Lisboa, 14/08/2007 – Cinco anos de independência pouco significam para a imensa maioria da martirizada população de Timor Leste. Alunas de um colégio católico violadas, 142 casas destruídas e incendiadas e veículos da Organização das Nações Unidas atacados são algumas das marcas da violência desses últimos anos. Os confrontos aconteceram, na última quarta-feira, após a posse como primeiro-ministro do ex-presidente José Alexandre Gusmão, o comandante da resistência contra a ocupação da Indonésia, que invadiu a ex-colônia portuguesa de um milhão de habitantes quando esta declarou sua independência unilateral de Lisboa, em dezembro de 1975.
A tensa calma registrada ontem em Dili, a capital, e em Baucau, a segunda cidade em importância do país, é garantida por cerca de três mil soldados e policiais estrangeiros, especialmente australianos, malaios e portugueses, que contam com o mandato da ONU. Os militantes e simpatizantes da Frente Revolucionária de Timor Independente (Fretilin) do ex-primeiro-ministro Mari Alkatiri (2002-2006) não parecem dispostos a acatar a decisão do presidente da jovem república, José Ramos-Horta, de nomear seu antecessor como chefe de governo.
A Fretilin qualificou de “inconstitucional” a decisão do chefe de Estado, argumentando que, apesar de não ter conseguido a maioria absoluta como nas eleições de 2002, foi o partido mais votado nas eleições legislativas de 30 de junho, obtendo 29,2% dos votos. O Congresso Nacional de Reconstrução de Timor (CNRT) conseguiu 23,4%, uma humilhação para seu líder, Xanana Gusmão, o outrora dirigente mais popular e respeitado de Timor, apelidado de “o Che Guevara da Ásia”, por ter resistido durante duas décadas com não mais de 200 guerrilheiros aos 22 mil soldados do exército indonésio.
Mas, para Ramos-Horta contou mais o sentimento “anti-Alkatiri” reinante no país e baseou sua decisão na soma dos votos dos demais partidos com representação parlamentar em torno de Gusmão, que, assim, poderia contar com o apoio de 37% dos 65 deputados do Congresso unicameral de Timor Leste. A soma corresponde às porcentagens de votos obtidos pela Associação Social-Democrática de Timor com 15,8%, o Partido Democrático com 11,5%, o Partido da Unidade Nacional com 4,6%, aliança da Associação Social Democrática Timorense-Partido Social-Democrata e a Unidade Nacional de Resistência Timorense, ambas com 3,2%.
Consultado por telefone pela IPS sobre sua decisão, Ramos-Horta afirmou que “as maiorias e as minorias estão no parlamento, não nas ruas, porque o povo delegou aos deputados poderes para representá-las”. O atual mandatário, ganhador do prêmio Nobel da Paz em 1996 junto com seu compatriota Carlos Ximenes Belo, justificou sua opção baseando-se na coalizão “que representa neste momento a opinião política da maioria da população”. Também reconheceu, quanto à violência que parece perdurar, que “as feridas são profundas, frescas, feridas reabertas neste último conflito e nos conflitos passados”.
Os fatos mais graves foram relatados à imprensa portuguesa destacada em Timor Leste pelo padre Basílio Maria Ximenes, superior da ordem dos Salesianos, descrevendo o ataque de uma centena de jovens que violentaram algumas alunas de uma escola de freiras, entre elas uma menina de 12 anos. Embora não mencionando a condição de muçulmano do líder da Fretilin, a crítica do religioso está implícita ao afirmar que “essas pessoas, em sua maioria jovens, consideram as freiras e a Igreja Católica como seus inimigos, e não só violaram as alunas como, também, destruíram a escola”.
O bispo de Dili, Alberto Ricardo da Silva, que criticou dura e abertamente Alkatiri enquanto governou, disse à Agência Noticiosa Católica da Ásia (UCAN, sigla em inglês) que apóia o compromisso assumido na quarta-feira passada por Gusmão, de convidar a Igreja Católica para trabalhar com seu governo a favor da paz e do desenvolvimento. Não existem dados precisos do número de pessoas que abandonaram suas casas por causa da violência nem dos danos a propriedades públicas, embora os correspondentes portugueses na ilha e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) tenham informado sobre destruição e saques a várias escolas e centros educacionais, que causaram 50 detidos e vários feridos.
Os observadores internacionais estimam que a normalidade poderia começar a voltar gradualmente, após as declarações de Alkatiri no domingo, quando negou que militante da Fretilin participem de atos de violência e exortou seus simpatizantes a terem calma e se ofereceu para investigar os fatos em colaboração com a ONU. A profunda divisão política derivada da surda luta pelo poder é um argumento recorrente para explicar a falta de estabilidade em Timor Leste desde que acabou o protetorado da ONU, entre 2000 e 2002. Entretanto, as frustrantes condições econômicas, especialmente a falta de futuro para os jovens, também é um fator considerável de violência.
Com um produto interno bruto por habitante de US$ 398 ao ano, esta pequena e jovem república asiática de 15 mil quilômetros quadrados é um dos países mais pobres do mundo, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Em um informe divulgado no ano passado, esta agência da ONU afirmou que “quatro anos depois de obter a independência, um Timor Leste empobrecido continua sendo uma das nações menos desenvolvidas do mundo”. Nesse país, “a metade da população não tem água potável, 60 em mil recém-nascidos morrem antes de completar um ano e a expectativa de vida de apenas 55,5 anos em 2004 não estão melhorando”, diz o informe.
O documento do Pnud diz que, “embora politicamente o país seja livre, seus habitantes continuam escravizados pela pobreza”. Mas esta explicação não convence o analista Leonídio Paulo Ferreira, do Diário de Notícias, de Lisboa, que em alusão a Gusmão publicou ontem um artigo intitulado “Quis ser vendedor de abóboras, mas agora é primeiro-ministro”. Ferreira descreve Gusmão como o “herói nacional, que em 2002 se converteu no primeiro presidente do país e que passou todo o tempo dizendo que o poder não o seduzia”.
Tendo ao lado sua mulher, a australiana Kristy Sword, e seus três filhos, garantia que sonhava ter tempo para fotografar, que estava ansioso pelo fim de seu mandato em 2007 e até admitia se transformar em um vendedor de abóboras”, escreveu Ferreira. Sete meses depois, “Xanana é primeiro-minitro, líder de um partido formado às pressas, que nem mesmo foi o mais votado nas eleições legislativas” e nas ruas, “hoje há quem chame de traidor o irmão maior e queime casas para protestar. O mais triste, conclui o colunista, é que “Xanana mudou mais de 80% dos votos que um dia (de 2001) o elegeram presidente por 24% do CNRT. Fotografo ou vendedor de abóboras, lhe era possível ser um Nelson Mandela timorense, referencia unânime para seu povo ainda em busca de um timoneiro, mas, optou por ser um político normal”. (IPS/Envolverde)

