Água: O rio Danúbio pode voltar a ser azul

Belgrado, 13/09/2007 – A maior expedição científica sobre um rio percorre atualmente o Danúbio para avaliar se pode voltar a ter a emblemática cor observada por Johan Strauss em sua famosa valsa.

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A Pesquisa Conjunta do Danúbio 2 já passou pela Servia, desde à Alemanha, rumo ao imponente delta do rio na Romênia. Os resultados obtidos pelos 18 especialistas de oitos países europeus que viajam a bordo de três embarcações, cuja travessia começou em agosto na cidade alemã de Regensburgo e terminará no final deste mês em território romeno, se somarão ao relatório da experiência anterior, Investigação Conjunta do Danúbio 1, de 2001.

Os cientistas extraem milhares de amostras de água e sedimentos de 95 pontos para em seguida avaliar o que se pode fazer para limpar o rio e fazer com que volte a ser chamado de Danúbio Azul, nome que lhe deu o compositor vienense na valsa que compôs em 1867. Embora, talvez, tenha sido apenas um nome romântico. “É difícil dizer se alguma vez o Danúbio foi azul”, disse à IPS o chefe da equipe, Bela Czany, da Hungria. “É mais cinza ou marrom e em algumas confluências, como aqui em Belgrado, com o rio Sava, pode-se ver os dois cursos de água mesclados”, acrescentou.

O Danúbio tem múltiplos problemas. Além da contaminação orgânica e microbiológica, a água contém metais pesados, petróleo dos barcos, pesticidas e cerca de 250 produtos químicos. Com seus 2.888 quilômetros, este rio é o segundo mais longo da Europa, depois do Volga, na Rússia. Essa via navegável nasce na Floresta Negra alemã e percorre Áustria, Bulgária, Croácia, Eslováquia, Hungria, Moldóvia, República Checa, Romênia, Servia e Ucrânia. Na bacia do rio vivem 81 milhões de pessoas. Mas outras cinco nações (Bósnia-Herzegovina, Eslovênia, Geórgia, República checa e Turquia) que não têm acesso direto ao rio o alcançam através de outras vias fluviais ou pelo mar Negro.

A pesquisa pretende apresentar dados comparativos a todas as nações da bacia para reduzir os níveis de contaminação. Os governos envolvidos prometeram acatar a Diretriz Marco de Água, da União Européia, no sentido de reduzir a contaminação até 2015. Os especialistas consideram essa norma como a mais sólida do mundo. Sete dos países da bacia do Danúbio são membros da UE: Alemanha, Áustria, Bulgária, Eslováquia, Hungria, República Checa e Romênia, e outros esperam fazer parte do bloco muito em breve. “Todas as nações agora trabalham juntas”, disse à IPS Phillip Weller, da Comissão Internacional para a Proteção do Rio Danúbio, com sede em Viena.

“O Danúbio é o rio mais internacional do mundo, une diversas áreas, os Alpes, a grande planície húngara, o delta do rio e o mar Negro. Também liga diversas culturas e pessoas”, disse Weller. “As pessoas da região se conscientizam da importância de administrar e melhorar a qualidade da água do rio, seja para pescar, para o uso cotidiano ou apenas para nadar. Isso acontece, sobretudo, entre os jovens, que são os mais interessados em proteger o Danúbio”, acrescentou.

Por sua vez, o chefe da Diretriz de Águas sérvio, Nikola Marjanovic, disse que a comparação das pesquisas de 2001 e 2007 marcará o curso que deverão seguir as nações que integram a bacia. “A pesquisa de 2001 nos deu uma mescla de resultados positivos e negativos”, disse Marjanovic à IPS. “Entre os aspectos positivos está a grande biodiversidade e as espécies raras encontradas”, afirmou. “Entre os negativos, o importante é a significativa conscientização gerada entre a população que vive ao longo do Danúbio, para a qual é vital que o rio volte a ser o mais saudável possível”, acrescentou.

A situação não é igual em todas as partes. “Há diferentes problemas ao longo do rio que não conhece fronterias e representa seu próprio mundo”, afirmou Csany. “Na zona alta, desde Alemanha até Budapeste. Notamos mudanças hidromorfológicas (mudanças de relevo relacionados com a água), mas desde a capital húngara rio abaixo há uma radical mudança negativa, quando intervém a contaminação”, explicou. Isso se deve em grande parte à enorme quantidade de contaminação orgânica de Budapeste, de 2,1 milhões de habitantes, e rio abaixo, de Belgrado, com dois milhões de pessoas. Budapeste pretende instalar uma nova estação de processamento de esgoto sobre o Danúbio até 2010. Belgrado não possui instalações desse tipo.

A Sérvia ficou livre de adotar medidas ligadas ao Danúbio nos anos 90 porque estava sob rígidas sanções internacionais. Entre elas, a proibição de transportar bens pelo rio que rege para outros países. O trajeto de 600 quilômetros ao longo da Sérvia esteve interrompido durante anos após o bombardeio pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de 1999. Muitas pontes foram destruídas e seus restos acabaram de ser removidos apenas em 2003. “Mas, tudo isso ficou no passado”, assegurou Czany. “Estamos encantados com o fato de tanta gente, nos 10 portos por onde passamos, saberem do que se trata a expedição. Gente simples está bem ao par da contaminação do Danúbio. Estou feliz por vê-los tão interessados e de responder às suas perguntas. Para muitas pessoas, o rio simplesmente é seu lar, sem importar o país no qual vivem”, concluiu. (IPS/IFEJ/Envolverde))

* Este artigo é parte de uma série sobre desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter Press Service) e IFEJ (siglas em inglês de Federação Internacional de Jornalistas Ambientais).

Vesna Peric Zimonjic

Vesna Peric Zimonjic is a freelance journalist working from the Balkan region with more than three decades of experience. She has contributed to IPS since the disintegration of the former Yugoslavia in 1991. Vesna also conducts political analyses of the region and contributes to the London-based daily The Independent, BBC World Service and German Deutsche Welle radio and television.

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