Iraque: Martelada dos EUA contra a população civil

Bagdá, 23/08/2007 – A situação no Iraque parece piorar em conseqüência da operação Martelada Relâmpago lançada este mês pelos Estados Unidos ao norte da capital. Uma força de 16 mil soldados norte-americanos e também iraquianos iniciaram no último dia 13 esta operação, que tem como alvo “rebeldes que fugiram por ocasião da campanha na cidade rebelde de Baquba”, objetivo de uma ofensiva lançada em 18 de junho. Martelada Relâmpago é parte de uma operação de maior envergadura, a Ataque Fantasma, com a qual se pretende desbaratar grupos da organização terrorista Al Qaeda no Iraque e de rebeldes do ramo xiita do Islã, majoritária no país.

As duas operações incluem uso intensivo do poder aéreo. Muitos civis se referem com ressentimento a estas ações militares e à linguagem utilizada por Washington para descrevê-las. “Não é a primeira vez que ouvis belas palavras sobre os ataques e que nos asseguram que seu objetivo é garantir nossa segurança e prosperidade”, disse à IPS Kassim Hussein, de 50 anos, professor em Baquba. “Mas cada vez há mais mortos, bloqueios e pobreza. É uma guerra que não tivemos de lutar, mas somos os grandes perdedores cada vez que é reavivada pelos Estados Unidos”, acrescentou.

Segundo o site oficial da força multinacional no Iraque, a operação Ataque Fantasma consiste em ações simultâneas de perseguição de membros remanescentes da Al Qaeda e de “elementos extremistas apoiados pelo Irã”, isto é, xiitas. A ofensiva, acrescenta o comunicado oficial, “libertou grandes segmentos da população” da presença da Al Qaeda, rede em que predomina a presença sunita (o outro ramo do Islã) e está “melhorando de maneira visível a vida do povo iraquiano”.

Entretanto, muitos moradores lembram que ofensivas anteriores em Faluja (60 quilômetros a oeste de Bagdá), Haditha (240 quilômetros a noroeste), Al-Qa’im (440 quilômetros a noroeste), entre outras, praticamente destruíram essas cidades em sua tentativa de combater o terrorismo. “Já não tenho onde viver por causa desta outra operação fantasma em minha cidade”, disse à IPS um ex-funcionário do governo que vivia em Faluja. “Agora tenho que dividir com meu irmão uma pequena casa aqui em Bagdá. Dezenas de milhares estão na mesma situação. Isto é o que os fantasmas e a fúria norte-americana fizeram por nós”, acrescentou.

Um informe do dia 19 sobre as missões da Força Aérea dos Estados Unidos, um bombardeiro B-1 destruiu três edifícios em Bagdá e um caça F-16 disparou suas metralhadoras e foguetes guiados também sobre a capital e 40 quilômetros ao sul, em Iskandariyah. Um total de 68 missões de apoio aéreo foi realizadas nesse dia. “A morte caminha junto com os militares”, disse à IPS Mustafá Hashim, ex-general iraquiano. “Não existem operações limpas e, portanto, é previsível que mais civis morram, fiquem feridos ou sejam expulsos de suas casas”, acrescentou.

Mais de um milhão de iraquianos perderam em conseqüência direta da invasão do país liderada pelos EUA, segundo a organização independente Política Externa Justa, com sede em Washington. Esta instituição propõe reformar a política norte-americana par que “sirva aos interesses e reflita os valores da grande maioria dos norte-americanos”. O número citado por esta organização se baseia na extrapolação de dados publicados pela revista medica britânica The Lancet no dia 11 de outubro de 2006.

“O método do exército norte-americano quanto ataca uma cidade é empregar fogo intensivo, sem levar em conta a possível presença de civis na área tomada como alvo”, disse Hahsim. “De fato, dispararam, mesmo quando existe a certeza de que há civis presentes. Sua cultura é a de obter a vitória a qualquer preço”, acrescentou. Os iraquianos põem em dúvida as declarações das forças dos Estados Unidos sobre os êxitos obtidos em suas últimas operações. “Tudo isso tem a ver com a mídia, a política, as eleições e os conflitos dentro do Congresso em Washington”, disse à IPS Waleed al-Ubaydi, analista político da Universidade de Bagdá.

“Eles sabem de antemão que suas ofensivas não conseguirão muito mas têm de mostrar à sua gente e ao mundo que estão ativos no campo de batalha”, acrescentou al-Ubaydi. “A Al Qaeda e outros grupos puseram suas células a “dormir” por enquanto e buscam pegar o exército norte-americano de surpresa aqui e ali. Esta é uma história sem fim, salvo se ocorrer um milagre, em tempos em que milagres não ocorrem”, acrescentou este analista. Muitos iraquianos afirmam que as forças de ocupação deveriam cuidar de melhorar a péssima situação dos civis. A responsabilidades das forças de ocupação é garantir condições dignas de vida, em lugar de travar em solo iraquiano e às custas de seus habitantes a guerra do presidente dos Estados Unidos George W. Bush, acrescentam.

“Bush não tem nada a perder aqui, exceto sua reputação, que já perdeu, de todo modo”, disse à IPS Hamdan Salih, um advogado desempregado. O governo norte-americnao “obriga os iraquianos a combaterem entre si enquanto ataca nossas cidades em busca de seus inimigos, que na maioria dos casos são nossos filhos e irmãos. Bush está sacrificando os peões iraquianos em beneficio do rei do petróleo”, afirmou. (IPS/Envolverde)

Ali al-Fadhily

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