Saúde: Boicote contra Novartis continua na Índia

Bangalore, 29/08/2007 – Ativistas indianos mantêm o boicote contra a companhia farmacêutica suíça Novartis AG, quer persiste em seu bombardeio judicial contra a Lei de Patentes da Índia. O laboratório perdeu na Suprema Corte de Chennai (nome moderno da cidade de Madrás, no Estado de Karnataka) um processo segundo o qual esta empresa viola acordos da Organização Mundial do Comércio. Porém, no dia seguinte teve início no mesmo tribunal ações que constituem apelações indiretas, informou à IPS Gopa Dabade, presidente do Fórum de ação por Medicamentos da Índia em Karnataka (DAF-K) e um dos fundadores da Rede de ação pelos Medicamentos da Índia (Aidan).

A nova demanda, apresentada pela Novartis no último dia 8, questiona a nomeação de S. Chandrashekaran como membro técnico da Junta de Apelações sobre Propriedade Intelectual criada por aquela lei. Em janeiro de 2006, o Escritório de Patentes da Índia, então sob comando de Chandrashekharan, rejeitou a solicitação de registro da companhia para seu remédio contra o câncer Glivec. O laboratório apresentou uma demanda contra essa decisão na Suprema Corte de Chennai, que determinou ao Escritório de Patentes a formação imediata da Junta de Apelações, de modo a dar à companhia farmacêutica um espaço para o recurso. A Junta foi formada tendo Chandrashekharan entre seus integrantes.

A Novartis considera em sua demanda do dia 8 deste mês que Chandrashekharan deve ficar fora da Junta porque está “tendente” contra sua causa, devido ao antecedente da patente do Glivec. “Peço cautela diante desta apelação, porque a Novartis pode aproveitar a complacência que reina entre os ativistas para incentivar seus propósitos fora da atenção pública”, disse Dabade. DAF-K e Aidan relançaram seu boicote contra o laboratório e enviaram cartas em busca de ajuda às 480 filiais da Associação de Médicos da Índia no Estado de Karnataka.

Anand Grover, do Colégio de Advogados, organização que representou no processo a Associação de Ajuda aos Pacientes de Câncer, se manifestou preocupado pela apelação da Novartis e pela suspensão dos procedimentos da Junta determinada pela Suprema Corte de Chennai. Segundo Grover, a nova demanda não tem relação com os questionamentos da companhia à lei sobre patentes da Índia. “Devemos estar alertas porque pode haver pressões para emendar a lei”, disse o advogado à IPS.

“A sentença foi um grande alívio”, disse, por sua vez, Amit Sengupta, do Fórum de Ciências de Délhi, organização dedicada a analisar como as políticas nessa matéria afetam o público e que também é contra às gestões judiciais da Novartis. “O problema, agora, é até que ponto o governo pode manter vigente a lei de patentes, quanta pressão consegue resistir desde interesses comerciais e de outro tipo”, alertou Sengupta. De todo modo, a sociedade civil esta exultante por sua vitória contra o laboratório.

“É uma grande dissuasão contra as petições frívolas de empresas privadas que desafiam as leis soberanas da Índia”, afirmou Prasana, ativista em Bangalore da organização Jan Swasthya Abhiyan, o ramo indiano do internacional Movimento pela Saúde do Povo. A nova lei de patentes da Índia, em vigor desde 2005, permite proteger autênticas inovações de produtos introduzidos no mercado depois de 1995, quando esse país aderiu à OMC e aceitou seu acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados com o Comércio (Trips).

A Novartis alegava ter melhorado a formula do Glivec, lançado no mercado antes de 1995, tornando-a mais fácil de ser absorvida pelo organismo. Seu principio ativo, o imatinib mesilato, já era fabricado como genérico na Índia e vendido a um preço muito menor do que o do medicamento patenteado. Porém, diante da resposta negativa do Escritório de Patentes, que entendeu que a inovação do Glivec não era suficiente para torná-lo merecedor da patente, a companhia iniciou a demanda. O laboratório considera que a cláusula 3 (d) da lei é ambígua e viola o Trips e, ainda, que a negar a patente para o Glivec é inconstitucional.

“Os países em desenvolvimento e agências internacionais como Unicef e Fundação Clinton dependem em grande parte da importação de remédios acessíveis na Índia”, explicou o diretor internacional da organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras, Christophe Fournier. “Oitenta e quatro por cento dos remédios que o MSF administra aos seus pacientes em todo o mundo procedem de fábricas de genéricos indianas”, calculou Fournier. “Também questionamos a maneira como os laboratórios, como o Novartis, são premiados como empresas com responsabilidade social pelas agências da Organização das Nações Unidas”, disse Thelma Narayan, da Célula de Saúde Comunitária de Bangalore e integrante do Jan Swasthya Abhiyan.

Dabade também considera o caso de questionar os antecedentes históricos da Novartis, empresa fundada em 1996 pela fusão dos laboratórios Sandoz, Ciba e Geigy, subsidiários do grupo químico alemão IG Farben, que produzia o gás venenoso Zyklon B, usado nos campos de concentração nazistas. A Novartis também anunciou que vai retirar investimentos da Índia em conseqüência da decisão do tribunal de Chennai. “Isto não é um convite para investir em pesquisa e desenvolvimento na Índia. Investiremos mais em países onde estamos protegidos”, disse o chefe da Novartis, Daniel Vasella, ao jornal britânico Financial Times. (IPS/Envo

Keya Acharya

A journalist with over 20 years of experience in in-depth writing and researching environment and development issues in Asia, Africa, Europe and Latin America. Keya has travelled widely, covering assignments in various areas of the world. Her research has included climate change, urban solid waste management, rural alternative energy systems, implementation of laws on industrial hazardous wastes, human rights, ecotourism, wildlife issues, transgenic cotton, corruption and environment, population and gender, e-governance, agribiotech and forests and encroachments, among other topics. Keya is vice chair of the Forum of Environmental Journalists of India, and has organised several media-training workshops, convened international media meetings and undertaken media study tours. Keya has won several research and media fellowships and is the recipient of the Press Institute’s award for Excellence in Human Development Reporting; the Prem Bhatia Award for Environmental Reporting, and the Green Globe Foundation award for Outstanding Media Contribution by a Media Individual. Keya has also conducted development journalism studies as visiting faculty, chaired media and international conference panels, and edited ‘The Green Pen’, an anthology of essays on environmental journalism, the first of its kind in South Asia, featuring the region's most prominent and respected environmental journalists.

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