar destruir as redes que fornecem avançadas armas e treinamento aos inimigos dos Estados Unidos no Iraque”. Pouco depois do discurso de janeiro, forças especiais norte-americanas entraram no consulado do Irã na cidade iraquiana de Erbil e detiveram cinco pessoas dessa nacionalidade, as quais Teerã assegura serem diplomatas. Washington afirmou que os detidos são espiões e membros das IRGC.

Nesse mesmo dia, soldados norte-americanos estiveram a ponto de enfrentar forças das milícias curdas “peshmerga” quando buscavam outros iranianos no aeroporto de Erbil. Esta ação dos Estados Unidos foi duramente criticada pelo governo iraquiano. “O que ocorreu foi muito ruim, porque esse era um escritório para as relações com o Irã que funcionava há três anos e fornecia serviços aos cidadãos”, disse o chanceler iraquiano, Hoshiyar Zebari à rede de televisão Al-Arabiya. Além disso, as duras palavras de Bush sobre o Irã em Nevada foram seguidas por uma blitz contra o hotel Sheraton Ishtar em Bagdá, onde oito iranianos foram presos.

Entre eles havia diplomatas e seis membros de uma delegação do Ministério de Eletricidade do Irã. Uma emissora de rádio financiada por Washington informou que a delegação iraniana se encontrava em Bagdá para negociar contratos sobre centrais elétricas. Apesar de os oito iranianos logo terem sido libertados – ao contrário dos cinco de Erbil, que continuam detidos – estas ações, combinadas com a guerra de palavras, poderiam intencionalmente ou por acidente desatar uma crise ainda maior. Um funcionário norte-americano qualificou de “lamentável” o ocorrido no hotel Sheraton, mas negou que estivesse vinculado com as declarações de Bush em Nevada. (IPS/Envolverde)

(*) Trita Parsi é autor de “”Treacherous Triangle — The Secret Dealings of Iran, Israel and the United States” (Triângulo traiçoeiro: As relaçoes secretas de Irã, Israel e Estados Unidos, Yale University Press, 2007). Também é presidente do Conselho Nacional Iraniano Norte-americano.

Trita Parsi

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